A expansão dos países emergentes alterou a economia global, ampliou a disputa entre potências e acelerou debates sobre multipolaridade, tecnologia e comércio internacional.
Durante boa parte do século 20, a economia global girava em torno de um grupo relativamente pequeno de países. Estados Unidos, Japão e as principais potências da Europa Ocidental concentravam indústria, tecnologia, poder militar e influência política internacional. Nas últimas décadas, esse cenário começou a mudar.
A expansão industrial da Ásia, o crescimento populacional de países como Índia e China, o avanço do comércio internacional e a reorganização das cadeias produtivas alteraram a economia mundial. Nesse processo, os chamados países emergentes passaram a ocupar posições mais relevantes na produção industrial, no consumo global, na diplomacia e nas disputas tecnológicas.
O conceito de país emergente surgiu justamente para tentar explicar esse movimento. Ele passou a ser usado para classificar economias que não pertenciam ao grupo dos países ricos tradicionais, mas que apresentavam crescimento acelerado, industrialização recente e expansão do mercado consumidor.
A discussão sobre essas economias aparece em debates sobre BRICS, disputa entre China e Estados Unidos, comércio internacional, transição energética, inteligência artificial e reorganização da ordem global. Mas ser um mercado emergente não significa estar livre de desigualdade social, dependência de commodities e dificuldades estruturais que limitam seu desenvolvimento interno.
O que define um país emergente na economia global?
São países com economias que apresentam crescimento acelerado, expansão industrial e integração crescente ao mercado global mas, ainda, possuem indicadores sociais e econômicos inferiores aos dos países desenvolvidos.
Entre as características mais comuns estão:
- grande mercado consumidor
- industrialização recente
- urbanização acelerada
- expansão do PIB
- participação crescente no comércio internacional
- desenvolvimento humano intermediário
O termo ganhou força a partir da globalização dos anos 1990, quando multinacionais passaram a transferir parte da produção industrial para regiões com mão de obra mais barata, novos mercados consumidores e capacidade de crescimento econômico.
A China se tornou o principal exemplo desse processo. Após entrar na Organização Mundial do Comércio em 2001, o país ampliou exportações, consolidou cadeias industriais e passou a ocupar posição central na economia global, passando da sétima para a segunda maior economia do mundo, em tempos contemporâneos.
A globalização ajudou economias emergentes a crescer
A expansão dos países emergentes está ligada à reorganização da economia internacional nas últimas décadas. O avanço dos transportes, da internet e da comunicação digital facilitou a circulação de mercadorias, capitais e investimentos.
A globalização produziu um reordenamento produtivo internacional marcado por cadeias globais de produção, regionalização econômica e fortalecimento de potências regionais.
Ao mesmo tempo, o crescimento dessas economias ampliou o peso político e econômico dos emergentes. Os países do G20 assistiram, em 25 anos, a uma mudança importante no ranking global do PIB, com crescimento acelerado de China, Índia, Indonésia e Rússia.
Esse movimento também alterou a lógica do capitalismo global. Economias emergentes deixaram de ser vistas apenas como fornecedoras de matérias-primas e passaram a disputar a produção industrial, tecnologia e infraestrutura digital, mercados consumidores e investimentos internacionais.
Os BRICS ampliaram influência na política global

O BRICS é um grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O bloco reúne cerca de 40% da população mundial e aproximadamente um quarto do PIB global em tempos contemporâneos. Surgiu como articulação econômica, mas ampliou sua atuação política, financeira e diplomática.
Os países do BRICS passaram a atuar como força de pressão por mudanças na governança internacional e na distribuição global de poder. Uma movimentação que aparece em debates sobre a reforma da ONU e do FMI, financiamento internacional, comércio global, desdolarização e cooperação Sul-Sul.
A desdolarização é o movimento de países que tentam reduzir o uso do dólar nas relações comerciais e financeiras internacionais. Na prática, isso significa ampliar transações feitas em moedas locais, criar sistemas próprios de pagamento e diminuir a dependência da estrutura financeira controlada pelos Estados Unidos.
Já a cooperação Sul-Sul reúne acordos econômicos, políticos e tecnológicos entre países da América Latina, África, Ásia e Oriente Médio. O objetivo é ampliar comércio, investimentos e influência internacional entre economias emergentes em um cenário global cada vez mais multipolar.
China e Índia no centro da economia mundial
A China construiu uma das maiores bases industriais do planeta e se tornou a principal parceira comercial de dezenas de países, se tornando uma superpotência tecnológica, comercial e militar. Além da indústria, a China ampliou influência por meio de infraestrutura, tecnologia e investimentos internacionais.
Já a Índia consolidou crescimento apoiado em tecnologia, serviços digitais e expansão do consumo interno. Em 2024, o país liderou o crescimento econômico entre as principais economias acompanhadas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
A disputa entre Estados Unidos e China passou a reorganizar boa parte da geopolítica contemporânea. O foco estratégico norte-americano migrou do Oriente Médio para a Ásia, em meio ao aumento da competição econômica e tecnológica entre as duas potências.
Pix Global: uma forma de reduzir a dependência do dólar
A ascensão dos países emergentes não acontece apenas na indústria ou no comércio. Os BRICS passaram a discutir mecanismos financeiros próprios para reduzir a dependência do dólar nas transações internacionais.
Um dos exemplos é o BRICS Pay, apelidado de “Pix Global”. O sistema pretende conectar meios de pagamento instantâneo dos países do bloco e permitir transações internacionais sem intermediação do dólar.
O projeto ganhou peso em meio ao aumento das tensões entre Estados Unidos, China e Rússia.
A plataforma utiliza blockchain e sistemas descentralizados para funcionar fora da estrutura tradicional dominada pelo sistema financeiro ocidental.
A discussão envolve, além da tecnologia financeira, uma tentativa de ampliar autonomia econômica e reduzir vulnerabilidades ligadas a sanções internacionais e flutuações cambiais.

O Brasil ainda é um país emergente?
O Brasil continua sendo classificado como país emergente porque combina grande mercado consumidor, industrialização relevante, capacidade agrícola e participação internacional crescente com problemas estruturais persistentes.
O país aparece entre as maiores economias do mundo e registrou crescimento de 3,4% em 2024, acima da média da OCDE, da União Europeia e do G7.
Mas, ao mesmo tempo, o Brasil continua convivendo com desigualdade social, concentração de renda, baixa produtividade, fragilidade fiscal e dependência de commodities. Além disso, o país está entre os países que menos tributa os super-ricos, sua carga tributária efetiva cai justamente no topo da pirâmide de renda.
A corrida global por tecnologia e minerais estratégicos
A competição entre países emergentes e potências tradicionais envolve tecnologia, energia e infraestrutura digital. O governo brasileiro anunciou, em 2025, uma política para transformar o país em polo global de data centers, com expectativa de atrair até R$ 2 trilhões em investimentos na próxima década.
A proposta envolve inteligência artificial, soberania digital, indústria 4.0, segurança cibernética e infraestrutura energética. O debate também passa pelos chamados minerais críticos, usados em baterias, chips e tecnologias ligadas à transição energética.
O Brasil possui uma das maiores reservas desses minerais, mas ainda exporta grande parte da produção sem processamento industrial avançado.
Em 2025, um acordo comercial firmado entre os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da China, Xi Jinping, reduziu parte das tarifas aplicadas entre os dois países e suspendeu temporariamente restrições chinesas à exportação de terras-raras e minerais usados na fabricação de chips, baterias, carros elétricos, painéis solares e equipamentos militares.
A negociação diminuiu as tensões imediatas entre as duas maiores economias do mundo, mas também expôs o peso estratégico desses recursos naturais na disputa tecnológica global. A China lidera a extração e o processamento de terras-raras, enquanto países como Brasil e Estados Unidos tentam reduzir a dependência chinesa em setores ligados à inteligência artificial, energia e indústria de defesa.
Mais influência global, velhos desafios internos
A ascensão dos países emergentes mudou a distribuição global de poder econômico.
China, Índia, Brasil, Indonésia e outros países ampliaram influência política, capacidade industrial e participação no comércio internacional. O G20, por exemplo, passou a refletir essa reorganização global ao incorporar economias emergentes em discussões centrais da economia mundial.
Mas esse crescimento não eliminou problemas internos históricos. Muitos países emergentes continuam convivendo com desigualdade elevada, concentração de renda, dependência de commodities, baixa capacidade estatal e fragilidade institucional.
O próprio conceito de “emergente” carrega essa contradição. São países que ampliaram o peso econômico internacional, mas que ainda enfrentam desafios sociais e estruturais que limitam o desenvolvimento interno.
Ao mesmo tempo, o crescimento dessas economias ajuda a explicar parte das transformações geopolíticas do século 21. A disputa entre Estados Unidos e China, o fortalecimento dos BRICS, a discussão sobre desdolarização e a reorganização das cadeias produtivas refletem um cenário internacional menos concentrado do que no período posterior à Guerra Fria.
O mundo continua longe de ser economicamente equilibrado. Ainda assim, a ascensão dos países emergentes ajuda a explicar por que a economia global já não gira exclusivamente em torno dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. O avanço dessas economias reorganizou disputas políticas, comerciais e tecnológicas e acelerou a formação de um cenário internacional mais multipolar, mesmo em meio a desigualdades que continuam marcando grande parte desses países.
fonte https://iclnoticias.com.br/