O gigante francês da energia atômica exporta seu saber-fazer para a primeira usina nuclear do Oriente Médio: Barakah

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A usina nuclear de Barakah, nos Emirados Árabes Unidos, virou vitrine global de transição energética. E, silenciosamente, abriu espaço para que a francesa Framatome finque seus alicerces tecnológicos no coração da primeira central nuclear em operação no mundo árabe.

Barakah, o deserto que virou laboratório da transição energética

Construída na costa oeste dos Emirados, Barakah abriga quatro reatores do tipo PWR, reatores de água pressurizada, tecnologia predominante no parque nuclear mundial. O cenário é curioso: entre dunas e mar, um país rico em petróleo decide investir pesado na energia do átomo.

Hoje, a usina já responde por cerca de um quarto da eletricidade consumida no país, com uma produção anual estimada em 40 TWh. Essa geração é livre de emissões diretas de CO₂ na fase de operação, o que transforma Barakah em peça central da estratégia de descarbonização dos Emirados.

Barakah evita, todos os anos, emissões equivalentes a 22,4 milhões de toneladas de CO₂ – algo próximo a tirar 5 milhões de carros das ruas.

Para um Estado cuja imagem está intimamente ligada ao petróleo, o recado é calculado: mostrar ao mercado internacional que o país leva a sério metas climáticas, sem abrir mão de segurança energética e de crescimento econômico acelerado.

Por que os Emirados querem diversificar o combustível nuclear

Com os quatro reatores funcionando, a próxima preocupação da operadora ENEC é garantir que o combustível nuclear não vire um gargalo estratégico. A guerra na Ucrânia, sanções a fornecedores tradicionais e tensões comerciais deram um alerta ao setor: depender de um único país ou empresa pode sair caro.

Daí nasce o interesse por Framatome. A francesa entra no tabuleiro não como simples fornecedora pontual, mas como candidata a parceira de longo prazo. A jogada é clara: criar uma segunda rota confiável de abastecimento, com know-how robusto e certificações rigorosas.

O papel da Framatome: do projeto ao teste em reator real

A peça central desse avanço são os chamados “assemblages combustíveis precursores”. Em termos práticos, são conjuntos de varetas com pastilhas de combustível nuclear desenhados sob medida para Barakah. Eles funcionam como amostras de qualificação, uma espécie de prova real diante do reator.

Esses conjuntos foram fabricados na planta de Richland, no estado de Washington, nos Estados Unidos, uma das bases industriais mais tradicionais da Framatome. A unidade acumula mais de 55 anos de produção de combustível para reatores civis, com histórico de milhares de entregas ao redor do planeta e um desempenho de segurança bem avaliado pelo regulador nuclear americano.

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Antes de chegar ao núcleo do reator, cada novo modelo de combustível enfrenta uma bateria de testes térmicos, mecânicos e hidráulicos para verificar comportamento em condições extremas.

O objetivo é checar, com dados de operação real, se o combustível projeta a mesma confiabilidade em Barakah que já entrega em outras centrais. Duração, resistência, estabilidade química, interação com os materiais do reator: tudo entra na conta antes que o fornecimento comercial seja aprovado.

Parceria que vai além da venda de tubos de urânio

Framatome não entra sozinha nessa empreitada. Engenheiros sediados em Lynchburg, na Virgínia, prestam suporte técnico direto ao operador de Barakah. Isso inclui modelagem de desempenho dos núcleos, recomendações de carregamento de combustível e acompanhamento dos testes em campo.

Essa presença técnica contínua tende a criar uma relação mais densa, na qual a empresa francesa passa a influenciar rotinas de operação e manutenção. Para a ENEC, é acesso a décadas de experiência acumulada em diferentes reatores. Para a Framatome, é porta de entrada num mercado que ainda deve crescer no Golfo.

Barakah como vitrine regional

Se os testes com os assemblages precursores forem bem-sucedidos, Framatome se habilita a fornecer combustível para os quatro reatores de Barakah ao longo de vários ciclos de operação. Essa posição tem peso político e comercial.

Vizinhos que estudam opções de energia nuclear – como Arábia Saudita, Egito ou até países fora do Golfo, mas ligados à região – observam de perto a performance de Barakah. A combinação de alta disponibilidade da usina com baixos índices de incidente e um mix de fornecedores diversificado cria um modelo potencialmente replicável.

Framatome como player global em um mapa nuclear em mutação

A aposta em Barakah não é um movimento isolado. Framatome vem costurando, há mais de quatro décadas, uma rede de contratos na Europa, Ásia, Américas e África. A empresa atua tanto com combustível quanto com serviços de engenharia, modernização de reatores e apoio regulatório.

Onde o gigante francês já deixou sua marca

  • China: fornecimento de combustível para os EPR de Taishan, os primeiros reatores desse tipo em operação comercial.
  • Estados Unidos: atendimento a várias usinas PWR e BWR a partir das fábricas de Richland e Lynchburg.
  • Coreia do Sul: cooperação com a KHNP em otimização de combustível e extensão de vida útil de reatores.
  • Europa: contratos com operadores de Bélgica, Finlândia, Suécia, República Tcheca e Reino Unido.
  • África do Sul: suporte à usina de Koeberg, a única nuclear do continente.
  • Novos mercados: Brasil e Índia discutem projetos que incluem expertise da Framatome em combustível e engenharia.

Em comum, todos esses projetos refletem um cenário global em que países buscam, ao mesmo tempo, reduzir emissões e escapar de choques nos preços do gás e do petróleo. A energia nuclear volta ao centro da conversa, cercada de questionamentos, mas também de expectativas.

Barakah e o jogo de riscos e benefícios do átomo

O avanço da cooperação entre Framatome e ENEC joga luz sobre os dilemas clássicos do nuclear. De um lado, a promessa de uma fonte estável, com alta densidade energética e baixa pegada de carbono na fase de operação. Do outro, preocupações com resíduos radioativos, acidentes e segurança física das instalações.

No caso de Barakah, a narrativa oficial insiste na robustez dos sistemas de segurança e na multiplicidade de linhas de defesa. Entre os desafios, especialistas citam a necessidade de manter equipes altamente qualificadas por décadas, a gestão do combustível usado e o acompanhamento de regulamentações internacionais cada vez mais rígidas.

Um reator moderno é desenhado para operar 60 anos ou mais; a política energética precisa pensar nessa mesma escala de tempo.

Em paralelo, cresce o debate sobre ciclos de combustível mais eficientes e rotas de armazenamento geológico profundo para resíduos de alta atividade. Ideias como enterrar rejeitos a grandes profundidades, em formações rochosas estáveis, ganham força em países que planejam programas de longo prazo.

Conceitos que ajudam a entender o caso Barakah

O que é um reator de água pressurizada (PWR)

O tipo de reator usado em Barakah pertence à família de água pressurizada. Nessa configuração, a água que passa pelo núcleo do reator é mantida sob alta pressão para não ferver, mesmo em temperaturas elevadas. Ela transfere calor para um segundo circuito, onde o vapor é gerado e movimenta as turbinas.

Essa separação em dois circuitos reduz o risco de que água radioativa chegue às turbinas e aos equipamentos convencionais. O desenho consolidou-se como padrão em muitos países justamente pela combinação de maturidade tecnológica e grande número de horas de operação acumuladas.

Qualificação de combustível: por que demora tanto

Os protótipos enviados a Barakah representam uma etapa crítica do processo de qualificação. Antes que um lote comercial seja aprovado, o fornecedor precisa mostrar, com dados, que o combustível:

  • mantém integridade das varetas ao longo de vários ciclos de operação;
  • suporta variações de potência e temperatura sem deformações significativas;
  • interage bem com a química da água do reator;
  • não introduz riscos adicionais para os sistemas de segurança.

Esse caminho costuma levar anos, com inspeções periódicas, testes em laboratório e revisões de projeto. Em troca, o operador ganha confiança para operar reatores que carregam centenas de toneladas de combustível, em um ambiente onde falhas podem ter consequências de grande escala.

Cenários futuros para o Oriente Médio nuclear

Se Barakah consolidar um histórico de operação confiável e economicamente competitiva, tende a influenciar a agenda de outros governos na região. Programas de diversificação econômica, como o que os Emirados promovem para se preparar para a era pós-petróleo, podem passar a incluir mais projetos nucleares de grande porte e, no futuro, até pequenos reatores modulares.

Esse avanço pode abrir portas para cadeias industriais locais, formação de engenheiros especializados e desenvolvimento de reguladores nacionais mais sofisticados. Ao mesmo tempo, aumenta a responsabilidade diplomática e técnica da região, que passa a administrar tecnologia sensível sob intenso escrutínio internacional.

Para empresas como a Framatome, o cenário é de oportunidade combinada com vigilância constante. Cada contrato em um país estratégico funciona como vitrine técnica, mas também como teste político. No caso de Barakah, a mensagem que surge do deserto é clara: o átomo voltou ao centro da conversa energética, e a disputa por quem o domina com mais segurança e flexibilidade está apenas começando.

Fonte https://www.mariamariamake.com.br/

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