Cláudio da Costa Oliveira setembro 2026
O que realmente é o Brasil de hoje?
Somos um país formado por povos indígenas, africanos, portugueses e por sucessivas correntes de imigrantes: italianos, alemães, japoneses, árabes e tantos outros. Suas histórias se encontraram, muitas vezes dentro da mesma família.
Mas conhecer a composição da população é apenas o começo.
Precisamos conhecer as condições em que essas pessoas vivem, o trabalho que realizam, as riquezas que produzem e os interesses que defendem.
Minha preocupação é que brasileiros compartilhem o território sem compreender suficientemente a realidade uns dos outros. E que decisões apresentadas como boas para o Brasil possam beneficiar alguns grupos, enquanto impõem custos a outros.
Por isso precisamos olhar para nossa formação.
A escravidão foi uma das maiores atrocidades da história da humanidade. Organizou a produção pela violência, negou liberdade e permitiu que proprietários acumulassem patrimônio sobre o trabalho de pessoas escravizadas. Também encontrou resistência e pessoas que lutaram para transformar essa realidade.
A abolição encerrou a instituição legal. A Lei Áurea, entretanto, não estabeleceu uma política de distribuição de terras, reparação ou educação para os libertos.
As novas gerações começaram a vida em condições profundamente desiguais. Os imigrantes trouxeram conhecimentos, experiências e iniciativas, mas encontraram uma sociedade cuja distribuição da propriedade e do poder já tinha uma longa história.
Também herdamos uma formação educacional marcada pelos jesuítas, pela catequese, pelos colégios e pela relação com a autoridade. Houve ensino humanístico, artes e ofícios.
A pergunta que proponho é como essa formação, e suas transformações posteriores, influenciaram nossa disposição para obedecer, questionar e participar. A fé pode sustentar solidariedade e responsabilidade; a obediência a uma autoridade humana também precisa ser examinada diante da injustiça.
É nessa sociedade que atuam os interesses internacionais.
A predominância britânica foi gradualmente substituída pela americana. A transição avançou no período entre as duas guerras mundiais. Ao final da Segunda Guerra, consolidara-se a predominância dos Estados Unidos entre as potências estrangeiras presentes no Brasil.
Em 1944, os acordos de Bretton Woods estabeleceram as bases do FMI e do Banco Mundial e colocaram o dólar no centro do sistema monetário. A capacidade industrial americana vinha acompanhada de poder para influenciar as regras da economia mundial.
A influência também alcançou a política brasileira. Um telegrama do Departamento de Estado, de 31 de março de 1964, registra decisões para preparar apoio às forças contrárias a João Goulart, incluindo deslocamento naval e preparação de suprimentos.
O documento mostra a disposição de Washington para apoiar uma mudança de poder. Os agentes brasileiros envolvidos também tinham seus projetos, responsabilidades e interesses.
Ao mesmo tempo, o Brasil construía capacidade própria.
O financiamento do BNDE, depois BNDES, ajudou a ampliar infraestrutura e indústria. Na aviação, a formação de engenheiros e a pesquisa do ITA e do CTA antecederam a criação da Embraer.
Energia, aço adequado, máquinas, crédito e conhecimento precisavam avançar juntos. Empresas, trabalhadores e instituições brasileiras demonstraram capacidade de realizar projetos complexos.
Minha leitura é que industrialização e dependência coexistiram. O país ampliou sua capacidade de produzir, enquanto continuava inserido em relações internacionais muito desiguais de financiamento, tecnologia e poder.
Essa influência americana permanece visível em dados recentes.
Segundo o Banco Central, em 2024 os Estados Unidos tinham a maior posição estrangeira de investimento direto no Brasil na modalidade participação no capital, pelo critério do controlador final: US$ 232,8 bilhões. Havia presença expressiva em serviços financeiros, tecnologia da informação, comércio e indústria.
O dólar também preservava sua posição predominante nas reservas e nas finanças internacionais, conforme estudo do Federal Reserve publicado em 2025.
Mas o Brasil atual exige que enxerguemos outras relações de poder. Em 2024, a China recebeu aproximadamente 28% das exportações brasileiras, enquanto os Estados Unidos receberam 12%.
O peso comercial chinês convive com a força financeira e empresarial americana. Essas medidas mostram formas diferentes de influência e não autorizam concluir que um único país controla todas as decisões brasileiras.
Precisamos investigar também os interesses existentes dentro do Brasil.
Um produtor que exporta pode ganhar com a valorização do dólar. Uma indústria que importa máquinas pode ter seus custos aumentados. Um credor pode receber juros maiores enquanto uma empresa endividada precisa reduzir investimentos.
Essas diferenças atravessam origens, regiões e classes sociais. Pessoas da mesma origem podem defender interesses opostos; pessoas de origens distintas podem compartilhar as mesmas necessidades.
É por isso que a pergunta sobre soberania precisa chegar à vida cotidiana.
Quem ganha com uma decisão sobre energia, petróleo, crédito ou tecnologia? Quem paga seu custo? Quem participou da escolha? Que capacidade de produzir e aprender permanecerá no país?
Quero que este livro ajude o brasileiro a reconhecer essas relações e a compreender melhor seus próprios interesses, os de seus vizinhos e os de quem decide sobre as riquezas nacionais.
Um país pode reunir muitos povos de origem e construir compromissos comuns. Educação, condições dignas de vida, capacidade produtiva e participação são objetivos que podem nos aproximar.
Quando começaremos a conhecer o Brasil o suficiente para participar, de fato, das decisões sobre o seu futuro?
CRITICAS, SUGESTÕES, OPINIÕES: soberanobrasiles@gmail.com
REFERÊNCIAS
- Presidência da República — Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888, Lei Áurea. Texto dos dois artigos da lei.
- Sônia Maria Fonseca — A hegemonia jesuítica (1549–1759), HISTEDBR/Unicamp. Educação, catequese, colégios, artes e ofícios.
- Eugênio Vargas Garcia — Estados Unidos e Grã-Bretanha no Brasil: transição de poder no entreguerras. Contexto Internacional, v. 24, n. 1, 2002.
- Federal Reserve History — Creation of the Bretton Woods System. Acordos de 1944 e organização monetária internacional.
- Departamento de Estado dos EUA — Telegrama à Embaixada no Brasil, 31 de março de 1964. Foreign Relations of the United States, 1964–1968, volume XXXI, documento 198. Preparação de apoio às forças contrárias a Goulart; o documento distingue deslocamentos determinados de fornecimentos dependentes de decisões posteriores.
- BNDES — Nossa história. Financiamento da infraestrutura e da indústria.
- Embraer — História e 55 anos da companhia. Formação de pessoal, pesquisa aeronáutica e criação da empresa.
- Banco Central do Brasil — Relatório de Investimento Direto 2025, p. 27. Posição de 2024; investimento direto na modalidade participação no capital, por país do controlador final. O valor citado é estoque de investimento, não ingresso anual nem participação dos EUA em toda a economia brasileira.
- Carol Bertaut, Bastian von Beschwitz e Stephanie Curcuru — The International Role of the U.S. Dollar, edição 2025, Federal Reserve. Estudo publicado em 18 de julho de 2025; dados disponíveis principalmente até 2024.
- Banco Central do Brasil — Comércio bilateral do Brasil com EUA e China, Relatório de Política Monetária, junho de 2025, p. 48. Comércio de bens em 2024, com dados da Secex/MDIC.