Uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo estava no fundo do Mar Mediterrâneo há mais de 16 séculos. Em julho de 2025, arqueólogos retiraram do porto oriental de Alexandria, no Egito, 22 blocos monumentais do Farol de Alexandria, com peso individual de até 80 toneladas. As peças não são decorativas: são partes reais da entrada do farol, preservadas pela mesma água que as engoliu.

O que foi o Farol de Alexandria e por que ele sumiu?
O farol foi construído entre 300 e 280 a.C. na ilha de Faros, durante o reinado de Ptolomeu I, com altura estimada entre 120 e 137 metros. Era, depois das pirâmides de Gizé, a estrutura mais alta erguida por mãos humanas. Servia como ponto de referência para os navios que chegavam a um dos portos mais movimentados do mundo antigo.
A estrutura resistiu por mais de mil anos, mas uma série de terremotos entre os séculos IX e XIV destruiu o farol progressivamente. O abalo de 1303, originado na ilha de Creta, foi o mais devastador. Os blocos mais pesados rolaram para o mar. Em 1480, o sultão Qaitbay usou as pedras restantes para construir um forte militar no mesmo local onde o farol havia ficado.

O que exatamente foi retirado do fundo do mar?
Os 22 blocos resgatados fazem parte da entrada monumental do farol. Entre as peças identificadas estão dintéis e jambas, as pedras que formam o topo e as laterais de uma porta, umbrais estruturais e lajes de pavimento. Cada peça é feita de granito maciço ou pedra calcária, materiais escolhidos pela resistência à salinidade e ao peso da estrutura.
O achado mais relevante foi um fragmento de pílone com porta de estilo egípcio do período helenístico, um tipo de monumento completamente desconhecido pelos pesquisadores até então. Nenhum registro histórico havia preservado esse detalhe.
Como 22 blocos de 80 toneladas foram retirados do fundo do mar?
A operação usou plataformas flutuantes estabilizadas e guindastes de alta capacidade que içaram os blocos em velocidade reduzida. Os cabos de içamento eram cintas flexíveis que distribuem o peso de forma simétrica para não fraturar as pedras. Depois de retirados, os blocos foram abrigados em tendas escuras para evitar que a exposição repentina ao ar e ao sol desintegrasse o material após séculos submerso.
A operação foi liderada pela arqueóloga Isabelle Hairy, do CNRS, instituto nacional de pesquisa científica da França, e seguiu os padrões de preservação do ICOMOS, organização internacional para a proteção do patrimônio cultural.

O que o Projeto PHAROS vai fazer com os blocos?
Os blocos não ficam em museus. Depois de escaneados em terra com fotogrametria de alta resolução, que cria modelos digitais precisos, são devolvidos ao fundo do mar para serem preservados no local original. Os modelos 3D se juntam a um acervo de mais de 100 fragmentos já digitalizados ao longo da última década.
O objetivo é montar uma réplica digital navegável do farol, que qualquer pessoa poderá percorrer em realidade virtual bloco a bloco, do chão até o topo. O projeto é financiado pela Fondation Dassault Systèmes e reúne historiadores, arqueólogos, arquitetos e numismatas de vários países.
O farol vai ser reconstruído fisicamente?
Não. A reconstrução física é impossível: os blocos voltam ao fundo do mar após o escaneamento, e a estrutura original está fragmentada em centenas de peças dispersas pelo leito do porto. O que o Projeto PHAROS entrega ao mundo é diferente: uma réplica digital navegável, construída bloco a bloco com precisão milimétrica.
Para uma maravilha que existiu por mais de mil anos e desapareceu há seis séculos, isso é a forma mais próxima de ressurreição que a arqueologia pode oferecer.
Fonte https://oantagonista.com.br/