FALA SÉRIO 155, O Capital e a Ascensão da Energia.

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Uma análise histórico econômica: de Ricardo e Marx a Wall Street e ao século XXI  

Escrito por Cláudio da Costa Oliveira maio 2026

A história da economia moderna pode ser entendida como a história da mudança do fator dominante de produção e poder. Durante os séculos XVIII, XIX e XX, o capital ocupou posição central na organização econômica. Hoje, porém, surgem sinais de uma transição estrutural: a energia passa gradualmente a assumir o papel estratégico que antes pertencia ao capital financeiro.

1. Ricardo e o nascimento da economia do capital

O economista clássico David Ricardo formulou uma das primeiras grandes interpretações do capitalismo industrial.

Para Ricardo:

  • riqueza vinha da produção;
  • produção dependia de:
    • terra,
    • trabalho,
    • capital;
  • o lucro era a remuneração do capitalista.

No início da Revolução Industrial, o capital tinha enorme importância porque:

  • máquinas eram escassas;
  • infraestrutura era limitada;
  • fábricas exigiam investimento pesado;
  • poucos tinham acesso ao financiamento.

Quem possuía capital controlava a expansão produtiva.

Nesse contexto, o capital era efetivamente raro — e, portanto, altamente remunerado.

2. Marx: o capital como relação de poder

Karl Marx radicalizou essa análise.

Para Marx, o capital não era apenas dinheiro ou máquinas. Era uma relação social baseada na apropriação do excedente produzido pelo trabalho.

O lucro surgia da:

  • extração de mais-valia;
  • concentração dos meios de produção;
  • expansão contínua da acumulação.

Mas Marx identificou algo ainda mais importante: o capitalismo possui tendência estrutural à queda da taxa de lucro.

Em termos simples:

  • conforme o sistema amadurece,
  • aumenta a quantidade de capital investido,
  • cresce a automação,
  • cresce a concorrência,
  • e torna-se mais difícil manter margens elevadas.

Ou seja:
o próprio sucesso do capitalismo reduz progressivamente a rentabilidade do capital.

3. O século XX e a vitória do capital financeiro

Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA consolidaram um novo modelo:

  • dólar como moeda global;
  • expansão do crédito;
  • mercados financeiros profundos;
  • Wall Street como centro mundial de alocação de capital.

Durante décadas, o capital financeiro dominou:

  • indústria,
  • comércio,
  • tecnologia,
  • dívida soberana,
  • política monetária global.

A partir dos anos 1980, com desregulamentação financeira e globalização, iniciou-se a era da financeirização:

  • lucros crescentes no setor financeiro;
  • valorização artificial de ativos;
  • expansão de derivativos;
  • endividamento estrutural;
  • crescimento baseado em liquidez.

O capital deixou parcialmente de financiar produção para financiar valorização patrimonial.

4. O problema contemporâneo: excesso de capital

O século XXI revela uma contradição importante.

Hoje existe:

  • abundância de liquidez;
  • excesso global de poupança;
  • juros estruturalmente baixos;
  • dificuldade de encontrar retornos elevados.

O capital tornou-se abundante demais.

Isso reduz sua capacidade de remuneração.

Em muitos setores:

  • produtividade marginal cai;
  • competição global comprime margens;
  • automação reduz diferencial competitivo;
  • inovação é rapidamente copiada.

O resultado é uma crise silenciosa da rentabilidade.

A financeirização prolongou artificialmente a valorização do capital, mas ao custo de:

  • bolhas;
  • desigualdade;
  • fragilidade sistêmica;
  • dependência crescente de bancos centrais.

5. A emergência da energia como fator dominante

Enquanto o capital se torna abundante, a energia torna-se o recurso escasso estratégico.

Toda economia física depende de energia.

Sem energia não existem:

  • fábricas;
  • transporte;
  • computação;
  • internet;
  • IA;
  • agricultura moderna;
  • cadeias logísticas;
  • defesa militar.

A grande transformação do século XXI é que sistemas digitais aparentemente “imateriais” possuem demanda energética gigantesca.

IA, data centers e semicondutores dependem de:

  • eletricidade estável;
  • redes robustas;
  • minerais críticos;
  • capacidade de geração em escala.

O limite econômico deixa de ser apenas financeiro e passa a ser energético.

6. Da lógica financeira à lógica termodinâmica

O capitalismo financeiro operava principalmente sobre:

  • crédito;
  • expansão monetária;
  • alavancagem;
  • ativos.

Mas a economia real continua submetida às leis físicas.

Nenhum crescimento infinito supera:

  • limites energéticos;
  • eficiência termodinâmica;
  • disponibilidade material;
  • capacidade de infraestrutura.

Isso muda profundamente o eixo do poder global.

O centro da disputa internacional migra para:

  • petróleo;
  • gás;
  • urânio;
  • lítio;
  • cobre;
  • terras raras;
  • redes elétricas;
  • capacidade de geração.

7. Wall Street ainda importa — mas menos

Wall Street continua poderosa.

Mas há um deslocamento gradual:

Século XXSéculo XXI
Capital financeiroEnergia e infraestrutura
BancosRedes elétricas
CréditoCapacidade energética
FinanceirizaçãoSegurança energética
LiquidezProdução física

Hoje, as empresas mais estratégicas do mundo não dependem apenas de capital.

Dependem principalmente de:

  • energia barata;
  • escala elétrica;
  • acesso a matérias-primas;
  • infraestrutura física.

O poder econômico retorna parcialmente ao mundo material.

8. A nova geopolítica

A disputa contemporânea entre EUA e China revela isso claramente.

O conflito central não é apenas monetário.

É industrial e energético.

Quem dominar:

  • geração elétrica,
  • semicondutores,
  • baterias,
  • IA,
  • minerais críticos,
  • infraestrutura energética,

dominará a próxima etapa da economia mundial.

9. Conclusão

Ricardo explicou o nascimento do capitalismo industrial.

Marx explicou suas contradições internas.

Wall Street representou o auge da supremacia do capital financeiro.

Mas o século XXI talvez esteja inaugurando outra lógica histórica:

o deslocamento do eixo econômico do capital para a energia.

O dinheiro continua importante.
O capital continua necessário.

Mas a riqueza real volta a depender crescentemente da capacidade física de produzir, transformar e sustentar energia em larga escala.

A economia retorna, lentamente, da abstração financeira para os limites concretos do mundo material. 

Críticas, sugestões, comentários: soberanobrasiles@gmail.com

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