Cláudio da Costa Oliveira setembro 2026
O Brasil possui 8,5 milhões de quilômetros quadrados e mais de 200 milhões de habitantes.
Temos terras férteis, água, minérios, petróleo, florestas e inúmeras fontes de energia. Somos grandes produtores de alimentos, minério de ferro, petróleo, café, soja e diversas outras riquezas.
Mas, apesar de tudo isso, milhões de brasileiros continuam lutando apenas para sobreviver.
Por que um país tão rico não consegue se desenvolver?
Primeiramente, precisamos entender o que significa desenvolvimento.
Desenvolvimento não é apenas aumentar o Produto Interno Bruto. Também não é bater recordes na exportação de café, soja, minério ou petróleo.
Um país se desenvolve quando transforma suas riquezas em conhecimento, tecnologia, indústrias, empregos qualificados, educação, saúde e melhoria das condições de vida de sua população.
O Brasil produz muita riqueza. O problema é saber quem controla essa riqueza, como ela é utilizada e quem fica com seus resultados.
Talvez a explicação comece na nossa própria formação.
O Brasil não foi criado para ser uma nação desenvolvida. Foi organizado como colônia, para fornecer riquezas a Portugal e à Europa.
Primeiro foi o pau-brasil. Depois vieram o açúcar, o ouro, o café e outras matérias-primas.
A terra ficou concentrada nas mãos de poucos. Os povos indígenas foram expulsos, submetidos ou mortos. Cerca de 4,8 milhões de africanos escravizados desembarcaram vivos no Brasil.
Essas pessoas trabalhavam, produziam e construíam o país, mas não tinham direitos. Não podiam escolher seu destino e não participavam da distribuição das riquezas que produziam.
Em 1822, o Brasil tornou-se independente de Portugal. Mas a Independência não distribuiu a terra, não acabou com a escravidão e não modificou profundamente o controle da economia.
Em 1888, a escravidão foi finalmente abolida. Entretanto, os libertos não receberam terra, educação nem uma política nacional capaz de integrá-los plenamente à nova sociedade.
No ano seguinte, veio a República, também sem grande participação popular.
Durante séculos, portanto, a maioria dos brasileiros viveu neste país sem se sentir parte das decisões e sem acreditar que as riquezas nacionais também lhe pertenciam.
No final do século XIX e no início do século XX, chegaram milhões de imigrantes. Trouxeram trabalho, conhecimentos, experiências e ajudaram a iniciar novas atividades industriais. Mas entraram num país cuja estrutura econômica já estava montada: uma pequena elite controlava a terra, o poder e a riqueza.
A colônia acabou. A escravidão acabou. Mas será que o modelo de exploração também acabou?
Até hoje exportamos grandes quantidades de café em grão, cacau, minério de ferro e petróleo. Outros países transformam essas matérias-primas, agregam tecnologia, criam empregos qualificados e ficam com parte importante do valor final.
Isso não acontece porque o brasileiro seja incapaz.
A criação da CSN, da Petrobras, do BNDES, da Embraer e de inúmeras outras empresas mostrou que o Brasil possui trabalhadores, engenheiros, técnicos e cientistas capazes de realizar grandes projetos.
A descoberta do pré-sal pela Petrobras foi mais uma demonstração dessa competência.
Mas, em vez de discutirmos como utilizar essa enorme riqueza para industrializar o Brasil, financiar a educação, desenvolver tecnologia e melhorar a vida da população, começamos a ouvir que a Petrobras não possuía tecnologia, que o petróleo seria muito caro e, finalmente, que a empresa estava quebrada.
Será que essas afirmações correspondiam aos fatos? Ou ajudaram a convencer o brasileiro de que aquilo que era seu precisava ser entregue a outros?
É exatamente isso que precisamos investigar.
Eu tenho dito que o Brasil possui uma população, mas ainda não conseguiu formar plenamente um povo. Possui um país, mas ainda não construiu completamente uma nação.
Uma população é formada pelas pessoas que vivem num território.
Um povo se forma quando essas pessoas reconhecem uma história comum, compreendem seus interesses e participam das decisões sobre o futuro.
Uma nação existe verdadeiramente quando esse povo se sente dono de seu território, de suas riquezas e de seu destino.
Talvez o maior problema brasileiro não seja falta de recursos, de capacidade ou de trabalho.
Talvez seja que o brasileiro nunca tenha sido ensinado a sentir que este país também lhe pertence.
Antes de decidir o futuro, precisamos conhecer nossa formação, compreender quem controla nossas riquezas e descobrir por que tantas decisões importantes são tomadas sem a participação da população.
O primeiro passo para desenvolver o Brasil talvez seja fazer o brasileiro compreender que ele não está aqui apenas para sobreviver.
Ele é um dos donos deste país.
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