O veículo chinês, que já transportou 27 cientistas, pertence a uma categoria extremamente restrita de veículos projetados para operar em 100% das profundidades oceânicas já conhecidas

O submersível tripulado chinês Fendouzhe, apelidado de “Striver” em inglês, é um dos veículos de exploração oceânica mais avançados do mundo, e fez história ao mergulhar pela vigésima terceira vez a mais de 10.900 metros no ponto mais profundo conhecido do oceano.
O feito colocou a China entre os países com maior capacidade técnica de exploração das zonas hadal, como são chamados os níveis mais profundos do oceano, a partir de seis mil metros. Lá, a pressão é extrema, a falta de luz solar causa uma escuridão total e as temperaturas são próximas do congelamento.
O Fendouzhe, que tem capacidade de mergulhar até 11 mil metros de profundidade — o que inclui o ponto mais profundo conhecido até hoje, o Challenger Deep, no fundo da Fossa das Marianas —, foi desenvolvido com o apoio do Programa Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento da China para ser entregue ao Institute of Deep-sea Science and Engineering (CAS), em março de 2021.
Com um casco de tripulação projetado para até três passageiros a cada descida e sistemas embarcados avançados para a coleta de amostras e a realização de medições em ambientes de alta pressão, o Fendouzhe alcançou um marco histórico ao transportar, ao todo, 27 cientistas às zonas ultraprofundas do oceano, o maior número já registrado em mergulhos dessa profundidade.

O submersível chinês Fendouzhe a bordo de seu navio-mãe, Tan Suo Yi Hao.
Créditos: Wikipedia
Seu último mergulho profundo anunciado, após uma expedição que durou 53 dias, em 2021, foi justamente aquele que o levou ao ponto mais profundo da Terra: o Challenger Deep, fossa no Oceano Pacífico com pressões esmagadoras, que equivalem a até mil atmosferas, ou seja, cerca de oito toneladas por polegada quadrada — o suficiente para dissolver conchas feitas de carbonato de cálcio, a matéria-prima do cimento.
Esse mergulho integrou a segunda fase dos testes no mar iniciados em 2021, após sua entrega. Ele partiu do porto a bordo do navio científico Tansuo-1 e completou o total de 23 descidas, que colocaram o submersível na vanguarda mundial.
O elemento estrutural central do Fendouzhe é seu casco de pressão esférico, projetado para distribuir a pressão hidrostática, com diâmetro aproximado de dois metros e espessura superior a 110 milímetros, capaz de resistir às maiores pressões conhecidas, acima de 110 megapascais. Ele é feito de titânio de altíssima resistência, desenvolvido pela Academia Chinesa de Ciências especificamente para uso hadal, com baixa densidade relativa.
Além dos mergulhos profundos, que ultrapassaram 10 mil metros de profundidade, operações mais “leves” do submersível já ultrapassam o marco de 329 descidas, realizadas para coletar amostras de água, sedimentos, rochas e micro-organismos capazes de oferecer uma visão detalhada da morfologia geológica do oceano e das adaptações da vida marinha em ambientes extremos.
Uma dessas iniciativas científicas é o Mariana Trench Environment and Ecology Research Project (MEER), que integra cientistas chineses e internacionais para estudar questões como a origem da vida e os impactos das mudanças climáticas em ambientes abissais, incluindo a análise de milhares de genomas microbianos identificados no Challenger Deep, muitos deles ainda nunca descritos pela ciência.
O Fendouzhe pertence a uma categoria extremamente restrita de veículos conhecidos como full-ocean-depth manned submersibles, projetados para operar em 100% das profundidades oceânicas já conhecidas e executar vários ciclos de descida e subida sem acumular deformações causadas pela exposição contínua à pressão direta.
Para isso, ele utiliza compartimentos preenchidos com óleo dielétrico incompressível, um isolante elétrico fluido empregado em equipamentos de alta tensão e em processos de usinagem. Esse fluido garante estabilidade na transferência de calor e no suporte de forças mecânicas e elétricas nos sistemas, evitando episódios de curto-circuito e falhas térmicas.
O submersível opera, ainda, com baterias de lítio de alta densidade energética encapsuladas em módulos de pressão, com autonomia de até 10 horas no fundo do oceano.
Fonte https://revistaforum.com.br