FALA SÉRIO — ESPECIAL 2 – O BRASIL QUE SOMOS E O DESTINO DAS NOSSAS RIQUEZAS

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Cláudio da Costa Oliveira setembro 2026

Com o Fala Sério 209, concluímos a série iniciada no número 197. Foram treze artigos dedicados a uma pergunta que continua a nos desafiar: por que um país com tantas riquezas ainda oferece condições de vida tão desiguais à sua população?

Procuramos compreender o Brasil de hoje a partir de sua formação. Refletimos sobre a colonização, a escravidão, a influência jesuítica na educação, a chegada de imigrantes e as diferenças de oportunidades que atravessam nossa história.

Também discutimos energia, ferrovias, indústria, tecnologia e as relações do Brasil com outras potências. Buscamos entender como decisões econômicas e políticas ajudaram a construir o país em que vivemos.

Esses assuntos se encontram na vida de cada brasileiro. A possibilidade de estudar, trabalhar com dignidade, construir um patrimônio e participar das decisões depende das condições que uma sociedade oferece aos seus habitantes.

Nossa diversidade reúne experiências que precisamos conhecer melhor. A história de uma família marcada pela escravidão pode ser muito diferente da história de uma família de imigrantes. Essas origens também se misturam. Compreender suas diferenças é necessário para construir um projeto comum.

Quando digo que precisamos transformar nossa população em um povo e fortalecer nossa nação, estou defendendo que cada brasileiro se reconheça como participante das decisões sobre o país e beneficiário de suas riquezas.

O próximo passo será reunir os FS 197 a 209 em um novo ebook, que pretendemos publicar na Amazon. A organização em livro permitirá acompanhar o raciocínio completo, consultar os dados e retomar as referências.

A partir do Fala Sério 210, iniciaremos outra investigação, diretamente ligada à primeira.

Para onde foram as riquezas produzidas pela exploração do Brasil?

Vamos estudar o pau-brasil, a cana-de-açúcar, o ouro e o café. Em cada atividade, procuraremos identificar quem trabalhava, quem controlava os negócios e quem recebia os resultados.

Começaremos pela escravidão, com o título “Escravidão: a catástrofe por trás da riqueza”. A escravidão africana nas Américas foi uma das maiores catástrofes da história da humanidade. Pessoas foram arrancadas de suas comunidades, transformadas em propriedade e submetidas à violência. Famílias foram separadas. A exploração atravessou gerações.

Em 25 de março de 2026, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Resolução 80/250, que declara o tráfico de africanos escravizados e sua escravização racializada como o mais grave crime contra a humanidade. Esse reconhecimento estará presente na abertura da nova série. [1]

Durante a preparação desse estudo, uma comparação demográfica me chamou especialmente a atenção. Ao longo de séculos, aproximadamente 4,8 milhões de africanos escravizados desembarcaram no Brasil. Para o território dos Estados Unidos, as estimativas apontam cerca de 390 mil desembarques pelo tráfico transatlântico direto. [2]

Entretanto, os Estados Unidos registraram quase 4 milhões de pessoas escravizadas em 1860. No Brasil, o Censo de 1872 registrou aproximadamente 1,5 milhão. Como compreender uma diferença tão grande?

Precisamos olhar também para a população livre. Os números, arredondados, eram os seguintes. [3, 4]

População registradaBrasil — 1872EUA — 1860
Escravizada1,51 milhão3,95 milhões
Negra e parda livre*4,25 milhões0,49 milhão
Total dos dois grupos5,76 milhões4,44 milhões

* No Brasil, pretos e pardos; nos Estados Unidos, a categoria histórica “free colored”. São classificações de épocas e países diferentes, que não correspondem perfeitamente entre si nem às categorias atuais. Os totais foram calculados antes do arredondamento. Fontes: Klein e U.S. Census Bureau. [3, 4]

Os desembarques representam pessoas que chegaram ao longo de séculos. Um censo conta os habitantes vivos em determinada data. Por isso, dividir a população de um censo pelo total de desembarques não fornece uma taxa de crescimento nem revela quantas pessoas morreram.

Há outro dado indispensável. Uma reconstrução histórica citada por Herbert Klein estima em cerca de 2 milhões a população negra e parda, livre e escravizada, do Brasil em 1798. Em 1872, eram aproximadamente 5,76 milhões. A estimativa de 1798 não é um censo nacional e exige cautela na comparação. Ainda assim, ela mostra crescimento dessa população, embora o número de pessoas mantidas na escravidão nos dois momentos fosse semelhante. [3]

A diferença demográfica entre os dois países continua sendo relevante. Nos Estados Unidos, o saldo de nascimentos sobre mortes teve papel decisivo no crescimento da população escravizada. Esse processo é estudado por historiadores, inclusive J. David Hacker. [5]

A economia escravista brasileira permaneceu muito mais dependente de novas entradas de africanos. Para compreender essa diferença, precisamos considerar a mortalidade, a proporção entre homens e mulheres, as idades de chegada e as possibilidades de formar famílias. [3, 6]

As alforrias também afetavam os números. Sair da escravidão alterava a contagem de escravizados; a pessoa continuava fazendo parte da população. As alforrias, portanto, não explicam sozinhas as diferenças no total de habitantes negros e pardos. [3]

Também existem evidências dos efeitos das condições de trabalho e das doenças. Estudos sobre regiões produtoras de algodão e açúcar no Brasil mostram como a elevada mortalidade e o predomínio de homens dificultavam o crescimento da população escravizada. Esses resultados variavam conforme a região e o período. Não podemos atribuir toda a diferença a uma única causa. [6]

Em 1935, o sociólogo e historiador W. E. B. Du Bois examinou essa questão no capítulo “O trabalhador negro”, de Reconstrução negra na América. A discussão, portanto, tem uma longa história. [7]

Comparando o Caribe com os Estados Unidos, Du Bois argumentou que a reposição pelo tráfico podia tornar lucrativa a exploração até a morte. Onde o tráfico externo fora encerrado, crescia o interesse econômico dos proprietários na sobrevivência e reprodução dos escravizados. Essa diferença de incentivos merece atenção em nossa investigação. [7]

Sua comparação não demonstra, por si só, o que ocorreu no Brasil. Para aplicar essa interpretação à nossa história, precisamos confrontá-la com as pesquisas sobre mortalidade, natalidade, alforrias e condições de trabalho.

O crescimento demográfico nos Estados Unidos tampouco torna aceitável a escravidão praticada naquele país. Em ambos os casos, estamos falando de seres humanos privados da liberdade e tratados como propriedade.

Esse contraste merece espaço na nossa investigação. Embora já estudado por especialistas, precisa ser explicado ao público. Quero compreender como as condições impostas aos escravizados afetaram suas vidas, a sobrevivência de seus filhos e a formação da população brasileira.

Du Bois também relacionou o algodão produzido por escravizados à indústria norte-americana e inglesa e ao comércio mundial. Incluiu o Rio de Janeiro entre os centros de concentração dos ganhos da exploração. [7] Isso reforça nosso compromisso de investigar tanto a riqueza enviada ao exterior quanto a acumulada no Brasil.

A riqueza produzida deve ser examinada junto com esse custo humano. Quando acompanharmos o açúcar, o ouro e o café, precisaremos perguntar também quem suportava o trabalho, a violência e a perda da liberdade que sustentavam aqueles negócios.

Daremos atenção especial a Portugal. Quanto a Coroa recebeu? Como esses recursos foram empregados nos gastos da Corte, na construção de palácios, conventos e outras obras, na defesa do Império e nas relações comerciais?

Queremos saber em que medida essa riqueza contribuiu para melhorar a vida da população portuguesa e ampliar sua capacidade de produzir. E quanto foi consumido, concentrado em poucos beneficiários ou utilizado para comprar produtos de outros países.

Será necessário distinguir o dinheiro da Coroa dos lucros particulares. Também acompanharemos o que permaneceu no Brasil e o que chegou a outros centros comerciais, inclusive à Inglaterra. O café nos levará também ao Brasil independente e às responsabilidades das elites e dos governos daqui.

Na investigação do tráfico, distinguiremos a participação de portugueses, britânicos, espanhóis, franceses e outros agentes, incluindo negociantes estabelecidos no Brasil. Cada período teve seus responsáveis e beneficiários. A documentação deverá orientar nossas conclusões.

As pessoas escravizadas também resistiram, preservaram conhecimentos, formaram famílias e lutaram pela liberdade. Seus descendentes participam da construção do Brasil. Entendo que reconhecer essa história exige discutir reparação e ampliar as oportunidades de educação, trabalho e participação nas decisões.

A pergunta que orienta nosso trabalho continua atual: como fazer com que a riqueza produzida no Brasil melhore a vida de quem vive aqui?

Conhecer nossa formação e acompanhar o destino de nossas riquezas pode ajudar os brasileiros a participar das decisões com mais consciência. É com esse propósito que encerramos uma série e iniciamos a próxima.

Fala sério!

REFERÊNCIAS

1. NAÇÕES UNIDAS. Assembleia Geral. Resolução A/RES/80/250, aprovada em 25 de março de 2026. Declaration of the Trafficking of Enslaved Africans and Racialized Chattel Enslavement of Africans as the Gravest Crime against Humanity.

https://www.un.org/en/rememberslavery/resources/ga-resolutions

2. NATIONAL PARK SERVICE. The Middle Passage. Síntese dos desembarques do tráfico transatlântico, baseada no projeto SlaveVoyages. A estimativa de cerca de 390 mil para os Estados Unidos refere-se ao tráfico direto da África; não inclui todas as entradas provenientes de outras partes das Américas.

https://www.nps.gov/articles/the-middle-passage.htm

3. KLEIN, Herbert S. A demografia do tráfico atlântico de escravos para o Brasil. Estudos Econômicos, v. 17, n. 2, p. 129–149, 1987. Especialmente p. 140–142. O autor discute a composição demográfica, as alforrias e as estimativas de população de 1798 e 1872.

https://people.ufpr.br/~lgeraldo/klein1987.pdf

4. U.S. CENSUS BUREAU. History and the Census: Abraham Lincoln. Novembro de 2014. Dados do Censo de 1860: 3.953.760 pessoas escravizadas e 488.070 classificadas como “free colored”, totalizando 4.441.830 pessoas.

https://www.census.gov/about/history/stories/monthly/2014/november-2014.html

5. HACKER, J. David. From ‘20. and odd’ to 10 million: the growth of the slave population in the United States. Slavery & Abolition, v. 41, n. 4, p. 840–855, 2020. DOI: 10.1080/0144039X.2020.1755502.

https://doi.org/10.1080/0144039X.2020.1755502

6. PEREIRA, Thales Zamberlan. Poor Man’s Crop? Slavery in Brazilian Cotton Regions (1800–1850). Estudos Econômicos, v. 48, n. 4, 2018. Especialmente a seção 4, sobre crescimento populacional. DOI: 10.1590/0101-41614843tzp.

https://doi.org/10.1590/0101-41614843tzp

7. DU BOIS, W. E. B. O trabalhador negro. Capítulo 1 de Reconstrução negra na América (1935). Tradução de Sandro Marques dos Santos. TraduAgindo, 27 dez. 2022.

Texto integral em português — TraduAgindo

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