Claudio da Costa Oliveira outubro 2026
Este trabalho procura compreender o destino das riquezas retiradas do Brasil e as condições humanas em que foram produzidas. Não pretende julgar povos nem atribuir às gerações atuais a culpa pelos acontecimentos do passado.
Nosso compromisso é registrar os fatos, identificar as instituições e os interesses envolvidos e compreender suas consequências. Reconhecer a violência da escravidão e da exploração colonial é necessário para conhecer nossa formação e evitar que a desumanização continue sob outras formas.
A pergunta que nos acompanha é simples: a riqueza produzida pelo trabalho humano serviu para melhorar a vida de quem a produziu?
Quanto saiu das nossas florestas, quem recebeu os ganhos e por que esse comércio perdeu importância?
Quanto tempo durou a exploração do pau-brasil?
A maneira como dividimos a história em ciclos pode transmitir uma impressão errada: primeiro veio o pau-brasil, depois o açúcar, depois o ouro e, finalmente, o café. Como se cada atividade terminasse quando outra começava.
Não foi assim.
A exploração comercial do pau-brasil começou nos primeiros anos do século XVI e continuou pela segunda metade do século XIX. Foram aproximadamente três séculos e meio de comércio voltado ao fornecimento de corante, aproximando-se de quatro séculos.
A Fundação Joaquim Nabuco e a Universidade Estadual do Norte Fluminense utilizam 1875 como referência para o encerramento dessa fase. Isso não significa que todos os usos da madeira tenham terminado naquele ano.
Quando o açúcar se expandiu, o pau-brasil continuou sendo retirado. Quando a mineração ganhou importância, a madeira continuou atravessando o Atlântico. Sua comercialização alcançou também o Brasil independente.
Portanto, precisamos estudar atividades que coexistiam, embora sua importância relativa mudasse.
Mas por que a Europa comprava essa madeira?
Principalmente porque dela se obtinha um corante para tingir tecidos. A matéria corante do pau-brasil permitia produzir tonalidades avermelhadas utilizadas em diferentes peças de vestuário.
A floresta brasileira fornecia um insumo para atividades de transformação e comércio na Europa. A madeira tinha valor porque existiam conhecimentos, oficinas, consumidores e redes comerciais capazes de utilizá-la.
Portugal procurou controlar esse negócio por meio do monopólio régio e de contratos com particulares. Mas não foi o único participante.
Os franceses negociavam na costa brasileira e transportavam madeira para seus mercados. Rouen tornou-se um importante entreposto, redistribuindo carregamentos para outros centros, entre eles Paris, La Rochelle e Antuérpia.
Explorar diretamente, transportar, revender e utilizar o corante eram atividades diferentes. Participar desse comércio não significava necessariamente realizar todas elas.
E quanto de madeira foi retirado?
Ainda não temos um total seguro para todos os séculos. Mas já existem números que permitem sair das generalidades.
A historiadora Maria Isabel de Siqueira registra, para 1506, a retirada de 20 mil quintais de pau-brasil, associada a uma receita de 4 mil ducados para a Coroa pelo arrendamento do monopólio.
É preciso entender o significado: esses quatro mil ducados eram receita do arrendamento. Não representavam o valor total das vendas na Europa, nem o lucro de todos os envolvidos.
Um segundo conjunto de registros permite enxergar melhor a escala do comércio.
Entre 1756 e 1775, a sociedade mercantil Purry, Mellish e Devisme retirou dos armazéns da Casa da Índia, em Lisboa, 422.131 quintais de pau-brasil, distribuídos em 1.798.624 toros.
Adotando aproximadamente 60 quilos por quintal, são 25,3 mil toneladas, ou cerca de 1.266 toneladas por ano.
Esse cálculo corresponde a uma sociedade comercial e a vinte anos de registros. Não representa toda a madeira retirada do Brasil. E toros são pedaços de tronco, não árvores inteiras.
O contrato inicial, firmado em 1756, previa a aquisição anual de 20 mil quintais, a 6.400 réis por quintal: 128 contos de réis por ano. Esse era o valor contratual naquela etapa do comércio, não o lucro líquido dos negociantes.
Esses números mostram que o pau-brasil permaneceu um negócio expressivo muito depois do período apresentado nos livros escolares como seu “ciclo”.
Mas precisamos acompanhar também o trabalho.
Nas primeiras décadas, os indígenas tiveram papel fundamental na localização, no corte e no transporte da madeira. Parte dessas relações se organizava pelo escambo, a troca por ferramentas e outros objetos.
Isso não deve ser confundido automaticamente com escravidão. Contudo, a expansão colonial envolveu coerção e escravização. O próprio Regimento do Pau-Brasil, de 1605, mencionava o corte realizado por proprietários, seus escravizados ou feitores, mediante autorização.
O controle comercial e fiscal convivia com uma sociedade que transformava pessoas em propriedade.
Para onde foram os recursos?
Uma parte entrou nas receitas da Coroa. Outra circulou entre contratadores, transportadores e comerciantes. A madeira ainda alimentava atividades de transformação e venda nos mercados consumidores.
Não existia um único cofre recebendo tudo.
Para identificar o destino final desses ganhos, precisamos acompanhar os registros de cada negócio. O valor de um contrato não demonstra, sozinho, quanto foi gasto em palácios, guerras, obras públicas ou novos investimentos.
Entretanto, já podemos afirmar algo importante: possuir a árvore não significava controlar todas as etapas econômicas que davam valor à sua madeira.
E por que esse comércio perdeu importância?
Porque a tecnologia mudou.
Em 1856, o químico inglês William Henry Perkin descobriu a malveína, um corante sintético de tonalidade violeta. Sua descoberta tornou-se um marco da indústria de corantes artificiais.
A malveína não substituiu, sozinha e imediatamente, todas as cores naturais. Ela abriu caminho para uma indústria que desenvolveria outros produtos e transformaria o mercado de tingimento.
Ao longo da segunda metade do século XIX, a expansão dos corantes sintéticos reduziu a importância do pau-brasil como matéria-prima tintorial.
Sua madeira, entretanto, conservou outras aplicações. Uma delas é a fabricação de arcos para instrumentos de cordas, como o violino. Por isso, o declínio do comércio de corante não equivale ao desaparecimento de toda demanda pela espécie.
Aqui existe uma lição que merece nossa atenção.
Uma riqueza natural pode sustentar negócios durante séculos e depois perder mercado diante de uma inovação. Quem depende de sua venda precisa compreender também a ciência, a tecnologia e as mudanças nas necessidades dos compradores.
Ter recursos é uma vantagem. Transformá-los em conhecimento e capacidade produtiva é uma tarefa permanente.
O pau-brasil nos ajuda a perceber como essa história começou: recursos naturais, trabalho, contratos, poder político e mercados externos ligados numa mesma atividade.
Nosso próximo passo será acompanhar o açúcar. Ali encontraremos uma produção mais complexa, grandes propriedades, engenhos, financiamento e uma dependência profunda do trabalho escravizado.
A pergunta permanece:
Quanto foi produzido, quem recebeu os resultados e o que essa riqueza ajudou a construir?
REFERÊNCIAS
- Fundação Joaquim Nabuco. Pau-Brasil. Pesquisa Escolar.
- Universidade Estadual do Norte Fluminense. Pau Brasil. Projeto Árvores da UENF.
- Arquivo Nacional. Indumentária colonial. História Luso-Brasileira.
- Siqueira, Maria Isabel de. Pau Brasil. BRASILHIS Dictionary, Universidade de Salamanca.
- O negócio do pau-brasil, a sociedade mercantil Purry, Mellish and Devisme e o mercado global de corantes: escalas mercantis, instituições e agentes ultramarinos no século XVIII. Revista de História, Universidade de São Paulo.
- Les importations de bois de Brésil en Normandie dans la première moitié du XVIe siècle. Revista Portuguesa de História.
- Metropolitan Museum of Art. Interwoven Globe.
- Science Museum Group. Sir William Henry Perkin. Science and Industry Museum. World’s first synthetic dye.
- Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste. Palestra sobre Pau-brasil e plantio da espécie selam programação do Bicentenário.
- Serviço Florestal Brasileiro. Pesquisa do SFB atinge 99% de acerto na diferenciação entre a madeira pau-brasil nativa e de plantio.
Nota sobre os números: as conversões em toneladas foram calculadas com a aproximação de 60 kg por quintal utilizada na pesquisa citada. Os registros apresentados abrangem períodos e operações específicos; não constituem uma estimativa de toda a extração histórica.