Cláudio da Costa Oliveira setembro 2026
Para onde foram as riquezas produzidas pela exploração do Brasil?
Esta é a pergunta que orientará nossa nova série. Vamos acompanhar o pau-brasil, a cana-de-açúcar, o ouro e o café, distinguindo o período colonial daquele posterior à Independência. Vamos investigar os negócios, os impostos, as fortunas particulares e os gastos da Coroa portuguesa. Mas precisamos começar pelas pessoas que foram obrigadas a produzir uma parte fundamental dessa riqueza.
A escravidão de africanos e de seus descendentes nas Américas foi uma das maiores catástrofes da história da humanidade.
Em 25 de março de 2026, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Resolução 80/250, reconhecendo o tráfico de africanos escravizados e sua escravização racializada como o mais grave crime contra a humanidade. O reconhecimento considera a escala, a duração, a brutalidade e as consequências duradouras desse sistema. [1]
Atrás de cada número havia uma pessoa. Havia uma família, uma língua, uma comunidade e uma vida que aquela pessoa deveria ter o direito de conduzir.
A escravidão existia muito antes da colonização das Américas. Na Roma antiga, por exemplo, havia pessoas capturadas em guerras e crianças que já nasciam escravizadas. Portanto, a transmissão do cativeiro aos filhos não começou no mundo atlântico. [2]
O sistema implantado nas Américas reuniu, durante séculos, tráfico oceânico em enorme escala, exploração colonial e uma hierarquia racial que subordinava africanos e seus descendentes. Pessoas eram convertidas em propriedade, e seus filhos também podiam nascer pertencendo a outra pessoa. [1, 8]
A humanidade conheceu outras catástrofes, entre elas o Holocausto, as guerras mundiais e a destruição de povos indígenas. Cada uma exige memória e investigação. Comparar essas tragédias requer considerar suas diferentes durações, formas de violência e consequências. Uma contagem de mortos, sozinha, não mede tudo o que foi destruído.
No caso da escravidão, também precisamos considerar as vidas inteiras submetidas ao cativeiro e as gerações nascidas dentro dele.
O projeto SlaveVoyages estima que aproximadamente 12,5 milhões de africanos foram embarcados à força no tráfico transatlântico. Cerca de 10,7 milhões chegaram vivos ao destino. A diferença, próxima de 1,8 milhão de pessoas, dá a dimensão das mortes durante o transporte. [3]
Essa conta começa no embarque. Não inclui as mortes anteriores, nas capturas, nas guerras relacionadas ao tráfico, nas marchas e no confinamento até o litoral. Também não inclui as mortes posteriores à chegada. Não dispomos de uma estimativa única e segura que reúna todas essas perdas.
Quem participou desse tráfico?
As estimativas do SlaveVoyages permitem comparar os transportadores pelas categorias nacionais usadas no banco de dados, para o período de 1501 a 1866. Os números abaixo se referem a pessoas embarcadas na África, e não ao total de escravizados existente em cada país. [4]
| Transportadores | Pessoas embarcadas | Participação |
| Portugal / Brasil | 5,85 milhões | 46,7% |
| Grã-Bretanha | 3,26 milhões | 26,0% |
| França | 1,38 milhão | 11,0% |
| Espanha / Uruguai | 1,06 milhão | 8,5% |
| Países Baixos | 554 mil | 4,4% |
| Estados Unidos | 305 mil | 2,4% |
| Dinamarca / Báltico | 111 mil | 0,9% |
| Total | 12,52 milhões | 100% |
Fonte: SlaveVoyages, Estimates, 1501–1866. Valores arredondados. Percentuais calculados sobre as estimativas originais. São categorias de transportadores; não indicam o destino de todas as pessoas nem a distribuição completa dos lucros. [4]
A categoria Portugal/Brasil concentra a maior parcela: aproximadamente 47% dos embarques. A Grã-Bretanha aparece em seguida, com cerca de 26%. Juntas, essas duas categorias representam quase três quartos do total estimado. [4]
A expressão “Portugal/Brasil” precisa ser explicada. O tráfico português incluía redes organizadas na Europa e redes de negociantes estabelecidos no próprio Brasil. A atividade continuou depois da Independência de 1822. Essa categoria reúne, portanto, responsabilidades portuguesas e brasileiras em diferentes períodos. [3]
A Espanha também recorria a transportadores estrangeiros para abastecer suas colônias. Contratos conhecidos como asientos autorizavam esse fornecimento. Portugueses, franceses, britânicos e holandeses participaram desses circuitos em diferentes momentos. Por isso, a bandeira do transportador e o território beneficiado pela exploração podiam ser diferentes. [5]
A tabela mede uma parte do sistema. Para compreender a riqueza gerada, será necessário acompanhar também os compradores, os proprietários, os comerciantes, os financiadores e os governos envolvidos.
Africanos escravizados também foram levados para a Europa. Em 1444, houve em Lagos, Portugal, um desembarque seguido da repartição e venda de pessoas capturadas na África. Isso aconteceu décadas antes da chegada portuguesa ao Brasil. [9]
Na Espanha, africanos e seus descendentes trabalharam em casas e em oficinas. Um exemplo é Juan de Pareja, nascido na Espanha e escravizado por mais de duas décadas no ateliê de Diego Velázquez. Essa trajetória mostra a presença do trabalho escravizado na produção artística europeia. [10]
Na França, famílias vindas das colônias levavam pessoas escravizadas para servi-las. Essa prática entrava em conflito com o princípio de liberdade associado ao território francês. Os arquivos registram tanto pessoas escravizadas quanto pessoas negras livres. [11]
Na Inglaterra, pessoas trazidas das colônias também eram tratadas como escravizadas, inclusive no serviço doméstico de famílias abastadas. Sua situação jurídica era contestada. Havia, ao mesmo tempo, pessoas negras livres que exerciam diferentes profissões. Portanto, a presença negra na Europa não pode ser confundida, em sua totalidade, com escravidão. [12]
A diferença decisiva estava na escala da exploração. Nas Américas, a expansão das grandes lavouras e da mineração, voltadas ao comércio colonial, criou uma demanda de trabalho muito superior à do serviço nas casas e nas cortes europeias. Os colonizadores recorreram ao tráfico e ao cativeiro para atender a essa demanda. [3]
Essa comparação ajuda a compreender o caminho da riqueza: uma pessoa podia ser explorada num engenho brasileiro ou numa plantação do Caribe, enquanto parte dos resultados de seu trabalho beneficiava negociantes e financiadores europeus. Londres, por exemplo, tornou-se um centro de financiamento e seguros ligados ao tráfico. Os beneficiários podiam viver a milhares de quilômetros dos trabalhadores escravizados. [7]
No lado africano, houve governantes e negociantes que participaram da captura e da venda de pessoas. Estudos sobre o reino do Daomé mostram relações comerciais e diplomáticas com compradores e autoridades ligados ao Brasil. A demanda atlântica estimulou guerras e disputas locais. Identificar esses participantes permite compreender a rede de interesses e suas responsabilidades. [6]
Entre os destinos americanos, o Brasil recebeu o maior número de africanos escravizados: cerca de 4,8 milhões de pessoas desembarcaram aqui. Essa estimativa se refere aos sobreviventes que chegaram ao país; os 5,85 milhões da tabela correspondem aos embarques atribuídos à categoria Portugal/Brasil, incluindo outros destinos. [4, 6]
A comparação com os Estados Unidos ajuda a perceber diferenças importantes, desde que saibamos o que estamos comparando. Para a América do Norte, a estimativa frequentemente citada é de cerca de 388 mil desembarques pelo tráfico transatlântico; para o Brasil, cerca de 4,8 milhões. Esses totais foram acumulados ao longo de séculos. [13]
O censo americano de 1860 registrou 3.953.760 pessoas escravizadas e 488.070 pessoas classificadas como negras livres. No Brasil, o censo de 1872 registrou 1.510.806 pessoas escravizadas. Eram populações contadas em datas determinadas, incluindo descendentes dos africanos que haviam chegado antes. [14, 15]
No Brasil, também havia um grande contingente de pessoas pretas e pardas livres. Uma pessoa alforriada deixava de integrar o número dos escravizados, mas continuava na população. As classificações de cor dos censos também exigem cuidado. Por isso, contar apenas os cativos não permite acompanhar todos os africanos e seus descendentes. [16]
Nos Estados Unidos, o crescimento pelo excesso de nascimentos sobre mortes teve grande importância na expansão da população escravizada. O historiador J. David Hacker estudou essa evolução e estimou que cerca de 10 milhões de pessoas viveram sob escravidão naquele território ao longo do período analisado, de 1619 a 1865. Esse total acumulado é muito maior do que o número registrado em qualquer censo isolado. [17]
Para compreender o caso brasileiro, precisamos investigar a mortalidade, a proporção entre homens e mulheres, os nascimentos, as alforrias e as condições de trabalho, em diferentes regiões e épocas. Estudos históricos encontram denúncias contemporâneas de elevada mortalidade de cativos e de crianças, além da preocupação dos proprietários em repor a mão de obra. [18]
A diferença entre os dois países merece destaque. Entretanto, subtrair desembarques acumulados de uma população recenseada não calcula quantas pessoas morreram, nem demonstra que a população negra brasileira tenha ficado estável durante séculos. Precisamos de mais informações para medir a perda de vidas. O crescimento demográfico nos Estados Unidos tampouco torna menos violento o cativeiro vivido ali.
Essas pessoas e seus descendentes trabalharam nas lavouras, nas minas e em numerosas outras atividades. Sua exploração ajudou a sustentar a produção e a circulação de mercadorias nas Américas. O valor dessas mercadorias chegava aos proprietários e aos circuitos comerciais, enquanto os trabalhadores eram privados de liberdade. [3]
W. E. B. Du Bois nos ajuda a compreender a dimensão econômica dessa exploração. Em “O trabalhador negro”, capítulo inicial de Black Reconstruction in America, publicado em 1935, ele relacionou o trabalho escravizado no algodão à expansão das fábricas, do comércio e da riqueza nos Estados Unidos e na Europa. A economia industrial estava ligada àquela produção. [19]
Essa interpretação orienta uma pergunta para nossa investigação: quanto da prosperidade atribuída a grandes comerciantes, proprietários e instituições dependia do trabalho de pessoas impedidas de decidir sobre a própria vida? O caso brasileiro precisa ser examinado com seus próprios documentos, acompanhando os produtos e os beneficiários de cada atividade.
A transformação de vidas humanas em mercadoria chegou a extremos que precisamos conhecer.
Em 1781, no navio britânico Zong, que seguia para a Jamaica, mais de 130 africanos escravizados foram lançados vivos ao mar. Os proprietários tentaram receber uma indenização do seguro pela perda daquilo que tratavam como “carga”. Alegaram uma emergência por falta de água, contestada pelos seguradores. [7]
O caso chegou à Justiça inglesa como uma disputa de seguro. Ninguém foi processado criminalmente pelos assassinatos. O episódio mostra como interesses comerciais e mecanismos jurídicos podiam transformar a morte de seres humanos em discussão sobre prejuízo financeiro. [7]
Também precisamos lembrar a resistência. Pessoas escravizadas se revoltaram durante as viagens; no Brasil, fugas, quilombos, mobilizações e ações pela liberdade enfrentaram o sistema. A abolição de 1888 resultou de uma longa luta, com pressões internas e externas. [3, 8]
Ao estudar essa história, considero indispensável perguntar como enfrentar suas consequências. Reconhecer a violência e preservar a memória deve acompanhar esforços de reparação, combate ao racismo e ampliação efetiva das oportunidades de educação, trabalho e participação nas decisões.
É com essa preocupação que investigaremos o destino das riquezas. Precisamos distinguir os recursos recebidos pela Coroa, as fortunas dos particulares e as condições de vida da população. Também precisamos acompanhar o que permaneceu no Brasil e o que circulou por Portugal e por outros países.
Nos próximos artigos, começaremos pela organização portuguesa desse comércio de pessoas. Depois, acompanharemos as atividades econômicas que ele sustentou e os caminhos percorridos por seus resultados.
Antes de admirar uma fortuna, um palácio ou uma grande obra, devemos perguntar de onde vieram os recursos que os tornaram possíveis.
Quem trabalhou? Quem sofreu? Quem recebeu a riqueza? E o que ficou para seus descendentes?
Fala sério!
REFERÊNCIAS
1. Nações Unidas. Resolução A/RES/80/250, de 25 de março de 2026; notícia oficial “UN resolution urges reparations for slavery’s historical wrongs”. Consultar a fonte.
2. BRITISH MUSEUM. Slavery in ancient Rome. Consultar a fonte.
3. ELTIS, David. A Brief Overview of the Trans-Atlantic Slave Trade. SlaveVoyages. Ensaio de 2007, republicado no portal em 2024. Consultar a fonte.
4. SLAVEVOYAGES. Trans-Atlantic Slave Trade — Estimates. Tabela por transportadores nacionais; pessoas embarcadas, 1501–1866. Consulta em 26 de setembro de 2026. Consultar a fonte.
5. O’MALLEY, Gregory E.; BORUCKI, Alex. Patterns in the intercolonial slave trade across the Americas before the nineteenth century. Tempo, v. 23, n. 2, 2017. Consultar a fonte.
6. ARANTES, José Tadeu. Estudo destaca o papel da diplomacia de Daomé no tráfico de escravos para o Brasil. Agência FAPESP, 2 jun. 2021. Consultar a fonte.
7. LONDON MUSEUM. The Zong Massacre Trial. Consultar a fonte.
8. ARQUIVO NACIONAL. Legislação abolicionista no Império. Consultar a fonte.
9. MUSEU DE LAGOS. Exibição do documentário Contos do Esquecimento. Registro histórico do desembarque de africanos escravizados em Lagos, em 1444. Consultar a fonte.
10. THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART. Juan de Pareja, pintor afrohispano. Exposição de 2023. Consultar a fonte.
11. ARCHIVES NATIONALES, França. Des colonies à la métropole. Projeto sobre declarações de pessoas escravizadas e livres de cor. Consultar a fonte.
12. HISTORIC ENGLAND. Black Lives in England. The Slave Trade and Abolition. Consultar a fonte.
13. National Park Service. The Middle Passage. Estimativas de desembarques no Brasil e na América do Norte. Consultar a fonte.
14. U.S. Census Bureau. History and the Census: Abraham Lincoln. Dados do censo americano de 1860. Consultar a fonte.
15. IBGE. Contando os súditos do Imperador. Revista Vou te Contar, nº 12, setembro de 2009, p. 24. Dados do censo de 1872. Consultar a fonte.
16. Retratos do Brasil: raça e instrução nos censos populacionais do século XIX. Educação & Sociedade, v. 34, nº 122, 2013. Consultar a fonte.
17. HACKER, J. David. From “20. and odd” to 10 million: the growth of the slave population in the United States. Slavery & Abolition, v. 41, nº 4, p. 840–855, 2020. Consultar a fonte.
18. “Mães escravas”, partus sequitur ventrem, e a naturalização da reprodução escrava no Brasil oitocentista. Tempo, v. 22, nº 41, 2016. Consultar a fonte.
19. DU BOIS, W. E. B. Black Reconstruction in America. Nova York: Harcourt, Brace and Company, 1935. Capítulo I, “The Black Worker” (“O trabalhador negro”). Edição digital consultada. Consultar a fonte.