Claudio da Costa Oliveira setembro 2026
Quando Juiz de Fora inaugurou a Usina de Marmelos Zero, em 5 de setembro de 1889, havia pouco mais de um ano que o Brasil abolira a escravidão. A iniciativa de Bernardo Mascarenhas e da Companhia Mineira de Eletricidade anunciava um futuro novo numa sociedade profundamente marcada pelo passado. Pesquisa FAPESP.
A escravidão foi uma das maiores atrocidades da história da humanidade. No Brasil, durante séculos, pessoas foram compradas, vendidas, castigadas e separadas de suas famílias. Seu trabalho sustentava riquezas das quais eram privadas.
Precisamos considerar essa formação quando examinamos nossa industrialização: quem podia estudar, acumular patrimônio, obter crédito e participar das decisões?
A abolição extinguiu juridicamente o cativeiro. Construir oportunidades para os libertos e seus descendentes exigia transformar também as condições de acesso à educação e à riqueza.
Outra parte dessa história é a educação jesuítica, examinada no artigo anterior. Entre 1549 e 1759, a Companhia de Jesus teve presença decisiva no ensino colonial, articulando formação intelectual, catequese e disciplina. Seus estabelecimentos também participavam de uma economia sustentada pelo trabalho escravizado. HISTEDBR/Unicamp; Ferreira Júnior e Bittar.
Minha hipótese é que certos usos sociais dos ensinamentos de obediência e pobreza contribuíram para naturalizar hierarquias e a aceitação da privação. Essa ligação precisa ser investigada. Os votos dos religiosos, por si sós, não demonstram seus efeitos sobre toda a população.
A fé também inspira solidariedade e justiça. E a resistência negra demonstra que as pessoas submetidas à escravidão lutavam por liberdade e autonomia.
É nesse Brasil, cheio de conflitos e possibilidades, que chegou a eletricidade.
Marmelos começou com dois grupos geradores de 125 quilowatts. Em Appleton, nos Estados Unidos, uma instalação hidrelétrica com equipamentos Edison começara a funcionar em 1882, apenas sete anos antes. O Brasil adotou cedo a nova tecnologia. Pesquisa FAPESP; ASME.
Nos Estados Unidos, Edison, Westinghouse e Tesla participavam da disputa entre corrente contínua e alternada. Estavam em jogo patentes, contratos e mercados. A possibilidade de alterar a tensão com transformadores favorecia a transmissão da corrente alternada a maiores distâncias. Departamento de Energia dos EUA.
Marmelos utilizou tecnologia estrangeira. O registro de seu museu identifica um gerador Westinghouse. A água e o mercado estavam aqui; parte importante do conhecimento industrial vinha de fora. Ibram.
Mas existe um ponto material que precisamos acrescentar: além da energia, a indústria necessita de metais adequados, máquinas, ferramentas e trabalhadores preparados.
A Belgo-Mineira foi fundada em 1921, trinta e dois anos depois de Marmelos. Sua formação representou um avanço importante da siderurgia brasileira. História da unidade de Sabará, em comunicado da ArcelorMittal.
Produzir aço para uma aplicação não significa dominar todos os materiais necessários à indústria elétrica. Nos equipamentos modernos, por exemplo, geradores e transformadores utilizam aços com propriedades magnéticas específicas, que reduzem as perdas de energia. As exigências mudaram com o tempo: precisamos avaliar cada época segundo suas próprias máquinas e materiais. Aperam — aços elétricos.
Uma oferta limitada de materiais apropriados pode dificultar a fabricação nacional. Para estabelecer quanto isso pesou no caso brasileiro, precisamos examinar disponibilidade, qualidade, escala e preços. A importação de insumos continuava sendo uma possibilidade, mas exigia financiamento e capacidade industrial para transformá-los.
O historiador Gildo Magalhães destaca os esforços de técnicos brasileiros e os obstáculos associados à falta de políticas científicas e tecnológicas e ao predomínio do capital estrangeiro na eletrificação. Força e luz.
Vejo aí uma oportunidade que merecia maior continuidade: combinar novas usinas com formação profissional, siderurgia, engenharia, crédito e encomendas para fabricantes nacionais.
Essa transformação precisava incluir a população historicamente excluída. Um país desperdiça capacidade quando impede parte de seus habitantes de aprender, criar e participar.
Marmelos mostrou iniciativa empresarial. Seu exemplo nos convida a ligar energia, indústria e oportunidades para as pessoas.
Sentir-se dono do Brasil também é poder participar da construção de seu futuro.
Fala sério!
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REFERÊNCIAS
- Neldson Marcolin — Rotas da Eletricidade, Pesquisa FAPESP, edição 118, dezembro de 2005. Inauguração, potência e expansão de Marmelos.
- Sônia Maria Fonseca — A hegemonia jesuítica (1549–1759), HISTEDBR/Unicamp. Formação intelectual e religiosa no período colonial.
- Amarilio Ferreira Júnior e Marisa Bittar — Educação jesuítica e crianças negras no Brasil Colonial. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 80, n. 196, 1999, p. 472–482.
- American Society of Mechanical Engineers — Vulcan Street Power Plant. Instalação de Appleton em 1882.
- Departamento de Energia dos Estados Unidos — The War of the Currents: AC vs. DC Power. Sistemas elétricos e disputa empresarial.
- Instituto Brasileiro de Museus — Museu Usina Marmelos Zero. Registro do acervo e referência ao fabricante Westinghouse.
- ArcelorMittal — comunicado sobre a unidade de Sabará, reproduzido pela Folha de Sabará em 12 de novembro de 2024. Fundação da Belgo-Mineira em 11 de dezembro de 1921.
- Aperam — Electrical Steel. Propriedades e aplicações atuais dos aços elétricos. Esta fonte não documenta a disponibilidade desses materiais no Brasil de 1889.
- Gildo Magalhães — Força e luz: eletricidade e modernização na República Velha, Editora Unesp, 2000. Apresentação da obra consultada no Google Livro