FALA SÉRIO 185, Um projeto para o Brasil: São Luís e a siderurgia de baixo carbono

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Cláudio da Costa Oliveira,  julho de 2026

O Brasil exporta minério. Outros países transformam minério em riqueza.

Todos os dias, navios deixam os portos brasileiros carregados com milhões de toneladas de minério de ferro. Grande parte segue para a China; outra parcela abastece siderúrgicas no Japão, na Coreia do Sul, na Europa e em outros mercados.

Exportamos um recurso natural valioso. Mas será que capturamos toda a riqueza que ele pode gerar?

A resposta é não.

O maior valor econômico não está apenas na extração do minério, mas em sua transformação industrial. Uma tonelada de minério de ferro vale muito menos do que uma tonelada de aço especial. Quando esse aço se converte em chapas para automóveis, equipamentos industriais, turbinas eólicas, navios, trilhos ferroviários e máquinas, seu valor agregado aumenta ainda mais.

É ao longo dessa cadeia que surgem empregos qualificados, melhores salários, investimentos em pesquisa, desenvolvimento tecnológico, arrecadação de impostos e oportunidades para fornecedores locais.

O Brasil ocupa uma posição de destaque nas primeiras etapas desse processo. Outros países, entretanto, dominam as fases industriais mais avançadas. Como consequência, uma parcela significativa da riqueza potencial do minério brasileiro é gerada no exterior.

Não se trata de abandonar a exportação de minério, que continuará sendo importante para a economia nacional. O desafio é ampliar a participação brasileira nas etapas de maior valor agregado.

Nesse contexto, a transição mundial para o aço de baixo carbono abre uma oportunidade histórica.

Poucos países conseguem reunir, simultaneamente:

  • minério de ferro de alta qualidade;
  • disponibilidade de energia eólica e solar;
  • potencial para produzir hidrogênio de baixo carbono;
  • portos de águas profundas;
  • experiência industrial e logística;
  • um mercado interno de grandes dimensões.

O Brasil reúne essas condições. Com planejamento de longo prazo, pode deixar de ser apenas um grande exportador de minério e tornar-se um dos protagonistas mundiais da siderurgia de baixo carbono.

São Luís: a nova CST do século XXI?

A história brasileira oferece um precedente relevante.

Quando a Companhia Siderúrgica de Tubarão, a CST, foi concebida na década de 1970, o país deu um passo estratégico para agregar valor ao minério de ferro. A Vale fornecia a matéria-prima, enquanto a japonesa Kawasaki Steel contribuía com tecnologia e acesso aos mercados internacionais. O empreendimento ajudou a transformar o Espírito Santo em um importante polo produtor e exportador de placas de aço.

Quase meio século depois, o cenário industrial é diferente. A prioridade já não é somente produzir grandes volumes de aço. O novo desafio é fabricar aço com emissões cada vez menores, utilizando energia renovável, novas tecnologias industriais e, quando técnica e economicamente viável, hidrogênio de baixo carbono.

É justamente nesse novo cenário que São Luís pode assumir um papel estratégico.

O Maranhão conta com a proximidade do minério de alta qualidade produzido pela Vale em Carajás e com uma infraestrutura logística consolidada, integrada à Estrada de Ferro Carajás e ao complexo portuário da capital. O Nordeste, por sua vez, possui condições especialmente favoráveis para a expansão das energias eólica e solar e começa a se posicionar na futura economia do hidrogênio.

Diante dessas vantagens, uma pergunta se impõe:

Por que continuar exportando principalmente minério de ferro se também podemos produzir e exportar aço de alta qualidade e baixa emissão de carbono?

A cooperação com a indústria japonesa também possui antecedentes. A Kawasaki Steel, posteriormente integrada à NKK na formação da JFE Steel, foi sócia da CST ao lado da Vale. Em outros momentos, Vale e JFE voltaram a discutir oportunidades no setor siderúrgico brasileiro. A Vale também vem estabelecendo parcerias com empresas internacionais para desenvolver tecnologias de descarbonização e estudar polos industriais voltados à produção de aço de menor intensidade de carbono.

Isso mostra que a descarbonização da siderurgia deixou de ser apenas uma questão ambiental. Tornou-se uma estratégia industrial, tecnológica e comercial.

São Luís reúne condições para sediar um empreendimento dessa natureza. Uma possibilidade seria formar uma sociedade entre a Vale, uma grande siderúrgica internacional — eventualmente japonesa — e investidores dos setores de energia e infraestrutura.

O projeto poderia começar com a produção de insumos siderúrgicos e placas de aço de baixa emissão, avançando posteriormente para laminados planos de maior valor agregado. A produção atenderia tanto ao mercado brasileiro quanto aos mercados europeu, norte-americano e asiático.

Com isso, o país deixaria de exportar somente matéria-prima e passaria a gerar, em território nacional, empregos qualificados, conhecimento tecnológico, receitas tributárias e produtos industriais mais sofisticados.

Evidentemente, um empreendimento dessa dimensão exigiria investimentos de bilhões de dólares, fornecimento confiável de energia, infraestrutura adequada, financiamento competitivo, estabilidade regulatória e segurança jurídica. Também seria necessário avaliar cuidadosamente sua viabilidade econômica, tecnológica e ambiental.

Não é um projeto simples. Grandes transformações, porém, começam com uma visão estratégica.

Foi assim com Carajás.

Foi assim com a Companhia Siderúrgica de Tubarão.

São Luís pode ser o ponto de partida de uma nova etapa da industrialização brasileira: uma siderurgia moderna, competitiva e integrada à economia de baixo carbono.

O Brasil possui o minério.

Possui energia renovável.

Possui logística e mercado.

Precisa agora transformar essas vantagens em planejamento, investimento e política industrial de longo prazo.

Talvez tenha chegado a hora de construir a CST do século XXI.

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