Cláudio da Costa Oliveira setembro 2026.
Em outubro de 1929, a Bolsa de Nova York sofreu uma queda que se tornou símbolo de uma tragédia econômica mundial.
Mas a economia americana já vinha desacelerando. Nos anos seguintes, crises bancárias, retração do crédito e queda dos preços aprofundaram a depressão. Empresas fecharam e milhões de pessoas perderam o trabalho. A história oficial do Federal Reserve reconhece que erros da própria instituição contribuíram para agravar o desastre. Federal Reserve — Grande Depressão.
Uma potência industrial, capaz de produzir tanto, passou a conviver com fábricas paradas e famílias sem renda.
A crise colocou em discussão o funcionamento dos bancos, a responsabilidade dos governos e os limites do poder econômico.
Em 1933, Franklin Roosevelt assumiu a Presidência e iniciou o conjunto de medidas conhecido como New Deal.
A legislação bancária daquele ano separou atividades dos bancos comerciais e de investimento e criou a instituição federal de seguro dos depósitos, a FDIC. O objetivo era recuperar a confiança e proteger o funcionamento do sistema financeiro. Federal Reserve — Glass-Steagall.
O Estado também investiu na transformação da economia real.
A Tennessee Valley Authority, criada em 1933, reuniu geração de eletricidade, controle de enchentes, recuperação ambiental e desenvolvimento regional. A energia passou a integrar uma ação pública para melhorar as condições de produção e de vida. TVA.
Esse exemplo interessa especialmente ao Brasil. Energia disponível e acessível pode ampliar as possibilidades de uma região inteira, desde que venha acompanhada de infraestrutura, conhecimento e oportunidades de trabalho.
Em 1935, a Lei de Seguridade Social estabeleceu benefícios para a velhice e mecanismos de proteção contra o desemprego. Essa proteção ainda tinha limites: o texto original excluía trabalhadores agrícolas e empregados domésticos de sua definição de emprego para determinados benefícios. National Archives — Social Security Act.
Também houve mudanças na tributação, e aqui precisamos ser precisos.
Em 1936, a alíquota máxima do imposto de renda das pessoas físicas chegou a 79%, incidindo sobre a parcela de renda tributável acima de cinco milhões de dólares anuais. Era uma alíquota marginal: as faixas inferiores tinham outras taxas. IRS.
Portanto, esse número não significa que todas as empresas pagavam 79% sobre seus lucros. Imposto pessoal, tributação das empresas e impostos sobre lucros extraordinários são coisas diferentes.
O debate era sobre como financiar o Estado e distribuir os encargos de uma sociedade em crise. Não havia consenso entre empresários, trabalhadores e governantes.
A recuperação também enfrentou dificuldades. Em 1937, ocorreu outra recessão, e a volta ao pleno emprego aconteceu durante a mobilização da Segunda Guerra. Federal Reserve — Grande Depressão.
No Brasil, a intervenção estatal na economia já tinha uma história. O Convênio de Taubaté, de 1906, organizara uma política de sustentação dos preços do café, apoiada em compras de estoques e financiamento. FGV/CPDOC.
Essa comparação recoloca a pergunta da nossa série: a quem se destinava a proteção do Estado?
Em 1929, haviam transcorrido apenas 41 anos desde a abolição. A escravidão, uma das maiores atrocidades da humanidade, deixara uma sociedade profundamente desigual. Examinar quem possuía patrimônio, acesso à escola e influência política ajuda a entender quem conseguia ser ouvido.
A educação jesuítica também integra essa investigação sobre autoridade e formação social. Seus colégios e práticas de catequese tiveram presença central no Brasil colonial. HISTEDBR/Unicamp.
Minha pergunta permanece: em que circunstâncias os ensinamentos sobre obediência e pobreza foram utilizados para estimular solidariedade, e em quais favoreceram a aceitação de hierarquias injustas?
Reconhecer o valor da fé é compatível com exigir que as instituições respondam pelo sofrimento que podem evitar.
A experiência de 1929 mostra como as decisões econômicas afetam a vida de toda a população. Regras, investimentos e proteção social precisam ser discutidos por quem trabalha e produz.
Um país se desenvolve quando sua capacidade de gerar riqueza amplia a segurança e as oportunidades de seu povo.
CRITICAS, OPINIÕES, SUGESTÕES: soberanobrasiles@gmail.com
REFERÊNCIAS
- Gary Richardson — The Great Depression, Federal Reserve History. Crise, política monetária, recessão de 1937 e recuperação durante a guerra.
- Federal Reserve History — Banking Act of 1933 (Glass-Steagall). Reforma bancária e criação da FDIC.
- Tennessee Valley Authority — Our History. Criação em 1933 e objetivos de desenvolvimento regional.
- National Archives — Social Security Act (1935). Texto original; exclusões na seção 210(b).
- Robert A. Wilson — Personal Exemptions and Individual Income Tax Rates, 1913–2002, IRS. Tabela histórica, p. 219: alíquota máxima e limite da faixa em 1936.
- FGV/CPDOC — Convênio de Taubaté. Valorização do café, financiamento e interesses envolvidos.
- Sônia Maria Fonseca — A hegemonia jesuítica (1549–1759), HISTEDBR/Unicamp. Educação e catequese