Cláudio da Costa Oliveira setembro 2026
Quando uma pessoa é dona de uma casa, procura cuidar dela.
Se alguém entra, retira seus móveis ou destrói parte do imóvel, o proprietário reage. Ele quer saber quem autorizou, por que aquilo foi feito e quem será responsabilizado.
Mas será que o brasileiro reage da mesma maneira quando alguma coisa pertencente ao país é destruída, abandonada ou vendida?
O brasileiro costuma falar no dinheiro do governo, na empresa do governo, no petróleo do governo e nas terras do governo.
Mas o governo não produz dinheiro próprio. Ele administra os impostos pagos pela sociedade e as riquezas pertencentes ao Estado brasileiro.
O governo é temporário. O país permanece.
A Petrobras, por exemplo, é uma empresa de economia mista e possui acionistas privados. Entretanto, a União mantém seu controle e a empresa foi criada para ser um instrumento estratégico do desenvolvimento brasileiro.
O petróleo do pré-sal também não pertence ao presidente da República, a um partido político ou aos dirigentes da Petrobras. É uma riqueza existente no território brasileiro e sua exploração precisa beneficiar toda a sociedade.
Entretanto, quando uma refinaria é vendida, um campo de petróleo é transferido ou uma empresa nacional reduz seus investimentos, grande parte da população assiste a tudo como se estivesse vendo uma negociação entre terceiros.
Por que isso acontece?
Talvez porque, durante a maior parte da nossa história, o brasileiro realmente não tenha sido tratado como dono do Brasil.
Na Colônia, a terra pertencia à Coroa portuguesa e a um pequeno grupo de beneficiados. Os indígenas foram afastados de seus territórios. Os africanos escravizados eram considerados propriedade de outras pessoas.
A maioria trabalhava, produzia e construía, mas não decidia.
A Independência foi proclamada em 1822, mas não distribuiu terras, não acabou com a escravidão e não entregou o poder à população.
A escravidão terminou em 1888, sem que os libertos recebessem terras, educação ou condições adequadas para construir uma vida independente.
A República foi proclamada em 1889, mas também nasceu sem participação popular significativa.
Isso não significa que o brasileiro nunca tenha lutado.
Tivemos quilombos, revoltas, movimentos pela Abolição, lutas de trabalhadores, mobilizações pela democracia, as Diretas Já e muitas outras manifestações populares.
O problema é que essas lutas não foram suficientes para fazer a maioria da população participar permanentemente das decisões econômicas do país.
Durante séculos, o brasileiro aprendeu que sua principal obrigação era trabalhar, obedecer e sobreviver. As grandes decisões seriam tomadas por imperadores, presidentes, políticos, grandes proprietários, empresários ou grupos estrangeiros.
Esse afastamento continua aparecendo na maneira como tratamos o patrimônio nacional.
Quando dizem que uma empresa pública está quebrada, poucas pessoas procuram saber se os números confirmam aquela afirmação.
Quando dizem que é necessário vender um patrimônio, quase ninguém pergunta quanto ele vale, quem está comprando, quais receitas produzirá no futuro e quem perderá com a venda.
Quando uma riqueza natural é exportada sem transformação industrial, raramente perguntamos quantos empregos, conhecimentos e impostos poderiam ter permanecido no Brasil.
A população não reage como proprietária porque muitas vezes nem sequer sabe que aquela riqueza também influencia seu futuro.
Isso ficou evidente no caso da Petrobras.
Depois da descoberta do pré-sal, difundiram-se dúvidas sobre a existência do petróleo, sobre a capacidade tecnológica da empresa, sobre os custos da produção e, finalmente, sobre a própria sobrevivência financeira da Petrobras.
O brasileiro comum, sem acesso aos balanços e às informações técnicas, passou a ouvir que a empresa estava quebrada.
Se ele não se sentia dono da Petrobras, por que iria defendê-la?
Transformar uma população em povo exige criar esse sentimento de pertencimento.
Mas sentir-se dono do Brasil não significa rejeitar empresas estrangeiras, fechar o país ou considerar o restante do mundo nosso inimigo.
Significa negociar com outros países e empresas sabendo que temos interesses próprios.
O capital estrangeiro pode participar do desenvolvimento brasileiro. O que não pode é definir sozinho o destino de nossas riquezas.
Sentir-se dono significa exigir transparência. Significa conhecer o valor do petróleo, dos minérios, das águas, das florestas e das empresas estratégicas.
Significa perguntar quem ganha e quem perde com cada decisão.
Significa compreender que corrupção, desperdício e má administração representam perdas para cada brasileiro. Mas significa também perceber que vender um patrimônio valioso por um preço inadequado pode causar um prejuízo ainda maior.
Talvez o Brasil ainda tenha uma população que vive no mesmo território, mas que não se reconhece plenamente como proprietária de uma história e de um destino comum.
E sem esse reconhecimento será muito difícil formar um verdadeiro povo e construir uma nação soberana.
O Brasil não pertence ao governo, aos partidos, aos grandes empresários, à imprensa nem aos fundos financeiros internacionais.
O Brasil pertence aos brasileiros.
A grande pergunta é:
Quando o brasileiro começará a agir como dono do Brasil?
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