Cláudio da Costa Oliveira outubro 2026
Depois do pau-brasil, do açúcar, do ouro e dos diamantes, o café ganhou posição central nas exportações brasileiras.
Essas atividades não desapareceram umas diante das outras. Continuaram convivendo, com importâncias diferentes ao longo do tempo.
Mas o café transformou a economia do século XIX.
E sua expansão nos obriga a retomar a pergunta que orienta esta série: quem produziu a riqueza e quem participou de seus resultados?
Não buscamos atribuir culpa aos povos de hoje. Procuramos compreender como se formaram as diferenças que ainda marcam nossa sociedade.
O crescimento do café em números
Um estudo publicado na Revista do Instituto de Estudos Brasileiros apresenta a seguinte evolução:
| Período | Participação do café no valor das exportações brasileiras |
| 1821–1830 | 18,4% |
| 1831–1840 | 43,8% |
| 1841–1850 | 41,4% |
| 1851–1860 | 48,8% |
| 1861–1870 | 45,5% |
| 1871–1880 | 56,6% |
Essas porcentagens medem o valor das exportações, não a participação no PIB, a quantidade de sacas produzidas ou a renda dos trabalhadores. A evolução também mostra oscilações: o crescimento não ocorreu em linha reta.
Ainda assim, a mudança é expressiva.
Na década de 1870, mais da metade do valor exportado pelo Brasil vinha de um único produto.
Isso gerava receitas e oportunidades, mas também exposição aos preços e à procura dos mercados externos.
A expansão não encerrou a escravidão
O crescimento da lavoura cafeeira ampliou a demanda por trabalhadores escravizados.
A legislação de 1831, que proibia o tráfico, foi amplamente desrespeitada. A repressão se tornou mais efetiva após a Lei Eusébio de Queirós, de 1850. Entretanto, o fim do tráfico transatlântico não significou o fim da escravidão: o comércio interprovincial passou a abastecer as áreas cafeeiras do Sudeste.
Pessoas eram transferidas de uma região para outra para atender aos interesses dos compradores.
Para a contabilidade do proprietário, era uma transação.
Para a pessoa escravizada, podia representar nova separação da família, perda de vínculos e continuidade de uma vida sem liberdade.
A escravidão estava presente na expansão de uma atividade comercial moderna e integrada ao mercado internacional.
O progresso das exportações podia coexistir com uma das maiores violências da história humana.
O dinheiro percorreu vários caminhos
Depois da Independência, já não podemos explicar a circulação da riqueza como se tudo continuasse sendo enviado à Coroa portuguesa.
Havia fazendeiros, negociantes, bancos, empresas de transporte e governos brasileiros participando desses recursos.
Também havia empresas estrangeiras, credores e fornecedores externos.
Uma parte da receita permanecia no país. Outra pagava mercadorias e serviços adquiridos fora dele.
O próprio mercado comprador era diversificado. O estudo citado registra que os Estados Unidos receberam 62% das exportações brasileiras de café entre 1885 e 1889. Esse dado se refere ao destino do café e não significa que os americanos controlassem, na mesma proporção, toda a economia brasileira.
Precisamos distinguir quem compra, quem financia, quem transporta e quem controla a produção.
Essas funções podem estar nas mãos de agentes diferentes.
O café também ajudou a construir capacidade produtiva
Seria incorreto afirmar que a riqueza cafeeira apenas saiu do país.
O café estimulou transportes e atividades comerciais. Em São Paulo, a expansão ferroviária organizou uma rede de escoamento em direção ao porto de Santos.
Mais adiante, as divisas das exportações cafeeiras ajudariam a pagar importações de máquinas e equipamentos necessárias à industrialização. Essa contribuição é reconhecida em estudo do BNDES.
Comprar no exterior podia atender ao consumo ou ampliar a capacidade de produzir. São utilizações economicamente diferentes.
Portanto, a pergunta não é apenas quanto dinheiro saiu.
É também o que entrou em troca e quem se beneficiou.
O café contribuiu para transformações importantes. Mas isso não significa que os benefícios tenham sido distribuídos de maneira equilibrada entre regiões e grupos sociais.
Terra, liberdade e oportunidades
Em 1850, a Lei de Terras estabeleceu a compra como regra para a aquisição de terras devolutas, com exceções previstas na legislação.
A exigência de recursos para adquirir essas terras criava uma barreira para quem não dispunha de dinheiro. Não se tratava de proibir toda forma de herança ou transmissão de propriedades já existentes.
Esse ponto ajuda a compreender a diferença entre conquistar a liberdade e obter condições materiais para exercê-la.
Ser livre não significava receber terra, crédito ou formação profissional.
Ao mesmo tempo, foram organizadas iniciativas para atrair e encaminhar imigrantes ao trabalho. A Hospedaria do Brás, construída entre 1886 e 1887, destinava-se a receber, acolher e encaminhar trabalhadores no estado de São Paulo.
Os imigrantes trouxeram conhecimentos, culturas, experiências e projetos de vida. Muitos também enfrentaram exploração e dificuldades.
Não devemos transformar essa história numa oposição entre imigrantes e negros.
O problema central está nas condições desiguais de acesso às oportunidades. As populações negras também possuíam conhecimentos, aspirações e capacidade de organização, apesar das restrições que lhes foram impostas.
A riqueza precisa produzir cidadania
A economia cafeeira mostra um Brasil que crescia e se transformava, mas conservava profundas desigualdades.
Ferrovias e negócios avançavam. A liberdade demorava. E a liberdade, quando chegou, não eliminou automaticamente as barreiras acumuladas.
Não basta celebrar a produção, nem basta condenar o passado.
Precisamos compreender como a riqueza pode financiar educação, tecnologia, infraestrutura e oportunidades para toda a população.
Um país não se desenvolve plenamente enquanto trata parte de seus habitantes apenas como força de trabalho.
A passagem de uma população para um povo, no sentido que proponho nesta série, exige reconhecimento mútuo e participação num destino comum.
O café ajudou a transformar a economia brasileira.
Nossa tarefa é compreender por que essa transformação não assegurou a todos o direito de participar de seus resultados.
REFERÊNCIAS
- Fiscalidade e subdesenvolvimento: breves considerações sobre o Brasil independente. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n.º 82, p. 54–77, 2022. DOI: 10.11606/issn.2316-901X.v1i82p54-77.
- Arquivo Nacional. Legislação abolicionista no Império.
- Arquivo Nacional — MAPA. Lei Eusébio de Queirós.
- Ministério dos Transportes. Transportes no Brasil — Síntese histórica.
- BNDES Setorial, n.º 39, 2014. Estudo sobre a cafeicultura brasileira e sua contribuição para a economia.
- Arquivo Nacional. Caderno MAPA n.º 4. Discussão da legislação imperial, incluindo a Lei de Terras.
- Museu da Imigração do Estado de São Paulo. Sobre o Museu — O