FALA SÉRIO 214 – PAU-BRASIL: QUASE QUATRO SÉCULOS DE RIQUEZA EXTRAÍDA.

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Claudio da Costa Oliveira   outubro 2026

Este trabalho procura compreender o destino das riquezas retiradas do Brasil e as condições humanas em que foram produzidas. Não pretende julgar povos nem atribuir às gerações atuais a culpa pelos acontecimentos do passado.

Nosso compromisso é registrar os fatos, identificar as instituições e os interesses envolvidos e compreender suas consequências. Reconhecer a violência da escravidão e da exploração colonial é necessário para conhecer nossa formação e evitar que a desumanização continue sob outras formas.

A pergunta que nos acompanha é simples: a riqueza produzida pelo trabalho humano serviu para melhorar a vida de quem a produziu?

Quanto saiu das nossas florestas, quem recebeu os ganhos e por que esse comércio perdeu importância?

Quanto tempo durou a exploração do pau-brasil?

A maneira como dividimos a história em ciclos pode transmitir uma impressão errada: primeiro veio o pau-brasil, depois o açúcar, depois o ouro e, finalmente, o café. Como se cada atividade terminasse quando outra começava.

Não foi assim.

A exploração comercial do pau-brasil começou nos primeiros anos do século XVI e continuou pela segunda metade do século XIX. Foram aproximadamente três séculos e meio de comércio voltado ao fornecimento de corante, aproximando-se de quatro séculos.

A Fundação Joaquim Nabuco e a Universidade Estadual do Norte Fluminense utilizam 1875 como referência para o encerramento dessa fase. Isso não significa que todos os usos da madeira tenham terminado naquele ano.

Quando o açúcar se expandiu, o pau-brasil continuou sendo retirado. Quando a mineração ganhou importância, a madeira continuou atravessando o Atlântico. Sua comercialização alcançou também o Brasil independente.

Portanto, precisamos estudar atividades que coexistiam, embora sua importância relativa mudasse.

Mas por que a Europa comprava essa madeira?

Principalmente porque dela se obtinha um corante para tingir tecidos. A matéria corante do pau-brasil permitia produzir tonalidades avermelhadas utilizadas em diferentes peças de vestuário.

A floresta brasileira fornecia um insumo para atividades de transformação e comércio na Europa. A madeira tinha valor porque existiam conhecimentos, oficinas, consumidores e redes comerciais capazes de utilizá-la.

Portugal procurou controlar esse negócio por meio do monopólio régio e de contratos com particulares. Mas não foi o único participante.

Os franceses negociavam na costa brasileira e transportavam madeira para seus mercados. Rouen tornou-se um importante entreposto, redistribuindo carregamentos para outros centros, entre eles Paris, La Rochelle e Antuérpia.

Explorar diretamente, transportar, revender e utilizar o corante eram atividades diferentes. Participar desse comércio não significava necessariamente realizar todas elas.

E quanto de madeira foi retirado?

Ainda não temos um total seguro para todos os séculos. Mas já existem números que permitem sair das generalidades.

A historiadora Maria Isabel de Siqueira registra, para 1506, a retirada de 20 mil quintais de pau-brasil, associada a uma receita de 4 mil ducados para a Coroa pelo arrendamento do monopólio.

É preciso entender o significado: esses quatro mil ducados eram receita do arrendamento. Não representavam o valor total das vendas na Europa, nem o lucro de todos os envolvidos.

Um segundo conjunto de registros permite enxergar melhor a escala do comércio.

Entre 1756 e 1775, a sociedade mercantil Purry, Mellish e Devisme retirou dos armazéns da Casa da Índia, em Lisboa, 422.131 quintais de pau-brasil, distribuídos em 1.798.624 toros.

Adotando aproximadamente 60 quilos por quintal, são 25,3 mil toneladas, ou cerca de 1.266 toneladas por ano.

Esse cálculo corresponde a uma sociedade comercial e a vinte anos de registros. Não representa toda a madeira retirada do Brasil. E toros são pedaços de tronco, não árvores inteiras.

O contrato inicial, firmado em 1756, previa a aquisição anual de 20 mil quintais, a 6.400 réis por quintal: 128 contos de réis por ano. Esse era o valor contratual naquela etapa do comércio, não o lucro líquido dos negociantes.

Esses números mostram que o pau-brasil permaneceu um negócio expressivo muito depois do período apresentado nos livros escolares como seu “ciclo”.

Mas precisamos acompanhar também o trabalho.

Nas primeiras décadas, os indígenas tiveram papel fundamental na localização, no corte e no transporte da madeira. Parte dessas relações se organizava pelo escambo, a troca por ferramentas e outros objetos.

Isso não deve ser confundido automaticamente com escravidão. Contudo, a expansão colonial envolveu coerção e escravização. O próprio Regimento do Pau-Brasil, de 1605, mencionava o corte realizado por proprietários, seus escravizados ou feitores, mediante autorização.

O controle comercial e fiscal convivia com uma sociedade que transformava pessoas em propriedade.

Para onde foram os recursos?

Uma parte entrou nas receitas da Coroa. Outra circulou entre contratadores, transportadores e comerciantes. A madeira ainda alimentava atividades de transformação e venda nos mercados consumidores.

Não existia um único cofre recebendo tudo.

Para identificar o destino final desses ganhos, precisamos acompanhar os registros de cada negócio. O valor de um contrato não demonstra, sozinho, quanto foi gasto em palácios, guerras, obras públicas ou novos investimentos.

Entretanto, já podemos afirmar algo importante: possuir a árvore não significava controlar todas as etapas econômicas que davam valor à sua madeira.

E por que esse comércio perdeu importância?

Porque a tecnologia mudou.

Em 1856, o químico inglês William Henry Perkin descobriu a malveína, um corante sintético de tonalidade violeta. Sua descoberta tornou-se um marco da indústria de corantes artificiais.

A malveína não substituiu, sozinha e imediatamente, todas as cores naturais. Ela abriu caminho para uma indústria que desenvolveria outros produtos e transformaria o mercado de tingimento.

Ao longo da segunda metade do século XIX, a expansão dos corantes sintéticos reduziu a importância do pau-brasil como matéria-prima tintorial.

Sua madeira, entretanto, conservou outras aplicações. Uma delas é a fabricação de arcos para instrumentos de cordas, como o violino. Por isso, o declínio do comércio de corante não equivale ao desaparecimento de toda demanda pela espécie.

Aqui existe uma lição que merece nossa atenção.

Uma riqueza natural pode sustentar negócios durante séculos e depois perder mercado diante de uma inovação. Quem depende de sua venda precisa compreender também a ciência, a tecnologia e as mudanças nas necessidades dos compradores.

Ter recursos é uma vantagem. Transformá-los em conhecimento e capacidade produtiva é uma tarefa permanente.

O pau-brasil nos ajuda a perceber como essa história começou: recursos naturais, trabalho, contratos, poder político e mercados externos ligados numa mesma atividade.

Nosso próximo passo será acompanhar o açúcar. Ali encontraremos uma produção mais complexa, grandes propriedades, engenhos, financiamento e uma dependência profunda do trabalho escravizado.

A pergunta permanece:

Quanto foi produzido, quem recebeu os resultados e o que essa riqueza ajudou a construir?

REFERÊNCIAS

  1. Fundação Joaquim Nabuco. Pau-Brasil. Pesquisa Escolar.
  2. Universidade Estadual do Norte Fluminense. Pau Brasil. Projeto Árvores da UENF.
  3. Arquivo Nacional. Indumentária colonial. História Luso-Brasileira.
  4. Siqueira, Maria Isabel de. Pau Brasil. BRASILHIS Dictionary, Universidade de Salamanca.
  5. O negócio do pau-brasil, a sociedade mercantil Purry, Mellish and Devisme e o mercado global de corantes: escalas mercantis, instituições e agentes ultramarinos no século XVIII. Revista de História, Universidade de São Paulo.
  6. Les importations de bois de Brésil en Normandie dans la première moitié du XVIe siècle. Revista Portuguesa de História.
  7. Metropolitan Museum of Art. Interwoven Globe.
  8. Science Museum Group. Sir William Henry Perkin. Science and Industry Museum. World’s first synthetic dye.
  9. Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste. Palestra sobre Pau-brasil e plantio da espécie selam programação do Bicentenário.
  10. Serviço Florestal Brasileiro. Pesquisa do SFB atinge 99% de acerto na diferenciação entre a madeira pau-brasil nativa e de plantio.

Nota sobre os números: as conversões em toneladas foram calculadas com a aproximação de 60 kg por quintal utilizada na pesquisa citada. Os registros apresentados abrangem períodos e operações específicos; não constituem uma estimativa de toda a extração histórica.

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