Cláudio da Costa Oliveira Outubro 2026
Começamos esta série examinando a catástrofe humana que sustentou parte importante da riqueza produzida no Brasil.
Acompanhamos mercadorias, impostos, proprietários, comerciantes e governos. Procuramos entender para onde foram os recursos e o que ficou para a população.
Chegamos ao final com uma convicção: conhecer essa história deve nos ajudar a construir um futuro melhor.
Nosso propósito nunca foi distribuir culpa entre os povos de hoje.
Foi compreender como a exploração se organizou, como seus resultados foram repartidos e por que a abundância de recursos não garantiu oportunidades para todos.
A primeira lição é que produzir riqueza e promover desenvolvimento são tarefas diferentes.
Uma economia pode exportar muito e manter grande parte de sua população distante da educação, da saúde e das decisões.
Por isso, precisamos perguntar o que fazemos com a receita das exportações.
Ela amplia nossa capacidade de produzir? Financia conhecimento? Melhora a infraestrutura? Cria trabalho qualificado? Reduz as desigualdades?
Ou apenas permite que uma parte da sociedade acumule mais patrimônio?
A segunda lição é que energia e capacidade industrial precisam caminhar juntas.
Tenho defendido a importância da energia abundante, constante e barata. Ela permite movimentar máquinas, transportar produtos, conservar alimentos e sustentar serviços essenciais.
A própria história do BNDES registra que, nos anos 1950, a escassez de eletricidade e os problemas dos transportes constituíam obstáculos à industrialização brasileira.
Mas a energia precisa encontrar uma sociedade preparada para utilizá-la.
São necessários aço adequado, equipamentos, engenheiros, técnicos, pesquisa, financiamento e organização produtiva. A indústria de bens de capital, que fabrica máquinas e equipamentos, participa da geração e da difusão do progresso tecnológico.
Importar uma máquina pode ser necessário e vantajoso.
A questão estratégica é desenvolver também a capacidade de compreendê-la, mantê-la, aperfeiçoá-la e, quando fizer sentido, produzi-la.
O aprendizado precisa fazer parte das escolhas econômicas.
A terceira lição é que nenhum projeto nacional pode desperdiçar sua população.
Quando uma criança recebe educação precária, o prejuízo ultrapassa sua vida individual. O país perde possibilidades que talvez nunca chegue a conhecer.
Quantos pesquisadores, professores, profissionais de saúde, técnicos e empreendedores poderiam surgir se as oportunidades fossem mais amplas?
A herança escravista precisa ser enfrentada por seus efeitos concretos. A desigualdade educacional documentada pelo Censo de 2022 mostra que ainda existe muito a fazer.
O mesmo cuidado vale para a educação.
Estudar a influência jesuítica ajuda a compreender a presença histórica da autoridade e da disciplina no ensino. Mas nossa responsabilidade atual é decidir que educação queremos oferecer: uma educação que também desenvolva autonomia, investigação e capacidade de participação.
A fé pode conviver com o conhecimento e com a responsabilidade pelo próximo.
Nenhuma convicção religiosa deve servir de justificativa para abandonar alguém à miséria.
A quarta lição é que o Estado precisa ser avaliado pelo resultado de suas decisões.
O debate sobre desenvolvimento não se resolve apenas perguntando se uma atividade é pública ou privada.
Precisamos examinar quem recebe os benefícios, quais compromissos assume e o que entrega à sociedade.
Na minha avaliação, incentivos públicos devem estar associados a objetivos verificáveis: formação de trabalhadores, inovação, qualidade, produtividade e ampliação de oportunidades.
Empresas precisam de condições para investir. A sociedade precisa conhecer o retorno dos recursos que coloca à disposição delas.
Isso exige transparência, continuidade e avaliação.
A quinta lição é que diversidade pode se transformar em cooperação.
O Brasil foi formado por povos indígenas, africanos de diferentes origens, portugueses e muitos outros imigrantes.
Essa formação ocorreu com violência, encontros, conflitos e contribuições. Não pode ser reduzida à ideia de que um grupo trouxe conhecimento e outro apenas trabalho.
Todos produziram saberes. As oportunidades de reconhecimento e participação é que foram profundamente desiguais.
Construir um projeto comum exige conhecer essas diferenças e garantir que ninguém precise apagar sua história para pertencer ao país.
Tenho repetido que possuímos uma população, mas precisamos fortalecer os vínculos que nos constituem como povo. Temos um país, mas precisamos tornar efetivo o compromisso que nos une como nação.
Isso não significa negar o povo brasileiro que já existe, suas culturas ou suas lutas.
Significa defender uma cidadania na qual todos possam reconhecer: este país também me pertence, e tenho responsabilidade por ele.
Por fim, precisamos perguntar para que desejamos crescer.
Ser maior do que outro país não deveria ser o objetivo final de uma sociedade.
O desenvolvimento deve permitir uma vida mais digna, com segurança, saúde, tempo, participação e possibilidade de realizar projetos.
A riqueza é um meio. A vida humana é o que deve orientar seu uso.
Nossa história contém sofrimento que precisa ser lembrado. Contém também resistência, criatividade e capacidade de transformação.
O Brasil não está condenado a repetir suas desigualdades.
Podemos aprender com o que aconteceu, preservar o que construímos e corrigir escolhas que continuam excluindo milhões de pessoas.
A pergunta que encerra esta série é também a que deve orientar a próxima etapa:
Que país queremos deixar para aqueles que virão depois de nós?
Um território que produz riquezas para poucos ou uma sociedade em que todos possam participar de seus benefícios e de suas decisões?
A resposta depende do conhecimento que construirmos e dos compromissos que formos capazes de assumir.
REFERÊNCIAS E BASE DOCUMENTAL
- BNDES. Apoio à infraestrutura nas origens do Banco. Histórico dos obstáculos de energia e transportes à industrialização.
- BNDES. Bens de capital. Estudo disponível na Biblioteca Digital do BNDES.
- IBGE. Censo Demográfico 2022: Alfabetização — Resultados do universo. 2024.
- MESQUIDA, Peri. Catequizadores de índios, educadores de colonos, Soldados de Cristo: formação de professores e ação pedagógica dos jesuítas no Brasil, de 1549 a 1759, à luz do Ratio Studiorum. Educar em Revista, v. 29, nº 48, p. 235–249, 2013.