FALA SÉRIO 180, E o teu futuro espelha essa grandeza.” Que futuro?

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Escrito por Cláudio da Costa Oliveira com IA julho de 2026

Falando sério, e sem qualquer ufanismo, considero o Hino Nacional Brasileiro um dos mais bonitos do mundo.

Bonito pela música, composta por Francisco Manuel da Silva em 1831, no período da abdicação de Dom Pedro I. E bonito pela letra escrita por Joaquim Osório Duque-Estrada em 1909, quase oito décadas depois, e oficialmente adotada em 1922.

Entre seus versos mais conhecidos estão:

“Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza.”

Bonito, sem dúvida.

Mas verdadeiro?

Quando Duque-Estrada escreveu esses versos, em 1909, provavelmente imaginava um Brasil que transformaria sua imensa grandeza natural em desenvolvimento, prosperidade, soberania e justiça social.

Já se passaram 117 anos.

E o futuro?

Chegou?

O Brasil continua sendo gigante pela própria natureza.

Possui petróleo, gás natural, água, minérios, terras férteis e raras, florestas, urânio, sol, ventos e uma posição territorial privilegiada.

Possui também universidades, engenheiros, economistas, técnicos, pesquisadores e trabalhadores capazes de construir uma grande nação.

O problema do Brasil nunca foi a falta de riquezas.

O problema sempre foi a incapacidade — ou a falta de vontade política — de potencializá-las em benefício do povo brasileiro.

A potencialização de nossas riquezas

Entre os grandes estadistas brasileiros, destaco Getúlio Vargas.

Isso não significa esquecer ou justificar a ditadura do Estado Novo. A democracia deve sempre ser defendida.

Mas também não devemos apagar da história o governante que compreendeu que um país somente seria verdadeiramente independente se controlasse sua energia, suas matérias-primas e seu processo de industrialização.

Pouco antes de sua morte, em 24 de agosto de 1954, Getúlio deixou em sua Carta-Testamento uma frase que, até hoje, me inquieta:

“Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras.”

A Carta também dizia que a Eletrobras havia sido obstaculizada e relacionava a independência do povo ao controle das riquezas nacionais.

Essa Carta deveria ser lida e debatida em todas as escolas brasileiras.

Não para transformar Getúlio em santo.

Não para esconder seus erros.

Mas para discutir uma pergunta fundamental:

O que significa potencializar as riquezas de uma nação?

Potencializar não é simplesmente extrair petróleo e exportá-lo cru.

Não é retirar minério do solo e embarcá-lo para o exterior.

Não é produzir soja, café ou celulose sem desenvolver toda a cadeia industrial correspondente.

Potencializar significa transformar o petróleo em diesel, gasolina, querosene, fertilizantes, produtos petroquímicos, conhecimento e tecnologia.

Significa transformar minério em aço, máquinas, equipamentos, veículos e infraestrutura.

Significa transformar energia em indústria, emprego, produtividade e qualidade de vida.

Significa fazer com que a riqueza natural produza riqueza econômica e social para o próprio país.

Energia limpa, mas cara

O Brasil já possui uma das matrizes energéticas mais renováveis entre as grandes economias.

Em 2025, as fontes renováveis representaram 49,5% da matriz energética total e 86,8% da matriz elétrica brasileira.

Portanto, o Brasil já realiza um esforço ambiental muito superior ao da maioria das grandes nações industriais.

Mas existe uma contradição:

Temos uma energia relativamente limpa, mas uma conta de energia cara.

A própria Aneel explica que a tarifa final não paga apenas a energia gerada. Nela são incluídos custos de transmissão, distribuição, encargos setoriais e tributos. Em 2025, somente o orçamento da Conta de Desenvolvimento Energético, que financia diversos subsídios, chegou a R$ 49,2 bilhões.

Ou seja:

Produzimos energia com água, vento, sol e biomassa.

Mas incorporamos à conta tantas despesas, encargos, subsídios e impostos que a vantagem natural não chega plenamente à indústria e ao consumidor.

Não basta possuir energia limpa.

É necessário possuir energia abundante, constante, segura e, principalmente, barata.

Devemos buscar uma energia tão limpa quanto for técnica e economicamente possível.

Mas não podemos transformar a política ambiental em instrumento de encarecimento da produção nacional.

Sem energia barata, a indústria brasileira não consegue competir.

Sem indústria competitiva, não há emprego qualificado.

Sem emprego, produtividade e tecnologia, o futuro nunca chega.

A mãe de todas as mentiras

Talvez o exemplo mais grave de como as riquezas brasileiras são administradas seja a Petrobras.

Durante anos, foi repetido que a empresa estava quebrada.

A corrupção existiu e precisava ser investigada e punida.

A dívida era elevada e precisava ser administrada.

Houve erros de gestão, atrasos, sobrepreços e decisões equivocadas.

Mas nada disso permite concluir automaticamente que a Petrobras estivesse falida ou insolvente.

Os próprios balanços mostram outra realidade.

No final de 2015, a Petrobras possuía aproximadamente:

  • US$ 25 bilhões em caixa;
  • geração operacional anual de caixa próxima de US$ 26 bilhões;
  • ativos circulantes equivalentes a cerca de uma vez e meia os passivos circulantes;
  • patrimônio líquido positivo superior a US$ 60 bilhões.

Além disso, naquele mesmo ano, conseguiu emitir títulos de US$ 2,5 bilhões com vencimento em 2115 — cem anos depois. O custo do dinheiro era elevado, mas o mercado internacional continuava disposto a financiá-la.

Pergunto:

Onde estava a empresa quebrada?

Ela estava endividada.

Enfrentava uma crise de governança.

Sofria os efeitos da queda do preço do petróleo e da desvalorização cambial.

Mas continuava líquida, solvente, operacionalmente forte, dona de reservas gigantescas e capaz de captar bilhões de dólares.

A Petrobras não estava quebrada.

Foi apresentada como quebrada.

E essa diferença muda tudo.

A afirmação de que estava quebrada não foi apenas uma interpretação contábil equivocada.

Transformou-se em uma narrativa política extremamente útil.

Se a empresa estava quebrada, seria necessário “salvá-la”.

E, para salvá-la, seria preciso:

reduzir investimentos;

paralisar projetos;

vender campos;

vender gasodutos;

vender refinarias;

vender distribuidoras;

vender fábricas de fertilizantes;

vender participações petroquímicas;

e concentrar a empresa na extração e exportação de petróleo cru.

A mentira criou a emergência.

A emergência justificou as vendas.

E as vendas transferiram aos compradores privados patrimônio e rendas futuras construídas durante décadas pelo povo brasileiro.

O plano de venda começou no governo Dilma

É necessário dizer isso com toda a clareza.

O grande programa de venda de ativos não começou somente nos governos considerados de direita.

Em junho de 2015, durante o governo Dilma Rousseff e sob a presidência de Aldemir Bendine, o Conselho de Administração da Petrobras aprovou o Plano de Negócios e Gestão 2015–2019.

O documento previa:

  • US$ 15,1 bilhões em desinvestimentos em 2015 e 2016;
  • mais US$ 42,6 bilhões em desmobilizações, reestruturações e desinvestimentos em 2017 e 2018.

Somados, seriam US$ 57,7 bilhões.

O mesmo plano reduziu os investimentos em 37% e priorizou a exploração e produção de petróleo, especialmente no pré-sal, enquanto as demais áreas receberiam principalmente recursos de manutenção.

Portanto, a arquitetura do desmonte começou ainda em um governo do Partido dos Trabalhadores.

Os governos seguintes ampliaram, aceleraram e executaram grande parte das vendas.

Assim, a responsabilidade atravessa partidos e governos.

Houve ação, apoio ou omissão de partidos de esquerda, de centro e de direita.

Mudaram os discursos.

Mudaram as bandeiras.

Mudaram os presidentes.

Mas a transferência do patrimônio continuou.

Quando se trata de defender o patrimônio brasileiro, deveriam disputar quem faz mais pelo país.

Mas, muitas vezes, parecem todos farinha do mesmo saco.

As refinarias Premium

As refinarias Premium I, no Maranhão, e Premium II, no Ceará, são outro exemplo que merece esclarecimento público.

Depois de anos de estudos, projetos, terrenos e despesas, a Petrobras reconheceu uma perda de aproximadamente R$ 2,8 bilhões com o encerramento dos projetos.

Como se gasta R$ 2,8 bilhões para somente depois concluir que os empreendimentos eram inviáveis?

Em que momento os estudos mostraram os problemas?

Quem decidiu continuar gastando?

Quem aprovou?

Quem fiscalizou?

Quem foi responsabilizado?

E, sobretudo:

Por que um país que aumentava rapidamente sua produção de petróleo desistiu de ampliar sua capacidade de refino?

A consequência foi manter uma estrutura na qual o Brasil exporta petróleo cru e importa produtos refinados de maior valor agregado.

O petróleo sai.

Os empregos industriais ficam no exterior.

A tecnologia fica no exterior.

O lucro do refino fica no exterior.

E o combustível retorna ao Brasil mais caro e influenciado pelo dólar.

A venda da NTS

A venda da Nova Transportadora do Sudeste revela ainda mais claramente a lógica do processo.

Em setembro de 2016, 90% da NTS foram vendidos por aproximadamente US$ 5,2 bilhões a um consórcio liderado pela Brookfield, com participação de investidores institucionais, entre eles a CIC Capital, ligada ao fundo soberano chinês, e o GIC, de Singapura.

A própria Brookfield apresentou o negócio aos investidores como uma oportunidade excepcional:

  • receitas estáveis;
  • correção pela inflação;
  • contratos de longo prazo;
  • 100% da capacidade contratada;
  • ausência relevante de risco de volume;
  • contratos do tipo ship-or-pay.

Ou seja, o comprador adquiriu uma infraestrutura pronta, situada na região mais industrializada do Brasil e com receitas futuras praticamente garantidas.

A Petrobras vendeu os gasodutos e continuou dependente deles para transportar seu próprio gás.

Recebeu dinheiro imediatamente, mas passou a pagar pelo uso de uma estrutura que antes lhe pertencia.

O estudo da AEPET intitulado “Nova Transportadora do Sudeste: Privatização Lesiva e Reestatização” questionou justamente essa lógica e defendeu uma auditoria completa da operação.

Não se vendeu apenas uma tubulação.

Vendeu-se um monopólio natural.

Vendeu-se uma fonte de renda futura.

Vendeu-se uma infraestrutura estratégica.

E, junto com ela, entregou-se a própria Petrobras como cliente de longo prazo.

Dinheiro não tem ideologia

Na aquisição da NTS, participaram capitais privados canadenses, capital estatal chinês, capital estatal de Singapura e capital financeiro brasileiro.

Todos se uniram em torno de um negócio rentável.

Por isso, costuma-se dizer que dinheiro não tem pátria nem ideologia.

Eu faria apenas uma correção:

O capital privado pode não ter pátria. Mas os fundos soberanos têm pátria e defendem os interesses de seus países.

A China defende os interesses chineses.

Singapura defende os interesses de Singapura.

Os fundos canadenses defendem seus investidores.

Os bancos defendem seus negócios.

Os acionistas defendem seus dividendos.

A pergunta é:

Quem estava defendendo o Brasil?

Não podemos culpar o comprador por encontrar um negócio extremamente vantajoso.

A obrigação do comprador é defender seu capital.

A responsabilidade principal é de quem decidiu vender, avaliou, autorizou, estruturou e justificou a operação em nome do Brasil.

Quando a mentira vira verdade

A imprensa brasileira repetiu durante anos que a Petrobras estava quebrada.

A dívida recebia destaque.

O caixa, não.

O prejuízo contábil recebia destaque.

A geração operacional de caixa, não.

A corrupção recebia destaque.

O patrimônio, as reservas e a produção crescente, não.

As vendas eram apresentadas como prova de que a empresa estava quebrada.

E o fato de vender ativos passou a confirmar a própria narrativa que justificava as vendas:

A Petrobras vendeu porque estava quebrada.
E sabemos que estava quebrada porque precisou vender.

É um raciocínio circular.

A venda de um ativo não prova a necessidade da venda.

Prova somente que alguém decidiu vender.

A imprensa não precisava inventar diariamente uma informação falsa.

Bastava apresentar os fatos de forma fragmentada.

Noticiava-se a dívida.

Noticiava-se o prejuízo.

Noticiava-se a corrupção.

Noticiavam-se os desinvestimentos.

Mas raramente se mostrava tudo junto:

  • caixa;
  • liquidez;
  • fluxo operacional;
  • patrimônio;
  • reservas;
  • capacidade de captação;
  • valor estratégico dos ativos;
  • renda futura transferida aos compradores.

Quando uma narrativa é repetida diariamente e sua contestação aparece ocasionalmente, a narrativa transforma-se em senso comum.

A mentira não se torna verdadeira.

Mas passa a ser tratada como verdade.

E, depois de aceita, ninguém mais pergunta quem ganhou com ela.

Controle externo e colaboração interna

Para mim, o Brasil sofre um forte condicionamento externo.

Isso não significa necessariamente que exista uma única sala no exterior de onde alguém comande todos os acontecimentos.

O processo é mais complexo.

Os grandes grupos internacionais defendem naturalmente seus interesses.

Querem petróleo, minérios, energia, terras, infraestrutura, mercados consumidores e alta rentabilidade.

O que precisa ser explicado é por que tantos setores internos facilitam esse processo.

Bancos estruturam negócios.

Consultorias avaliam ativos.

Governos autorizam.

Diretorias executam.

Partidos apoiam ou se omitem.

A imprensa fornece a justificativa pública.

E os compradores ficam com a renda futura.

O controle pode não ser formalmente estrangeiro.

Mas o resultado frequentemente atende mais aos interesses dos centros financeiros e dos compradores do que às necessidades do desenvolvimento brasileiro.

Com o apoio, a ação ou a omissão, em diferentes momentos, de partidos de esquerda, de centro e de direita.

Todos defendem seus interesses.

Menos o Brasil.

“E o teu futuro espelha essa grandeza”

Voltamos então ao Hino Nacional:

“E o teu futuro espelha essa grandeza.”

Que futuro?

O futuro dos compradores de nossos ativos?

O futuro dos fundos estrangeiros?

O futuro dos grandes acionistas?

O futuro dos intermediários financeiros?

Ou o futuro do povo brasileiro, que construiu tudo isso e continua pagando a conta?

O povo paga na conta de luz.

Paga no combustível.

Paga no frete.

Paga nos alimentos.

Paga na perda de empregos industriais.

Paga na desindustrialização.

Paga na falta de crescimento.

Paga no futuro que nunca chega.

O Brasil possui a grandeza.

Mas não controla plenamente os frutos dessa grandeza.

A riqueza está aqui.

O petróleo está aqui.

A energia está aqui.

Os minérios estão aqui.

A capacidade técnica está aqui.

O que falta é uma decisão nacional de transformar tudo isso em desenvolvimento.

O futuro não chegará automaticamente porque o território é grande e a natureza foi generosa.

O futuro precisa ser construído.

E somente será construído quando o Brasil:

controlar suas riquezas estratégicas;

produzir energia abundante, constante, segura e barata;

industrializar suas matérias-primas;

esclarecer a verdade ao seu povo;

identificar quem decidiu, quem vendeu, quem comprou e quem se beneficiou;

e exigir responsabilidade de governos, partidos, administradores, bancos e empresas.

Sem verdade não existe memória.

Sem memória não existe responsabilidade.

Sem responsabilidade não existe soberania.

Sem soberania não existe desenvolvimento.

E, sem desenvolvimento, o verso continuará sendo apenas uma bela promessa:

“E o teu futuro espelha essa grandeza.”

Que futuro?

Até quando?

Fala sério!

Críticas, Sugestões, Opiniões: soberanobrasiles@gmail.com

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