FALA SÉRIO 199, O “MERCADO LIVRE” QUE O ESTADO CONSTRUIU.

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Cláudio da Costa Oliveira     setembro 2026.

Energia, aço, terras e ferrovias na construção dos Estados Unidos

Costuma-se dizer que os Estados Unidos se transformaram numa potência graças ao mercado livre e à iniciativa privada.

Mas será que o mercado americano surgiu sozinho?

Os Estados Unidos declararam sua independência em 1776. A Constituição foi aprovada em 1787 e o governo da República federal começou a funcionar em 1789.

Quando o Brasil proclamou a República, em 1889, os americanos já acumulavam aproximadamente cem anos de construção republicana.

Eles romperam politicamente com a Inglaterra, mas não abandonaram o conhecimento acumulado pelos ingleses.

A Inglaterra havia iniciado a Revolução Industrial utilizando carvão mineral, máquinas a vapor, ferro e, posteriormente, aço.

Os americanos absorveram essas tecnologias, receberam milhões de imigrantes europeus e desenvolveram sua própria indústria.

Além disso, possuíam uma vantagem fundamental: enormes reservas de carvão mineral.

Naquela época, carvão significava energia.

Energia abundante, armazenável, constante e relativamente barata. Podia movimentar fábricas e locomotivas durante o dia e a noite, independentemente do vento, do sol ou da chuva.

Algumas das primeiras locomotivas americanas ainda queimavam madeira. Mas o carvão passou progressivamente a movimentar ferrovias, máquinas a vapor e siderúrgicas.

O carvão movimentava os trens. Os trens transportavam carvão e minério de ferro. O carvão, transformado em coque, alimentava as siderúrgicas. E o aço produzido era utilizado para fabricar trilhos, pontes, locomotivas, vagões e máquinas.

Um setor criava mercado para o outro.

Entretanto, o governo americano não ficou apenas observando esse processo.

Em 1862, em plena Guerra Civil, foram aprovadas três leis fundamentais.

A primeira foi o Homestead Act, que permitia às famílias receber até 160 acres de terras públicas, aproximadamente 65 hectares, desde que ocupassem e cultivassem a propriedade.

Durante a vigência dessa legislação, mais de 270 milhões de acres foram entregues.

A segunda foi o Pacific Railway Act, que concedeu terras públicas e empréstimos federais para a construção da ferrovia e do telégrafo ligando o território americano.

As empresas ferroviárias recebiam terras ao longo dos trilhos. Depois vendiam parte delas para agricultores, comerciantes e moradores.

Ao redor das estações nasciam propriedades rurais, oficinas, armazéns e cidades. A valorização e a venda das terras ajudavam a financiar o avanço da própria ferrovia.

A terceira foi o Morrill Act, que destinou terras públicas aos estados para financiar universidades voltadas à agricultura, à mecânica e à engenharia.

O governo distribuía terras para produzir, financiava ferrovias para transportar e criava escolas para formar técnicos e engenheiros.

Mas existia outra condição muito importante.

A seção 4 da Lei da Ferrovia do Pacífico determinava que os trilhos e todo o ferro utilizado na construção e nos equipamentos da ferrovia deveriam ser de fabricação americana e da melhor qualidade.

Não era apenas uma recomendação.

Era uma exigência de conteúdo nacional ligada à concessão das terras e dos financiamentos públicos.

O governo ainda nomeava comissões para inspecionar cada trecho concluído antes de liberar novos títulos e terras.

O resultado apareceu rapidamente.

A rede ferroviária americana passou de aproximadamente 29 mil milhas em 1860 para quase 88 mil milhas em 1880. Em vinte anos, praticamente triplicou.

No mesmo período, a produção de carvão cresceu de pouco mais de 20 milhões para perto de 80 milhões de toneladas anuais.

Foi nesse ambiente que Andrew Carnegie, um imigrante escocês que havia trabalhado no setor ferroviário, construiu seu negócio siderúrgico.

Carnegie conheceu na Inglaterra o processo Bessemer, que permitia produzir aço em grande quantidade e com custos menores. Em 1875, sua primeira grande siderúrgica começou a fabricar trilhos de aço.

Não encontrei comprovação de que o governo tenha garantido diretamente a compra de toda a produção de Carnegie.

Mas o Estado havia financiado e estimulado a construção das ferrovias, criando uma enorme procura por trilhos, locomotivas, pontes e vagões.

O Estado não precisava produzir todo o aço. Criava as condições para que o empresário investisse, produzisse e encontrasse compradores.

Esse processo não deve ser idealizado.

Grande parte das terras distribuídas havia sido tomada dos povos indígenas. A escravidão permaneceu até 1865. Trabalhadores ferroviários e siderúrgicos foram duramente explorados. Houve corrupção, especulação e formação de monopólios.

Mas havia um projeto de integração nacional.

Mais de 160 anos depois, os Estados Unidos continuam agindo da mesma maneira.

O governo americano concedeu um financiamento de 565 milhões de dólares para expandir a produção de terras raras da Serra Verde, em Goiás. Também participou da criação de uma estrutura de 1,55 bilhão de dólares destinada a garantir a compra dessa produção e fortalecer a cadeia industrial americana.

Mudaram os produtos.

Antes eram terras, carvão, ferrovias e aço. Hoje são terras raras, semicondutores, energia e tecnologia.

O método, entretanto, permanece semelhante.

O Estado reduz os riscos. A empresa privada investe. A produção recebe mercado. E o conhecimento permanece no país.

Isso não é ausência do Estado.

É o Estado utilizando o mercado para construir e defender um projeto nacional.

No próximo Fala Sério, veremos o que aconteceu com as ferrovias brasileiras.

O Brasil também utilizou recursos públicos.

Mas será que utilizou esses recursos para desenvolver a indústria brasileira?

CRITICAS, OPINIÕES, SUGESTÕES : soberanobrasiles@gmail.com

REFERÊNCIAS

  1. NATIONAL ARCHIVES. Declaration of Independence: A Transcription.
    https://www.archives.gov/founding-docs/declaration-transcript
  2. NATIONAL ARCHIVES. Constitution of the United States: A Transcription.
    https://www.archives.gov/founding-docs/constitution-transcript
  3. NATIONAL ARCHIVES. Homestead Act (1862).
    https://www.archives.gov/milestone-documents/homestead-act
  4. NATIONAL ARCHIVES. Pacific Railway Act (1862). Ver especialmente as seções 4 e 5.
    https://www.archives.gov/milestone-documents/pacific-railway-act
  5. NATIONAL ARCHIVES. Morrill Act (1862).
    https://www.archives.gov/milestone-documents/morrill-act
  6. UNITED STATES CENSUS BUREAU. The Transcontinental Railroad.
    https://www.census.gov/about/history/stories/monthly/2023/may-2023.html
  7. U.S. ENERGY INFORMATION ADMINISTRATION. How much coal is left?
    https://www.eia.gov/energyexplained/coal/how-much-coal-is-left.php
  8. NATIONAL PARK SERVICE. Golden Spike National Historical Park — Frequently Asked Questions.
    https://www.nps.gov/gosp/faqs.htm
  9. LIBRARY OF CONGRESS. Edgar Thomson Steel Works.
    https://www.loc.gov/pictures/item/pa3380/
  10. U.S. INTERNATIONAL DEVELOPMENT FINANCE CORPORATION. Critical minerals investments — Serra Verde.
    https://www.dfc.gov/media/press-releases/dfc-highlights-landmark-critical-minerals-investments-strengthen-us-national
  11. U.S. DEPARTMENT OF WAR. Investment to secure critical rare-earth elements from Serra Verde, 24 de agosto de 2026.
    https://www.war.gov/News/Releases/Release/Article/4581110/department-of-war-announces-a-750-million-investment-as-part-of-a-155-billion-i/

Acesso às fontes digitais em 8 de setembro de 2026.

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