Cláudio da Costa Oliveira Agosto 2026
Em 10 de março de 2023 escrevi neste Soberano Brasil o artigo:
“A vaca foi pro brejo. Adeus Petrobras.”
Na época talvez alguns tenham considerado minha reação exagerada.
Hoje, três anos depois, vale a pena voltar ao assunto.
Jean Paul Prates tomou posse como presidente da Petrobras no dia 26 de janeiro de 2023.
Apenas 42 dias depois, em 9 de março, durante a CERAWeek, em Houston, nos Estados Unidos, assinou um memorando de entendimentos com o CEO da Shell, Wael Sawan.
Segundo a própria Petrobras, o acordo tinha duração de cinco anos e destinava-se a identificar oportunidades conjuntas de negócios na exploração e produção de petróleo.
E o comunicado oficial dizia expressamente que essas oportunidades incluíam a Margem Equatorial.
Era um memorando não vinculante. Portanto, não significava que naquele momento a Petrobras estivesse entregando determinado bloco ou determinada porcentagem de uma descoberta à Shell.
Mas a pergunta que fiz naquela época continua de pé:
PARA QUE A PETROBRAS PRECISA DA SHELL PARA PROCURAR PETRÓLEO NO BRASIL?
Quem souber responda.
A Petrobras descobriu o pré-sal.
Desenvolveu tecnologia pioneira para exploração em águas profundas e ultraprofundas.
Durante décadas tornou-se uma das empresas de petróleo com maior conhecimento offshore do mundo.
Possui geólogos, geofísicos, engenheiros, centros de pesquisa, navios, sistemas submarinos e enorme experiência operacional.
Por que, então, uma empresa estrangeira precisaria participar da exploração de uma das áreas potencialmente mais importantes do território brasileiro?
Agora temos uma prova ainda mais interessante.
Em agosto de 2026, a Petrobras anunciou a descoberta de hidrocarbonetos no poço Morpho, no bloco FZA-M-59, na costa do Amapá.
Quem está explorando esse bloco?
A Petrobras.
Qual a participação da Petrobras?
100%.
E qual a participação da Shell?
Zero.
Então ficou demonstrado na prática aquilo que já sabíamos:
a Petrobras possui capacidade técnica e financeira para explorar a Margem Equatorial sem precisar entregar participação a uma empresa estrangeira.
MAS AS PETROLEIRAS FAZEM PARCERIAS
Vão dizer que isto é normal na indústria do petróleo.
E é verdade.
As empresas formam consórcios para dividir riscos exploratórios, investimentos e custos.
Se um poço não encontrar petróleo, o prejuízo também é dividido.
É uma decisão perfeitamente compreensível para uma empresa privada cujo objetivo principal é maximizar o retorno de seus acionistas.
Mas a Petrobras não é uma empresa qualquer.
É uma empresa controlada pelo Estado brasileiro.
E estamos falando de petróleo existente no território brasileiro.
Neste caso surge outra pergunta:
Qual é o interesse do Brasil?
Imagine uma área em que a Petrobras tenha condições de assumir 100% do risco.
Se não houver petróleo, arca com 100% do prejuízo.
Mas se houver uma descoberta gigantesca, também ficará com 100% da participação econômica que cabe à concessionária.
Se trouxermos uma empresa estrangeira com participação de 30%, 40% ou 50%, dividimos o risco.
Mas também dividimos o prêmio.
E em petróleo o prêmio de uma grande descoberta pode durar 30 ou 40 anos.
Este é o ponto que raramente entra na discussão.
O PETRÓLEO NÃO É APENAS UMA MERCADORIA
O petróleo encontrado no território brasileiro é um recurso natural estratégico.
Sua exploração gera royalties, participações especiais, impostos, empregos, indústria, tecnologia e enormes fluxos financeiros.
Mas há ainda a renda pertencente às empresas produtoras.
Quando a Petrobras possui 100% de um campo, esta parcela permanece integralmente na empresa brasileira — descontadas naturalmente as participações governamentais, impostos, custos e demais obrigações.
Quando uma multinacional possui parte do campo, a parcela correspondente do resultado pertence a essa multinacional.
É simples.
Por isso não basta dizer:
“É normal fazer parceria.”
Precisamos perguntar:
A parceria é necessária?
O que o Brasil recebe em troca?
A Petrobras não conseguiria executar o projeto sozinha?
Qual risco estamos transferindo?
E quanto do eventual ganho futuro estamos entregando em contrapartida?
Sem responder essas perguntas não é possível afirmar que uma parceria seja boa para o Brasil.
E HÁ UMA CURIOSIDADE
A associação entre Petrobras e Shell na Margem Equatorial não começou com Jean Paul Prates.
Em 2018, portanto durante outro governo, Petrobras e Shell já haviam adquirido juntas os blocos POT-M-859 e POT-M-952, na Bacia Potiguar.
A Petrobras ficou com 60% e a Shell com 40%.
Portanto este não é um problema de Lula, Bolsonaro, PT ou qualquer outro partido.
É uma questão muito maior:
Qual deve ser a função estratégica da Petrobras?
O que Prates fez em março de 2023 foi reafirmar e ampliar essa política de cooperação com a Shell, incluindo expressamente futuras oportunidades na Margem Equatorial.
E eu critiquei isso naquele momento.
Continuo criticando.
AGORA O PETRÓLEO APARECEU
Em 2023 ainda se discutia se havia petróleo na nova fronteira exploratória brasileira.
Agora a Petrobras encontrou hidrocarbonetos no primeiro poço da campanha no Amapá.
Ainda não sabemos o tamanho da descoberta.
Pode ser pequena.
Pode não ser economicamente viável.
Ou pode ser o começo de uma nova província petrolífera de enorme dimensão.
É justamente por não sabermos que precisamos ter cuidado.
Se novas descobertas confirmarem uma província gigantesca, as decisões tomadas antes da descoberta poderão valer centenas de bilhões de dólares no futuro.
A experiência internacional mostra isso.
Antes de encontrar petróleo, uma área exploratória contém apenas risco.
Depois de uma grande descoberta, contém riqueza.
Por isso existe enorme diferença entre compartilhar o risco antes de sabermos o que existe e entregar participação depois que o potencial geológico começa a ser comprovado.
PETROBRAS: FAÇA AQUILO QUE SABE FAZER
Não estou defendendo o isolamento da Petrobras.
Existem situações nas quais parcerias são necessárias e vantajosas.
A Petrobras pode participar de projetos no exterior.
Pode trocar tecnologias.
Pode associar-se quando o risco ou o tamanho do investimento justificar.
Pode até fazer acordos em que receba ativos de valor equivalente em outros países.
Mas precisa existir uma resposta objetiva para uma pergunta muito simples:
O que o Brasil ganha?
Na Margem Equatorial, principalmente depois do resultado do FZA-M-59, esta pergunta tornou-se ainda mais importante.
Se a Petrobras tem:
- tecnologia;
- conhecimento;
- experiência;
- capacidade financeira;
- corpo técnico;
- domínio de águas ultraprofundas;
e está demonstrando que consegue perfurar sozinha,
por que dividir uma eventual gigantesca descoberta brasileira?
Em março de 2023 eu escrevi que estava preocupado.
Passados três anos, continuo fazendo a mesma pergunta.
Só que agora existe uma diferença.
O petróleo começou a aparecer.
E antes que novos contratos sejam assinados e novas participações sejam distribuídas, o povo brasileiro tem o direito de saber:
POR QUÊ?
CRITICAS, SUGESTÕES, COMENTÁRIOS : soberanobrasiles@gmail.com
Referências principais
- Petrobras — eleição e posse de Jean Paul Prates, 26 de janeiro de 2023.
- Petrobras — Memorando de Entendimentos Petrobras/Shell, 9 de março de 2023.
- Petrobras — Relatório Anual e Form 20-F 2023.
- ANP — 15ª Rodada de Licitações, blocos POT-M-859 e POT-M-952.
- Petrobras — informações sobre exploração da Margem Equatorial e bloco FZA-M-59.
- Soberano Brasil — “A vaca foi pro brejo. Adeus Petrobras”, março de 2023.