Cláudio da Costa Oliveira novembro 2026
O Brasil possui uma grande riqueza petrolífera. Mas quanto dessa vantagem chega à população na forma de combustível acessível, produção competitiva, emprego e renda?
Para complementar o Fala Sério 224, vamos examinar uma questão concreta: o preço do diesel e como ele poderia ser diferente se a riqueza petrolífera fosse utilizada como instrumento de desenvolvimento nacional.
Bilhões gastos, refinarias abandonadas
Durante o governo Dilma Rousseff, a Petrobras encerrou, em janeiro de 2015, os projetos das refinarias Premium I, no Maranhão, e Premium II, no Ceará. Em audiência na Câmara dos Deputados, a companhia informou perdas de aproximadamente R$ 2,7 bilhões, principalmente com projetos e serviços preparatórios, incluindo terraplenagem. Entre as justificativas estavam as condições de mercado, as dificuldades de financiamento e a ausência de parceiros. [1]
Quase R$ 3 bilhões comprometidos, sem que as refinarias entrassem em operação.
O caso foi objeto de fiscalização do Tribunal de Contas da União. A sociedade merece conhecer as conclusões das apurações e suas consequências. [2]
O dinheiro já gasto, isoladamente, não justificaria continuar os projetos. Mas uma avaliação completa precisaria comparar os investimentos restantes com os resultados futuros, incluindo abastecimento, segurança energética e benefícios para a economia brasileira.
Para onde vai o dinheiro do diesel?
O quadro da Petrobras referente à semana de 18 a 24 de outubro de 2026 apresenta esta composição média do diesel S-10 vendido ao consumidor, com 15% de biodiesel: [3]
| Componente | Valor por litro | Participação |
| Parcela Petrobras | R$ 2,83 | 38,7% |
| Distribuição e revenda | R$ 2,18 | 29,8% |
| Imposto estadual | R$ 1,17 | 16,0% |
| Biodiesel | R$ 0,82 | 11,2% |
| Impostos federais | R$ 0,32 | 4,4% |
| Preço ao consumidor | R$ 7,32 | 100% |
Fonte: Petrobras, com dados da ANP. Os percentuais individuais somam 100,1% por arredondamento.
Como a parcela mineral representa 85% do combustível, os R$ 2,83 equivalem a aproximadamente R$ 3,33 por litro de diesel mineral.
Já os R$ 0,82 correspondentes aos 15% de biodiesel equivalem a R$ 5,47 por litro de biodiesel.
Nessa composição, o biodiesel aparece aproximadamente 64% mais caro que o diesel mineral.
Conhecer custos para discutir preços
A Petrobras informa que seu custo médio de extração no Brasil, incluindo arrendamentos e excluindo participações governamentais, foi de US$ 9,1 por barril de óleo equivalente em 2025. [4]
É um indicador importante da vantagem produtiva brasileira. Entretanto, não representa o custo completo de um litro de diesel. É preciso considerar também refino, depreciação, participações governamentais, logística e demais despesas, com critérios claros de distribuição dos custos entre os produtos.
Na minha experiência profissional na Petrobras, observei uma orientação muito mais voltada ao aumento da produção do que ao conhecimento e à redução dos custos por produto. Produzir mais é importante. Conhecer quanto custa produzir também precisa ser prioridade.
Os indicadores públicos agregados não permitem identificar diretamente o custo integrado do diesel nacional. Por isso, precisamos construir aproximações, apresentando suas premissas e limitações.
Defendo a aplicação do Preço de Custo Remunerado — PCR: um preço que cubra os custos, proporcione remuneração adequada e sustente os investimentos, transferindo parte da vantagem petrolífera brasileira para a economia nacional.
Biodiesel: benefícios precisam justificar os custos
O governo apresenta como objetivos da mistura a redução de emissões, a menor dependência de importações e o fortalecimento da produção nacional. [5]
Esses objetivos precisam ser acompanhados de uma comparação transparente entre custos, benefícios e alternativas.
O Brasil já possui elevada participação renovável em sua matriz energética. Essa vantagem deve contribuir para nosso desenvolvimento, com energia acessível, expansão industrial e melhores condições de vida. [6]
Devemos cumprir nossas responsabilidades ambientais e cobrar esforço proporcional dos grandes emissores e dos países com maior responsabilidade histórica.
Na composição examinada, substituir os 15% de biodiesel por diesel mineral ao preço indicado reduziria o custo dos componentes em aproximadamente R$ 0,32 por litro, mantendo as demais parcelas constantes. Não se trata de retirar R$ 0,82: seria necessário pagar pelo combustível substituto.
A retirada da mistura obrigatória, ou a oferta de opções ao consumidor, exigiria mudança das regras e avaliação técnica, ambiental e de abastecimento. É uma proposta legítima para discussão pública.
Uma simulação: diesel a R$ 3,49 na bomba
Vamos considerar as seguintes hipóteses:
| Componente | Premissa |
| Diesel nacional | PCR de R$ 2,00 por litro |
| Biodiesel | Sem adição |
| Importações | 20% do abastecimento |
| Diesel importado | R$ 4,00 por litro entregue ao distribuidor, antes dos tributos sobre a venda final |
| Tributos | Redução pela metade: de R$ 1,49 para R$ 0,745 por litro |
| Distribuição e revenda | Juntas, 10% do preço final |
O PCR de R$ 2,00 é uma hipótese proposta para este exercício, não um custo remunerado já demonstrado. A participação e o custo das importações também são premissas ilustrativas.
O custo médio do combustível seria:
80% × R$ 2,00 + 20% × R$ 4,00 = R$ 2,40 por litro.
Acrescentando os tributos e reservando 10% do preço final para distribuição e revenda:
(R$ 2,40 + R$ 0,745) ÷ 0,90 = aproximadamente R$ 3,49 por litro.
Isso significaria uma redução de 52,3% diante dos R$ 7,32 do quadro analisado.
O preço médio precisaria de um mecanismo que financiasse a diferença entre o diesel nacional e o importado, garantindo o abastecimento. A necessidade de importação também teria de ser recalculada considerando a retirada do biodiesel e a possível expansão do consumo.
O limite de distribuição e revenda exige avaliação dos custos eficientes, inclusive das diferenças regionais. Os atuais R$ 2,18 incluem despesas e margens dessas atividades; não representam apenas lucro.
Reduzir impostos e compensar os estados
Proponho avaliar a tributação das exportações de petróleo cru para financiar a compensação aos estados pela redução dos tributos sobre os combustíveis.
É necessário calcular a arrecadação possível, as perdas de cada estado e os critérios de distribuição dos recursos. Também devem ser considerados os efeitos sobre produção, investimentos e exportações.
A proposta busca transformar parte da riqueza exportada em melhores condições para produzir e consumir no Brasil.
Quanto uma família poderia economizar?
Consideremos uma família de cinco pessoas — pai, mãe e três filhos — com despesas mensais de R$ 5.000.
Se o diesel representasse, direta e indiretamente, 5% desse orçamento, uma redução de 52,3% em seu preço permitiria economia potencial de aproximadamente R$ 131 por mês, ou R$ 1.570 por ano, com repasse integral.
Se apenas metade da redução chegasse aos preços finais, a economia seria de aproximadamente R$ 65 mensais, ou R$ 785 anuais.
Esses valores são ilustrativos. A participação de 5% não foi medida no orçamento familiar: é uma hipótese que precisaria ser verificada por estudo das cadeias produtivas e do consumo das famílias.
O benefício pode ir muito além
A economia no orçamento doméstico representa apenas uma parte do benefício potencial.
O diesel mais barato pode reduzir custos agrícolas, industriais e de transporte, melhorar a competitividade, ampliar mercados e estimular investimentos. Com maior atividade econômica, podem surgir novos empregos, aumento da renda e maior arrecadação.
Esses efeitos precisam ser calculados separadamente. O crescimento da arrecadação pode compensar parte da redução tributária, mas não se deve presumir que cobrirá toda a perda.
Uma avaliação completa precisa considerar os ganhos para consumidores e produtores, os custos de financiamento da proposta e a capacidade de investimento da Petrobras.
Petróleo para desenvolver o Brasil
Os números apresentados são uma simulação, não uma promessa de preço. Mas mostram por que precisamos discutir custos, remuneração, tributos, abastecimento e margens de comercialização de forma integrada.
A pergunta central permanece: estamos utilizando nossa riqueza petrolífera para ampliar a capacidade produtiva e melhorar a vida dos brasileiros?
O petróleo será efetivamente nosso quando sua exploração se traduzir em desenvolvimento, trabalho, renda e bem-estar para a população.
Referências
[1] Câmara dos Deputados. “Refinarias não foram canceladas por causa da Lava Jato, diz diretor da Petrobras”. Audiência pública, 2015.
[2] Tribunal de Contas da União. Acórdão 1.839/2018 — Plenário. Fiscalização relacionada aos projetos das refinarias Premium I e II.
[3] Petrobras. “Como são formados os preços — Diesel”. Dados da ANP, período de 18 a 24 de outubro de 2026.
[4] Petrobras. Relatório Anual e Form 20-F 2025. Seção “Custo de extração”.
[5] Ministério de Minas e Energia. “Brasil avança na autossuficiência de combustíveis com aprovação do E30 e B15”, 25/06/2025; “E30 e B15 entram em vigor em todo o Brasil”, 01/08/2025.
[6] Empresa de Pesquisa Energética — EPE. Balanço Energético Nacional 2026, ano-base 2025.
Nota metodológica: os preços simulados e a economia familiar resultam das hipóteses explicitadas neste artigo. Não constituem projeções oficiais da Petrobras, da ANP ou da EPE.