Cláudio da Costa Oliveira setembro 2026
Tenho uma fotografia de meu pai, em 1926, aos treze anos, com amigos da mesma idade, no centro do Rio de Janeiro. Todos de terno, gravata e chapéu. E cigarro na boca.
Na memória da família, os ternos eram de gabardine inglesa. A fotografia me faz pensar na influência estrangeira sobre nossos costumes. Para compreender seu peso na economia, precisamos olhar também para o comércio, os bancos e os investimentos.
Durante o século XIX, a Grã-Bretanha ocupou uma posição central nesses negócios. Segundo o historiador Leslie Bethell, em 1913 os investimentos britânicos ainda representavam cerca de 65% dos investimentos estrangeiros no Brasil. Leslie Bethell.
Portanto, quando falamos no século inglês do Brasil, estamos falando de uma presença que atravessou o Império e avançou pela República.
No FS 200, vimos como a abertura dos portos, em 1808, e os privilégios comerciais de 1810 favoreceram os produtos britânicos. A independência de 1822 preservou importantes vínculos comerciais e financeiros com Londres.
A partir de 1855, a casa bancária N. M. Rothschild & Sons tornou-se agente financeiro do governo brasileiro em Londres. Organizava operações pelas quais investidores emprestavam recursos ao Brasil mediante a compra de títulos da dívida. The Rothschild Archive.
Os recursos permitiam financiar despesas e investimentos. Ao mesmo tempo, criavam compromissos futuros com credores estrangeiros.
As empresas britânicas também participaram das ferrovias, dos bancos, dos seguros e dos serviços urbanos. A São Paulo Railway, inaugurada em 1867, ligava Santos a Jundiaí, passando por São Paulo, numa região decisiva para a expansão cafeeira. Leslie Bethell.
A infraestrutura ampliava a capacidade de produzir e transportar. Precisamos perguntar como seus benefícios eram distribuídos e quanto desse movimento se transformava em conhecimento e fabricação dentro do Brasil.
É aqui que a escravidão volta ao centro da análise.
O café que circulava por essas redes foi, durante grande parte do século XIX, produzido por trabalhadores escravizados. Uma das maiores atrocidades da humanidade sustentava negócios que geravam patrimônio para proprietários, comerciantes e financiadores. Leslie Bethell.
Essa estrutura envolvia interesses brasileiros. Os grandes proprietários participavam do poder e defendiam seus negócios. Minha interpretação é que a dependência externa se apoiava também nessa concentração interna da riqueza e das decisões.
A própria relação com a Inglaterra apresentava conflitos: depois de abolir seu tráfico de escravizados, em 1807, o governo britânico pressionou o Brasil a encerrá-lo. Essa pressão enfrentou forte resistência dos interesses ligados ao cativeiro. Leslie Bethell.
Também precisamos lembrar a educação colonial. Os jesuítas, presentes desde 1549 até a expulsão em 1759, tiveram papel decisivo na formação intelectual e religiosa. HISTEDBR/Unicamp.
Retomo a pergunta do FS 202: como os ensinamentos sobre obediência e pobreza foram utilizados numa sociedade tão hierarquizada? A fé pode inspirar justiça e solidariedade. A aceitação das desigualdades como algo inevitável merece ser questionada.
Para construir autonomia, o acesso à educação, ao trabalho qualificado e à participação precisava alcançar a população excluída.
No começo do século XX, a posição britânica começou a ser crescentemente disputada. Os Estados Unidos já eram o principal comprador das exportações brasileiras desde meados da década de 1860. A Primeira Guerra Mundial acelerou sua expansão como fornecedores, investidores e financiadores. Eugênio Vargas Garcia.
Foi uma transição gradual. Comprar nosso café, fornecer nossas máquinas e financiar nosso governo eram posições diferentes, que mudaram em ritmos distintos. A influência americana já crescia décadas antes de Bretton Woods, em 1944.
Mudar o principal parceiro comercial, por si só, não resolve o problema do desenvolvimento.
O desafio brasileiro continua sendo transformar relações internacionais em capacidade própria de produzir, aprender e distribuir oportunidades.
Um povo precisa poder participar da riqueza que ajuda a construir.
Fala sério!
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REFERÊNCIAS
- Leslie Bethell — Britain and Brazil (1808–1914), University of London Press. Comércio, investimentos, ferrovias e conflitos em torno do tráfico de escravizados.
- The Rothschild Archive — Brazilian bond and scrip, 1824. Operações financeiras e nomeação da casa como agente do governo brasileiro em 1855.
- Eugênio Vargas Garcia — Estados Unidos e Grã-Bretanha no Brasil: transição de poder no entreguerras. Contexto Internacional, v. 24, n. 1, 2002, p. 41–71.
- Sônia Maria Fonseca — A hegemonia jesuítica (1549–1759), HISTEDBR/Unicamp. Educação e catequese na formação colonial.