Escrito por Cláudio da Costa Oliveira julho 2026
O aço é um dos fundamentos da civilização industrial.
Está presente nos automóveis, caminhões, trens, navios, máquinas, tratores, pontes, edifícios, portos, ferrovias, oleodutos, torres de transmissão, turbinas, transformadores, equipamentos militares e praticamente em toda a infraestrutura produtiva de uma nação.
Sem aço de qualidade e a preço competitivo, dificilmente existe uma indústria forte.
O aço caro aumenta o custo das máquinas, dos veículos, dos equipamentos elétricos, da construção civil e de toda a cadeia produtiva. O aço barato e de qualidade, ao contrário, estimula a indústria de transformação, amplia os investimentos e melhora a competitividade de milhares de empresas.
Foi compreendendo essa importância que a China construiu a maior siderurgia do planeta.
Em 2025, a China produziu aproximadamente 960 milhões de toneladas de aço bruto, diante de uma produção mundial próxima de 1,85 bilhão de toneladas. Ou seja, praticamente 52% de todo o aço produzido no mundo saiu das siderúrgicas chinesas.
Isso não aconteceu apenas porque a China possui carvão mineral.
A liderança chinesa resultou de uma combinação de planejamento estatal, crédito direcionado, grandes investimentos em energia e infraestrutura, enorme mercado interno, produção em escala, integração das cadeias industriais e importação maciça de matérias-primas, principalmente minério de ferro proveniente da Austrália e do Brasil.
A energia é parte fundamental dessa equação. A siderurgia é uma atividade extremamente intensiva em energia, e as diferenças nos preços do carvão, do gás e da eletricidade podem modificar profundamente o custo final do aço. A Agência Internacional de Energia reconhece que os preços industriais de eletricidade podem variar em até sete vezes entre diferentes regiões do mundo.
A China compreendeu que produzir aço em grande escala não significava apenas vender aço.
Significava fornecer uma base barata para a construção de ferrovias, portos, usinas, cidades, automóveis, máquinas, navios, eletrodomésticos, equipamentos elétricos e produtos industriais destinados ao mercado mundial.
O aço barato ajudou a impulsionar toda a indústria chinesa.
Enquanto isso, os países ocidentais passaram décadas pregando a globalização, a abertura dos mercados, a liberdade de circulação do capital e a redução da participação do Estado na economia.
Mas será que eles realmente acreditam nisso?
Em 2005, a CNOOC, empresa petrolífera controlada pelo governo chinês, apresentou uma proposta de US$ 18,5 bilhões para adquirir a americana Unocal.
A oferta era superior à apresentada pela Chevron.
Entretanto, o Congresso americano reagiu. Parlamentares afirmaram que uma empresa controlada pelo governo chinês não deveria adquirir ativos energéticos considerados relevantes para a segurança dos Estados Unidos. Diante da resistência política, a CNOOC retirou sua proposta, e a Unocal acabou incorporada pela Chevron.
A liberdade de mercado terminou exatamente onde começou a segurança energética americana.
Algo semelhante aconteceu com a U.S. Steel.
Em janeiro de 2025, o presidente Joe Biden proibiu a aquisição da empresa pela japonesa Nippon Steel, alegando riscos para a segurança nacional.
Donald Trump determinou uma nova análise do negócio. A aquisição acabou autorizada e foi concluída em 18 de junho de 2025, mas sob regras extremamente rigorosas.
A Nippon Steel assumiu a propriedade da companhia, mas o governo americano recebeu uma ação especial, conhecida como golden share.
Por meio dessa ação, o governo dos Estados Unidos passou a ter o direito de indicar um membro independente para o Conselho de Administração e de vetar determinadas decisões.
Entre elas estão:
- mudança do nome ou da sede da U.S. Steel;
- transferência de empregos ou da produção para fora dos Estados Unidos;
- fechamento ou paralisação de unidades industriais;
- redução dos investimentos prometidos;
- mudança de determinadas políticas de compras;
- decisões relacionadas ao comércio e à produção doméstica.
A U.S. Steel também deverá continuar sediada em Pittsburgh, ter maioria de cidadãos americanos em seu Conselho de Administração e manter americanos nos principais cargos executivos. A Nippon Steel comprometeu-se ainda a realizar cerca de US$ 11 bilhões em novos investimentos até 2028.
Portanto, a empresa passou a ter um proprietário japonês, mas permaneceu submetida ao controle estratégico do governo americano.
Não foi uma simples operação privada.
Foi uma operação subordinada aos interesses nacionais dos Estados Unidos.
O Reino Unido acaba de dar um passo ainda mais radical.
A British Steel, que estava sob o controle do grupo chinês Jingye, vinha operando sob intervenção governamental desde abril de 2025. Depois de não conseguir um acordo com o proprietário, o governo britânico decidiu nacionalizar a companhia.
A lei de nacionalização recebeu aprovação real em 15 de julho de 2026. No dia seguinte, 16 de julho de 2026, a British Steel foi oficialmente transferida para o controle público.
O governo britânico justificou a decisão afirmando que uma indústria siderúrgica doméstica forte é fundamental para a reindustrialização, para a infraestrutura nacional, para a defesa, para a segurança econômica e para a redução da dependência de fornecedores externos.
A própria nota oficial declarou que a siderurgia é crítica para a “segurança, resiliência e força econômica” do Reino Unido.
Não foram a China, Cuba ou a Venezuela que nacionalizaram uma siderúrgica.
Foi o Reino Unido, um dos berços do capitalismo, da Revolução Industrial e do liberalismo econômico.
O que esses episódios demonstram?
Demonstram que certos setores não podem ficar submetidos exclusivamente às decisões dos mercados financeiros ou de grupos privados, principalmente quando esses grupos são controlados por governos estrangeiros.
Isso não significa que todas as empresas estratégicas precisem ser necessariamente estatais.
O controle governamental pode assumir diferentes formas:
- propriedade pública;
- participação acionária;
- golden share;
- poder de veto;
- controle sobre mudanças societárias;
- exigência de produção nacional;
- manutenção obrigatória de fábricas e empregos;
- financiamento público;
- encomendas governamentais;
- tarifas de importação;
- exigência de conteúdo nacional;
- fiscalização de investimentos estrangeiros.
O importante não é apenas saber quem possui juridicamente a empresa.
O importante é saber quem controla as decisões estratégicas.
Os Estados Unidos aceitaram a propriedade japonesa da U.S. Steel, mas preservaram poderes para impedir que a empresa seja esvaziada, transferida para o exterior ou fechada.
O Reino Unido decidiu que a propriedade pública era necessária para garantir a continuidade de sua produção siderúrgica.
A China mantém o Estado diretamente envolvido no planejamento, no financiamento, na energia, na infraestrutura e nas maiores empresas de sua cadeia industrial.
Nenhuma dessas nações entrega inteiramente seu futuro às decisões do mercado.
Todas reconhecem que aço, energia, petróleo, eletricidade, defesa, telecomunicações, semicondutores e infraestrutura são muito mais do que simples mercadorias.
São instrumentos de soberania.
E o Brasil?
O Brasil possui minério de ferro, recursos energéticos, capacidade tecnológica, experiência industrial e um grande mercado interno. Mesmo assim, durante décadas aceitou a ideia de que o Estado deveria se afastar da economia e deixar que o mercado decidisse o destino de suas empresas e de suas cadeias produtivas.
Exportamos minério de ferro e, muitas vezes, importamos equipamentos, máquinas e produtos industriais de elevado valor agregado.
Vendemos recursos naturais baratos e compramos tecnologia cara.
Enquanto Estados Unidos e Reino Unido estabelecem regras para proteger suas siderúrgicas, no Brasil qualquer intervenção estatal é frequentemente denunciada como atraso, populismo ou afronta ao mercado.
Existe uma evidente contradição.
As nações desenvolvidas defendem a liberdade econômica para os outros, mas utilizam todos os instrumentos do Estado quando seus próprios interesses estão ameaçados.
O mercado é importante.
O capital privado é importante.
O investimento estrangeiro também pode ser importante.
Mas todos eles devem estar subordinados a um projeto nacional de desenvolvimento.
Empresa estratégica não pode ser administrada apenas para maximizar dividendos no trimestre seguinte. Precisa investir, produzir, desenvolver tecnologia, formar trabalhadores, atender ao mercado nacional e garantir a segurança econômica do país.
O aço não é uma mercadoria qualquer.
A energia não é uma mercadoria qualquer.
O petróleo não é uma mercadoria qualquer.
Quem controla esses setores possui enorme influência sobre toda a economia.
Estados Unidos, China e Reino Unido sabem disso.
O problema é saber quando o Brasil também compreenderá.
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