FALA SÉRIO 130 Deng Xiaoping e o Socialismo de Mercado

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Escrito por Cláudio da Costa Oliveira março de 2026

Deng Xiaoping e Jimmy Carter

Em 1978 ocorreu uma das mudanças mais importantes da história econômica mundial.

Quase ninguém percebeu naquele momento.

Naquele ano, Deng Xiaoping, líder da China após a morte de Mao Tsé-Tung, decidiu mudar radicalmente o modelo econômico do país.

A China abandonaria o socialismo econômico clássico.

Mas não adotaria o capitalismo ocidental.

Criaria algo novo.

Algo que depois ficou conhecido como socialismo de mercado.

O princípio era simples.

O Estado continuaria no comando estratégico da economia, mas permitiria a existência de empresas privadas, investimento estrangeiro, competição e lucro.

Ou seja:

planejamento estatal + mercado.

Durante décadas, o mundo foi ensinado a acreditar que havia apenas dois modelos possíveis:

capitalismo ou socialismo.

Deng mostrou que isso não era verdade.

A China passou a utilizar o mercado como instrumento, mas o Estado como direção estratégica.

Foi uma mudança gigantesca.

Até então a economia chinesa era pobre, agrícola e ineficiente.

O país produzia pouco, exportava quase nada e tinha renda muito baixa.

Em poucas décadas tudo mudou.

A China tornou-se:

  • a maior potência industrial do planeta
  • o maior exportador do mundo
  • o maior consumidor de energia e matérias-primas
  • a segunda maior economia global.

Mais impressionante ainda:

cerca de 800 milhões de pessoas saíram da pobreza.

É provavelmente a maior transformação econômica da história humana.

Mas há um detalhe importante.

A China nunca adotou o modelo econômico defendido pelo chamado Consenso de Washington.

Ela não privatizou tudo.

Não abriu totalmente seu sistema financeiro.

Não entregou o controle da energia, das minas, dos bancos ou da infraestrutura.

Pelo contrário.

Os setores estratégicos permaneceram sob forte controle estatal.

O mercado foi utilizado para gerar eficiência e crescimento, mas o Estado manteve o comando da direção nacional.

Deng Xiaoping costumava dizer uma frase famosa:

“Não importa se o gato é preto ou branco.
O importante é que ele cace ratos.”

Era o pragmatismo chinês.

Ideologia não enche a barriga de ninguém.

Crescimento econômico sim.

Enquanto muitos países ficaram presos a debates ideológicos estéreis, a China fez algo diferente.

Testou.

Experimentou.

Criou zonas econômicas especiais.

Atraiu tecnologia estrangeira.

Formou gigantes industriais.

Investiu pesadamente em educação, infraestrutura e energia.

O resultado está diante de todos.

Em apenas quarenta anos a China passou de país pobre para uma superpotência econômica.

Isso mudou o equilíbrio de poder do mundo.

Hoje existe algo que não existia no final do século XX:

uma potência capaz de rivalizar economicamente com os Estados Unidos.

Tudo começou com uma decisão tomada em 1978.

A decisão de usar o mercado sem abrir mão do controle nacional da economia.

Talvez essa seja uma das grandes lições do nosso tempo.

Os países que prosperam são aqueles que conseguem combinar Estado forte, estratégia nacional e dinamismo econômico.

Os que abrem mão de sua direção estratégica acabam se transformando apenas em fornecedores de matérias-primas.

A China entendeu isso.

A pergunta é:

quantos outros países entenderam?

         China e Brasil: dois caminhos opostos

A experiência chinesa também permite uma comparação interessante com o Brasil.

Em 1978, quando Deng Xiaoping iniciou suas reformas, a renda per capita da China era muito inferior à brasileira.

Naquele período, o Brasil já era um país industrializado, com siderurgia, indústria automobilística, grandes empresas estatais e infraestrutura relativamente avançada.

A China, ao contrário, era um país rural, pobre e atrasado.

O Brasil parecia estar muito à frente.

Mas nas décadas seguintes os caminhos foram diferentes.

A China adotou uma estratégia clara:

  • forte planejamento estatal
  • controle nacional dos setores estratégicos
  • investimento maciço em infraestrutura
  • estímulo à indústria e exportações
  • uso do mercado como instrumento de crescimento.

O resultado foi extraordinário.

A China se transformou na maior potência industrial do planeta.

Hoje produz:

  • mais aço que o resto do mundo somado
  • a maior parte dos painéis solares
  • grande parte dos equipamentos eletrônicos
  • grande parte dos navios e máquinas industriais.

O Brasil seguiu outro caminho.

A partir dos anos 1990 adotou uma estratégia baseada em:

  • abertura comercial rápida
  • privatizações extensas
  • desindustrialização progressiva
  • especialização em commodities.

Hoje o Brasil é um grande exportador de:

  • minério de ferro
  • soja
  • carne
  • petróleo bruto.

Enquanto isso, importa cada vez mais produtos industriais.

Em outras palavras:

a China industrializou-se.

O Brasil reprimarizou-se.

Em 1978 a economia brasileira era maior que a chinesa.

Hoje a economia chinesa é mais de dez vezes maior que a brasileira.

A China tornou-se uma superpotência.

O Brasil continua sendo um país com enorme potencial, mas ainda sem uma estratégia nacional clara de desenvolvimento.

A lição talvez seja simples.

O mercado é importante.

Mas nenhum país se transforma em potência apenas confiando no mercado.

É preciso estratégia, planejamento e visão de longo prazo.

Foi isso que Deng Xiaoping entendeu em 1978.

Comentários, críticas, sugestões: soberanobrasiles@gmail.com

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