FALA SÉRIO 220, QUEM GANHOU COM A RIQUEZA BRASILEIRA? – “Da produção colonial aos cofres públicos e às fortunas privadas.”  

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Cláudio da Costa Oliveira     outubro 2026

Durante esta série, acompanhamos a exploração do pau-brasil, a produção de açúcar, a extração de ouro e diamantes e a expansão do café.

Agora precisamos reunir as peças.

Para onde foi a riqueza produzida no Brasil?

A resposta exige distinguir quem trabalhava, quem era proprietário, quem comercializava e quem cobrava impostos.

Também precisamos lembrar nosso propósito: compreender o passado. Não estamos atribuindo aos portugueses de hoje, ou a qualquer outro povo, uma culpa herdada. Estamos examinando instituições, interesses e decisões que afetaram milhões de pessoas.

A primeira distinção é fundamental: riqueza produzida não é a mesma coisa que arrecadação da Coroa.

O valor de uma carga de açúcar vendida na Europa não entrava integralmente no Tesouro português. Havia despesas de produção, transporte, armazenamento, seguros, comissões, impostos e pagamentos aos financiadores.

O dinheiro passava por diferentes mãos.

Entretanto, os trabalhadores escravizados, indispensáveis à produção, não recebiam salário nem podiam decidir livremente sobre sua própria vida.

Por trás das contas comerciais havia pessoas submetidas à violência.

Em sua obra publicada em 1711, André João Antonil apresentou um levantamento de 528 engenhos na Bahia, em Pernambuco e no Rio de Janeiro, com produção habitual estimada em 37.020 caixas de açúcar. São números de uma época e de determinadas áreas produtoras, não um total acumulado de toda a colonização. Mesmo assim, revelam a dimensão da atividade.

Cada caixa representava terra, instalações, transporte e comércio. Representava também jornadas de trabalho e vidas que os registros econômicos tratavam como parte do patrimônio de alguém.

Com o ouro, a escala da circulação de riqueza aumentou.

O historiador econômico Angus Maddison, apoiado em estudos anteriores, apresentou uma estimativa de 800 a 850 toneladas de remessas de ouro brasileiro ao longo do século XVIII. Trata-se de uma estimativa histórica de remessas, não de uma medição exata de toda a produção nem de uma receita integral da Coroa.

Não podemos multiplicar esse volume pelo preço atual do ouro e afirmar que encontramos o valor de tudo o que o Brasil perdeu.

Esse cálculo mostraria apenas quanto custaria hoje determinada quantidade de metal. Não mediria seu poder de compra no século XVIII, os custos envolvidos ou as oportunidades de desenvolvimento que deixaram de existir.

Muito menos daria um preço ao sofrimento humano.

Houve riqueza destinada à monarquia portuguesa.

Mafra é um exemplo visível. A apresentação oficial do monumento reconhece que sua grandiosidade foi possibilitada pelo afluxo de ouro do Brasil. Isso permite estabelecer uma relação histórica, mas não autoriza inventar um percentual de todo o ouro brasileiro consumido naquela obra.

Houve também riqueza destinada a particulares.

Comerciantes, proprietários e financiadores participavam dos resultados. Parte do ouro circulava no próprio Brasil, inclusive por meio da cunhagem de moedas. Pesquisas sobre essa circulação mostram por que não devemos imaginar uma economia na qual toda a riqueza saía imediatamente e nada permanecia.

Outra parcela seguia para fornecedores estrangeiros.

Portugal comprava mercadorias no exterior. Assim, recursos recebidos do Brasil podiam financiar pagamentos a outros países. O destino inicial de uma remessa não era necessariamente seu destino final.

A Inglaterra participou desses circuitos comerciais. Mas atribuir toda a industrialização inglesa ao ouro brasileiro seria substituir uma investigação por uma explicação excessivamente simples.

Depois da Independência, o quadro mudou novamente.

A riqueza produzida pelo café já não pode ser tratada, em conjunto, como receita colonial enviada à Coroa portuguesa. Entravam em cena o Estado brasileiro, os proprietários estabelecidos no país, os exportadores, os bancos e os fornecedores internacionais.

A economia cafeeira também se relacionou com a formação de atividades industriais. Portanto, afirmar que toda a riqueza foi desperdiçada ou remetida ao exterior apagaria uma parte importante da história econômica brasileira.

O problema é outro.

A existência de riqueza dentro do território não significa que a população participe dela.

Uma fortuna pode permanecer no Brasil e continuar distante das necessidades da maioria. Uma exportação pode gerar recursos para escolas, máquinas e hospitais, ou alimentar principalmente a concentração patrimonial.

É necessário investigar as escolhas.

Ao final deste percurso, não temos uma contabilidade completa de cinco séculos. Temos evidências de diferentes caminhos: receitas públicas, despesas da monarquia, lucros comerciais, pagamentos externos, acumulação privada e investimentos internos.

Não seria honesto preencher as lacunas com números inventados.

Mas já podemos formular a pergunta decisiva:

Quanto dessa riqueza se transformou em capacidade de produzir, aprender e viver melhor para aqueles que a construíram?

Um país pode enriquecer seus proprietários sem desenvolver plenamente sua população.

Conhecer essa diferença é indispensável para compreender o Brasil.

REFERÊNCIAS

  1. ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Obra originalmente publicada em 1711. Edição disponível na Biblioteca Digital do Senado Federal.
  2. MADDISON, Angus. The World Economy: A Millennial Perspective. OCDE, 2001. Seção sobre a presença portuguesa no Brasil, reproduzida em The Portuguese in Brazil.
  3. CULTURA PORTUGAL. Palácio Nacional de Mafra. Apresentação institucional do monumento.
  4. Production, Supply and Circulation of National Gold Coins in Brazil (1703–1807). América Latina en la Historia Económica, 2017.
  5. BNDES. Perspectivas históricas do desenvolvimento industrial brasileiro. Acervo da Biblioteca Digital do BNDES.
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