Cláudio da Costa Oliveira outubro 2026
No artigo anterior, examinamos algumas dimensões da riqueza produzida no Brasil colonial.
Agora precisamos acompanhar seus caminhos.
É comum ouvir que o ouro brasileiro construiu os palácios de Portugal. Também se diz que ele terminou na Inglaterra.
Há elementos verdadeiros nessas afirmações. Mas nenhuma delas, isoladamente, explica todo o processo.
Nosso propósito é compreender essa circulação de riqueza. Não procuramos culpados entre os povos de hoje. Procuramos conhecer decisões, interesses e estruturas que influenciaram a formação do mundo em que vivemos.
E precisamos começar por uma distinção: o dinheiro da Coroa não era todo o dinheiro de Portugal.
Havia receitas públicas, fortunas particulares, pagamentos a comerciantes, despesas de transporte e recursos destinados à manutenção do próprio império.
O ouro que chegava não ficava necessariamente
Um estudo publicado no Journal of Economic History, intitulado The Cross of Gold: Brazilian Treasure and the Decline of Portugal, distingue os tributos das remessas privadas e examina como a entrada do ouro brasileiro afetou a economia portuguesa.
Os autores relacionam essa abundância a dificuldades de desenvolvimento produtivo, interpretando o episódio como um caso de “maldição dos recursos”: a riqueza disponível ajudava a sustentar importações, sem assegurar uma transformação equivalente da produção nacional. É uma interpretação econômica fundamentada em pesquisa, não uma explicação única e definitiva.
A questão é simples de formular.
Um país pode receber muito dinheiro e usá-lo para comprar aquilo que outros produzem.
Isso proporciona consumo e movimenta o comércio. Mas, quando não vem acompanhado de investimento produtivo, conhecimento e capacidade técnica, não garante autonomia.
Mafra: riqueza transformada em monumento
O conjunto de Mafra é uma das expressões mais conhecidas do poder da monarquia portuguesa no século XVIII.
Sua construção desenvolveu-se no contexto da abundância do ouro brasileiro. O empreendimento reuniu palácio, basílica e convento, num projeto de afirmação dinástica e religiosa.
A basílica foi consagrada em 22 de outubro de 1730, mas o conjunto ainda não estava concluído.
A UNESCO registra elementos que mostram a dimensão internacional das encomendas: 58 estátuas de artistas romanos e florentinos, paramentos franceses e italianos e dois carrilhões encomendados na Flandres.
O dinheiro sustentava obras em Portugal e também remunerava fornecedores estrangeiros. Ao mesmo tempo, a construção formava trabalhadores e transmitia conhecimentos: a UNESCO destaca que práticas desenvolvidas em Mafra foram posteriormente utilizadas na reconstrução de Lisboa.
Portanto, seria simplificador dizer que todo gasto em monumentos foi economicamente inútil.
Houve criação artística, trabalho e aprendizagem.
A pergunta é outra: qual foi a proporção dos recursos aplicada nesses objetivos e quanto foi destinado à ampliação duradoura da capacidade produtiva e ao bem-estar da população?
Não dispomos, neste levantamento, de uma conta consolidada que permita responder com um percentual seguro.
Nem toda obra foi paga pelo ouro brasileiro
O Aqueduto das Águas Livres, em Lisboa, exige uma distinção.
Segundo a EPAL, o sistema foi construído entre 1731 e 1799, e sua realização foi financiada pelo Real de Água, imposto lançado sobre produtos como vinho, carne e azeite.
Não é correto atribuir automaticamente essa obra ao ouro brasileiro apenas porque ela pertence ao mesmo século.
O exemplo também lembra que a população portuguesa pagava impostos e sustentava despesas do Estado.
O povo português e a Corte não eram a mesma coisa. Assim como a população brasileira e os grandes proprietários da colônia não tinham os mesmos interesses.
Uma história que coloca todos os habitantes de um país de um lado e todos os de outro do lado oposto esconde diferenças fundamentais.
O caminho comercial até a Inglaterra
Em 1703, Portugal e Inglaterra assinaram o Tratado de Methuen.
Portugal admitia os tecidos de lã ingleses nas condições previstas pelo acordo. Em contrapartida, os vinhos portugueses teriam, na Inglaterra, uma tributação inferior em um terço à aplicada aos vinhos franceses.
Esse tratado precede a fase geralmente associada ao início da Revolução Industrial britânica, na segunda metade do século XVIII. Não devemos inverter a cronologia.
A relação comercial já existia antes da expansão das fábricas mecanizadas.
Portugal comprava mercadorias e vendia produtos próprios e coloniais. Quando os pagamentos externos superavam os recebimentos, o ouro podia cobrir a diferença.
A pesquisa sobre o ouro brasileiro e a economia portuguesa identifica déficits nas contas externas com importantes parceiros, especialmente a Inglaterra. Parte do metal chegado do Brasil prosseguia, portanto, para outros mercados.
O ouro podia passar por Lisboa sem permanecer em Portugal.
Isso ajuda a entender como a exploração colonial alimentava uma rede econômica mais ampla: negociantes, transportadores, financiadores e produtores de diferentes países participavam dos resultados.
Entretanto, afirmar que o ouro brasileiro, sozinho, financiou a Revolução Industrial seria ir além do que esses dados demonstram.
Para medir essa contribuição, precisamos de séries comerciais, fluxos monetários e estudos de investimento. Uma relação importante não deve ser transformada em causa exclusiva.
As despesas que não aparecem nos palácios
Além das construções e das compras de mercadorias, o funcionamento de uma monarquia imperial exigia despesas administrativas, militares, navais e diplomáticas.
Havia ainda acontecimentos extraordinários. O terremoto de 1755 devastou Lisboa e impôs a necessidade de reconstrução. A cidade reconstruída também faz parte dessa história de utilização de recursos.
Por isso, não apresentaremos uma divisão fictícia dizendo que determinada porcentagem do ouro foi para palácios, outra para guerras e outra para a Inglaterra.
Uma conta dessa natureza exige pesquisa documental específica, por período, e separação entre gastos públicos e privados.
O que já podemos afirmar é que receber riqueza colonial não garantiu a Portugal uma posição equivalente à dos países que avançaram mais rapidamente na industrialização.
E aqueles que produziram a riqueza?
Ao acompanhar ouro, açúcar e diamantes, não podemos perder de vista as pessoas.
A riqueza circulava entre territórios. Os trabalhadores escravizados continuavam submetidos ao poder de seus proprietários.
O benefício econômico era apropriado por agentes situados dos dois lados do Atlântico. A privação da liberdade recaía sobre quem não podia escolher onde viver, para quem trabalhar ou como criar seus filhos.
É por isso que nossa investigação precisa relacionar produção, poder e dignidade humana.
Conhecer essa história não deve alimentar hostilidade entre brasileiros e portugueses. Deve ajudar os dois povos a compreender como interesses de grupos dominantes podem se apresentar como se fossem os interesses de uma sociedade inteira.
Minha reflexão é que o desenvolvimento perde seu sentido quando serve apenas para tornar um grupo mais poderoso que outro.
O Brasil precisa respeitar os brasileiros.
E o mundo precisa respeitar a humanidade.
A pergunta que atravessa estes artigos permanece atual: a riqueza que produzimos está construindo uma vida melhor para as pessoas ou apenas ampliando o poder de quem já controla seus resultados?
REFERÊNCIAS
- The Cross of Gold: Brazilian Treasure and the Decline of Portugal. The Journal of Economic History. Cambridge University Press.
- UNESCO. Royal Building of Mafra — Palace, Basilica, Convent, Cerco Garden and Hunting Park. Documentação do Patrimônio Mundial.
- Patrimónios. Real Edifício de Mafra. Síntese histórica do conjunto.
- EPAL — Empresa Portuguesa das Águas Livres. Museu da Água: Aqueduto das Águas Livres.
- Tratado de Methuen, de 27 de dezembro de 1703. Texto do acordo comercial, disponível em transcrição no Wikisource.