Cláudio da Costa Oliveira outubro 2026
O estudo dessa história também nos obriga a olhar para o presente. Quando tratamos o desenvolvimento apenas como uma disputa para que um país seja mais rico ou mais poderoso que outro, corremos o risco de esquecer sua finalidade humana.
Produzir mais é importante. Mas precisamos perguntar quem participa dessa produção, quem recebe seus resultados e quais condições de vida ela proporciona.
Um país pode ampliar sua riqueza e continuar negando dignidade a parte de sua população. Pode construir grandes obras enquanto trabalhadores permanecem sem acesso às condições básicas de uma vida decente.
É nesse sentido que afirmo: o Brasil ainda não respeita plenamente os brasileiros, assim como o mundo ainda não respeita plenamente a humanidade. Nossa capacidade de produzir riqueza avançou muito; nossa capacidade de colocá-la a serviço de todos continua insuficiente.
Conhecer o passado deve nos ajudar a enfrentar essa contradição. O desenvolvimento precisa ser avaliado pela vida que permite às pessoas viver.
Dos engenhos escravistas ao açúcar, ao etanol e às novas tecnologias.
A cana-de-açúcar não pertence apenas ao passado brasileiro.
Sua produção comercial se consolidou no século XVI e atravessou praticamente cinco séculos. Conviveu com a exploração do pau-brasil, com a mineração de ouro e diamantes e com a expansão do café.
Mudaram os equipamentos, os mercados e as relações de trabalho. Mas a cana permaneceu.
Por isso, quando falamos em ciclos econômicos, precisamos ter cuidado. O crescimento de uma atividade não significava o desaparecimento da anterior.
O açúcar perdeu posições, enfrentou concorrentes e voltou a expandir-se. Sua história é feita de continuidades e transformações.
Para compreender o tamanho desse negócio, vamos começar pelos números.
Em Cultura e opulência do Brasil, publicada em 1711, André João Antonil apresentou um levantamento dos engenhos e de sua produção habitual.
| Região indicada por Antonil | Engenhos | Produção anual em caixas |
| Bahia | 146 | 14.500 |
| Pernambuco | 246 | 12.300 |
| Rio de Janeiro | 136 | 10.220 |
| Total | 528 | 37.020 |
Esses números são um retrato histórico elaborado pelo autor, não um censo moderno. As regiões mencionadas também não devem ser confundidas automaticamente com os limites dos estados atuais.
Antonil informou ainda que, dessas 37.020 caixas, 36.200 seguiam para Portugal. Em seu levantamento, portanto, aproximadamente 98% das caixas produzidas tinham esse destino.
Era uma produção organizada principalmente para abastecer o comércio externo.
Quanto representava isso em peso?
Utilizando a caixa de 35 arrobas adotada nos cálculos comerciais de Antonil e uma conversão aproximada de 14,7 quilos por arroba, chegamos à ordem de 19 mil toneladas de açúcar por ano.
É uma estimativa de escala. As caixas podiam variar e as medidas históricas exigem atenção.
E quanto valia?
Nas contas apresentadas por Antonil, o açúcar alcançava aproximadamente 2.535 contos de réis, considerando os critérios e custos de sua avaliação, que acompanhava a mercadoria até Lisboa.
Isso não era lucro líquido dos senhores de engenho, nem dinheiro integralmente recebido pela Coroa.
O próprio autor discriminava despesas com caixas, pregos, transporte, armazenagem, fretes e cobranças ao longo do percurso.
O valor de uma mercadoria reúne pagamentos a diferentes participantes. Para descobrir quem enriqueceu, precisamos abrir essa conta.
Mas antes de acompanhar o dinheiro, precisamos enxergar quem produzia.
O engenho reunia lavoura e transformação industrial. Era necessário plantar, cortar, transportar e moer a cana. Depois, tratar o caldo, controlar o cozimento e preparar o açúcar.
Tudo isso exigia conhecimento.
Pessoas escravizadas realizavam tarefas agrícolas e atividades especializadas. Seu trabalho não era apenas força física: envolvia experiência, habilidade e domínio dos processos.
Entretanto, essas pessoas eram tratadas juridicamente como propriedade.
A escravidão indígena participou da formação dessa economia. Com a expansão do tráfico atlântico, africanos escravizados e seus descendentes passaram a sustentar uma parcela fundamental da produção.
A riqueza tinha origem em um sistema que negava liberdade a quem trabalhava.
As jornadas, os castigos e os riscos dos equipamentos faziam parte dessa realidade. A violência não era um detalhe que pudesse ser retirado da história econômica.
Ao mesmo tempo, existiam resistência, fugas, negociações e formação de quilombos. Os escravizados agiam para defender sua vida e conquistar liberdade.
Não podemos lembrar apenas o sofrimento e esquecer sua capacidade de lutar.
Para onde iam os resultados?
Os proprietários recebiam pela produção, pagavam despesas e procuravam ampliar seu patrimônio. Os comerciantes participavam da compra, do financiamento e da distribuição. Transportadores recebiam fretes. A Coroa arrecadava tributos e direitos.
Parte dos recursos permanecia na colônia, concentrada em determinados grupos. Outra parte circulava em Portugal e em outros centros comerciais.
Havia também perdas e dívidas. Os estudos sobre crédito colonial mostram relações variadas entre comerciantes e produtores, incluindo situações em que uma mesma pessoa participava das duas atividades.
Isso impede uma divisão simplista entre um Brasil que apenas produzia e uma Europa que recebia tudo. Existiam beneficiários locais e externos, ligados pela mesma organização econômica.
A participação religiosa também precisa aparecer.
Antonil era jesuíta. O Engenho Sergipe do Conde, na Bahia, que ele conheceu, pertencia ao Colégio de Santo Antão de Lisboa e era administrado por integrantes da Companhia de Jesus.
Portanto, instituições religiosas também participavam materialmente da economia escravista.
Esse fato precisa ser examinado sem confundir todas as posições religiosas: existiram divergências e críticas. Mas a presença de proprietários religiosos demonstra como produção, autoridade e escravidão podiam estar entrelaçadas.
O açúcar também despertou disputas internacionais.
A ocupação holandesa de parte do Nordeste, entre 1630 e 1654, envolveu o controle dessa riqueza. A Companhia das Índias Ocidentais participou da produção e do comércio, incluindo o tráfico de africanos escravizados.
Posteriormente, a concorrência de outras regiões produtoras alterou o mercado. Na passagem do século XVIII para o XIX, o açúcar brasileiro encontrou novas oportunidades, inclusive em decorrência da desorganização da produção de Saint-Domingue, território que se tornou o Haiti.
Podemos falar, assim, em uma nova fase de expansão. O açúcar continuava existindo durante a mineração e seguiria existindo durante o crescimento do café.
E onde estamos hoje?
No levantamento divulgado em agosto de 2026, a Conab estimou para a safra 2026/27:
- 705,2 milhões de toneladas de cana-de-açúcar;
- 42,89 milhões de toneladas de açúcar;
- 29,98 bilhões de litros de etanol proveniente da cana.
São projeções daquela safra, sujeitas a revisão. O etanol de milho é contabilizado separadamente.
Também é fundamental distinguir os produtos: toneladas de cana colhida não são toneladas de açúcar fabricado. A matéria-prima pode ser destinada a diferentes usos.
A cana passou a ocupar um lugar que ultrapassa a alimentação: participa da produção de combustíveis, eletricidade e matérias-primas industriais.
Nesse contexto aparece a chamada “supercana”, promovida por Eike Batista. O empresário anuncia ganhos elevados de produtividade e aplicações em etanol, combustível de aviação e produtos derivados da biomassa.
Essas declarações mostram a ambição do projeto. Seus resultados precisam ser avaliados por dados de campo, custos e desempenho em escala comercial. A possibilidade de substituir determinados derivados do petróleo não equivale à substituição integral do petróleo.
A questão para o Brasil é como transformar esse potencial em desenvolvimento.
Quem controlará as tecnologias? Onde serão fabricados os equipamentos? Como serão remunerados os trabalhadores? Quanto do conhecimento ficará no país?
A experiência colonial demonstra que produzir e exportar muito pode conviver com exclusão profunda.
Hoje, o desafio é fazer a capacidade produtiva ampliar oportunidades, conhecimento e qualidade de vida.
A cana atravessou quase cinco séculos da nossa história. Foi produzida sob a violência da escravidão e chegou à era da biotecnologia.
Essa transformação deve ser estudada com seus avanços e suas desigualdades.
Porque o resultado que interessa a uma nação não cabe apenas na tonelagem colhida.
Também precisa aparecer na vida de quem trabalha e na capacidade do país de decidir seu futuro.
REFERÊNCIAS
- Antonil, André João. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. 1711. Primeira parte, Livro III, capítulos X e XI. Edição digital disponibilizada pela Universidade Federal de Santa Catarina.
- Arquivo Nacional. Sociedade do Açúcar. História Luso-Brasileira.
- Vieira, Pedro Antonio. A inserção do “Brasil” nos quadros da economia-mundo capitalista no período 1550–c.1800: uma tentativa de demonstração empírica através da cadeia mercantil do açúcar. Revista Economia e Sociedade.
- O crédito no Brasil no período colonial: uma revisão historiográfica. Revista Varia Historia.
- O açúcar amargo: suor, sangue e lágrimas nos engenhos. Revista Varia Historia.
- Biblioteca Nacional. Pernambuco holandês e Tráfico de Escravos no Brasil. BNDigital.
- Companhia Nacional de Abastecimento. Produção de cana-de-açúcar pode chegar a 705,2 milhões de toneladas na safra 2026/27. Segundo levantamento, divulgado em 20 de agosto de 2026.
- Batista, Eike. Publicação sobre o projeto Supercana em seu perfil no LinkedIn. Fonte das declarações do empresário, não comprovação independente dos resultados anunciados.
Nota metodológica: os números históricos são estimativas de Antonil. A participação destinada a Portugal e a conversão aproximada em toneladas foram calculadas a partir desses registros. Valores em réis não foram convertidos em moeda atual. Os dados contemporâneos correspondem à projeção.