Cláudio da Costa Oliveira setembro 2026.
No Fala Sério anterior, examinamos como a escravidão marcou a distribuição da riqueza e das oportunidades no Brasil. Agora precisamos olhar para outra dimensão da nossa formação: os valores transmitidos pela educação e pela religião.
Durante séculos, quem ensinou os brasileiros a compreender o mundo? O que aprenderam sobre autoridade, riqueza, trabalho e vida em comunidade?
Os primeiros jesuítas chegaram em 1549, na comitiva de Tomé de Sousa. Até sua expulsão dos domínios portugueses, em 1759, foram 210 anos de presença decisiva na educação colonial.
Sua atuação ultrapassava os colégios. Incluía catequese, aldeamentos, música, teatro, artes e ofícios. Essas práticas alcançavam pessoas que jamais frequentariam um curso destinado à formação das elites. HISTEDBR/Unicamp.
Por isso, considero que a influência jesuítica merece uma investigação própria. Uma instituição que participou da formação de tantas gerações pode deixar marcas que sobrevivem à sua presença física.
Dois valores me parecem especialmente importantes: obediência e pobreza.
Na tradição jesuítica, a obediência orienta a disponibilidade para a missão religiosa. Envolve disciplina, confiança e a relação com os superiores. A pobreza implica renúncia à propriedade pessoal e desapego dos bens materiais, que devem servir à comunidade e à missão. Ben Jansen, SJ — os votos jesuíticos.
Esses compromissos eram assumidos pelos religiosos. O que precisamos investigar é como seus valores eram apresentados aos alunos, às famílias e às comunidades.
Minha hipótese é que a valorização da obediência pode ter contribuído, em determinados ambientes, para reforçar o respeito à autoridade e a preferência pela conciliação. O desapego dos bens pode ter estimulado a solidariedade e a valorização de uma vida que não se resume ao enriquecimento pessoal.
Mas os efeitos dependem de como esses ensinamentos são transmitidos.
A obediência pode organizar uma comunidade. Quando se transforma em submissão incondicional a quem manda, pode dificultar o questionamento de uma injustiça.
O desapego pode libertar uma pessoa da obsessão pelo dinheiro. Quando a privação é apresentada como destino que os pobres devem aceitar, pode favorecer a permanência da desigualdade.
Escolher a simplicidade é muito diferente de ser impedido de melhorar de vida.
A própria experiência jesuítica reúne questões que precisam ser examinadas.
A Companhia mantinha propriedades e utilizava trabalho escravizado. Pesquisadores também encontraram registros de ensino a crianças negras em suas fazendas, como Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Eram experiências limitadas, ligadas à catequese, que não significavam acesso universal à escola nem o fim do cativeiro. Ferreira Júnior e Bittar — educação jesuítica e crianças negras.
O patrimônio institucional sustentava suas atividades, embora os religiosos professassem pobreza pessoal. Examinar essa diferença ajuda a compreender como uma ordem dedicada à fé participava da economia colonial.
Também havia espaço para o exercício intelectual. O Ratio Studiorum, plano de estudos publicado em 1599, incluía argumentação e debates, dentro dos limites doutrinários da época. Disciplina e atividade intelectual conviviam nesse ensino. HISTEDBR/Unicamp.
Em 1759, a expulsão interrompeu a atuação institucional da Companhia. Mas uma ordem de expulsão não permite concluir que todos os valores transmitidos durante dois séculos desapareceram.
Para identificar o que permaneceu, precisamos acompanhar sermões, práticas escolares, costumes familiares e formas de organização comunitária. Precisamos observar também as diferenças entre regiões e períodos.
A ligação entre essa educação e comportamentos brasileiros atuais permanece uma hipótese. A escravidão, a concentração da terra, a repressão política e a dificuldade de acesso à escola também moldaram nossa relação com o poder.
A fé cristã pode inspirar solidariedade, serviço e compromisso com os mais vulneráveis. Conhecer sua presença na história exige compreender tanto seus ensinamentos quanto os usos que a sociedade fez deles.
É esse conhecimento que pode nos ajudar a preservar a cooperação e a vida comunitária, ampliando a liberdade de pensar, participar e exigir justiça.
Para se sentir dono do Brasil, o brasileiro precisa reconhecer seu direito de participar das decisões sobre o país.
CRITICAS, OPINIÕES, SUGESTÕES: soberanobrasiles@gmail.com
REFERÊNCIAS
- Sônia Maria Fonseca — A hegemonia jesuítica (1549–1759), HISTEDBR/Unicamp. Educação colonial, artes, ofícios, Ratio Studiorum e expulsão.
- Ben Jansen, SJ — Jesuit 101: Vows of Poverty, Chastity, and Obedience. Explicação contemporânea do sentido religioso dos votos; não constitui, por si só, evidência de seus efeitos na sociedade colonial.
- Amarilio Ferreira Júnior e Marisa Bittar — Educação jesuítica e crianças negras no Brasil Colonial. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 80, n. 196, 1999, p. 472–482. Pesquisa baseada, entre outras fontes, em cartas e documentos reunidos por Serafim Leite