Claudio da Costa Oliveira setembro 2026
Para entender o Brasil, precisamos começar por uma verdade que deve ocupar o centro da nossa memória: a escravidão foi uma das maiores atrocidades da história da humanidade.
Durante mais de três séculos, seres humanos foram comprados, vendidos e obrigados a trabalhar sob violência. Cerca de 4,8 milhões de africanos escravizados chegaram ao Brasil. Foram arrancados de suas famílias, de suas comunidades e de seu futuro. National Park Service, com dados do SlaveVoyages.
A esse contingente somaram-se gerações nascidas aqui, também submetidas ao cativeiro. A escravidão organizou a produção, a distribuição da riqueza e as relações de poder.
Quem possuía terras e pessoas acumulava patrimônio. Quem produzia sob coerção tinha sua liberdade negada e possibilidades profundamente limitadas de construir uma vida própria.
Houve resistência: fugas, quilombos, revoltas, ações pela liberdade e participação na luta abolicionista. Africanos e seus descendentes também trouxeram conhecimentos, técnicas, crenças e formas de solidariedade que ajudaram a construir o Brasil.
Em 1888, a Lei Áurea extinguiu a escravidão. Seus dois artigos não instituíram distribuição de terras, reparação aos libertos ou um programa de educação. A liberdade conquistada precisava de condições materiais para ser exercida plenamente. Lei Áurea.
Nesse país em transformação, chegaram, ao longo dos séculos XIX e XX, alemães, italianos, japoneses, árabes e tantos outros imigrantes.
Trouxeram novas experiências de trabalho, conhecimentos, empresas, associações e ideias políticas. Ampliaram atividades agrícolas, comerciais e industriais. Ajudaram a transformar o país.
Suas trajetórias foram variadas. Muitos enfrentaram pobreza, exploração e preconceito. Parte dos imigrantes, especialmente europeus, contou com políticas de incentivo, como passagens subsidiadas. O apoio público era seletivo, e a própria legislação estabelecia restrições raciais à imigração. Museu da Imigração.
Enquanto isso, a população saída da escravidão enfrentava barreiras para acessar terra, trabalho e oportunidades. A transição foi conduzida preservando interesses dos grandes proprietários. Museu da Imigração — legislação e trabalho livre.
Novas visões chegaram, mas encontraram uma estrutura antiga. A escravidão terminou como instituição legal; suas hierarquias e desigualdades não desapareceram com a assinatura da lei.
Essa é uma chave para compreender o Brasil de hoje.
Em 2025, nosso Produto Interno Bruto alcançou aproximadamente 12,7 trilhões de reais, com crescimento de 2,3%. Esse número mostra a dimensão da nossa produção, mas não informa como seus resultados chegam às famílias. IBGE — PIB de 2025.
Também avançamos no desenvolvimento humano. Na série brasileira do IDHM, que reúne longevidade, educação e renda, o país atingiu 0,805 em 2024: a faixa de desenvolvimento humano muito alto.
Entretanto, quando esse indicador é ajustado pela desigualdade, cai para 0,641. A média nacional reúne condições de vida muito diferentes. PNUD — Radar IDHM.
O índice de Gini da renda domiciliar por pessoa ficou em 0,511 em 2025. Nessa escala, zero representa igualdade, e valores mais próximos de um indicam maior concentração. Continuamos com uma distribuição de renda muito desigual. IBGE — rendimentos de 2025.
O Gini mede desigualdade de renda. Ele não demonstra, sozinho, um conflito entre culturas ou explica suas causas.
Minha interpretação é que experiências tão desiguais de acesso à propriedade, à escola e ao poder ajudam a produzir diferentes visões sobre o país. Quem herdou segurança pode enxergar as oportunidades de maneira muito diferente de quem herdou exclusão.
Essa distância pode dificultar o reconhecimento de um destino comum.
A diversidade cultural pode enriquecer uma nação. Mas, para isso, precisamos reconhecer que seus integrantes não partiram das mesmas condições.
Enfrentar a herança da escravidão exige educação de qualidade, combate ao racismo, acesso ao crédito, à moradia, à terra e ao trabalho digno. Exige participação nas decisões.
O Brasil cresceu e mudou. Nossa tarefa é fazer essas conquistas alcançarem quem ainda permanece à margem.
Para que cada brasileiro se sinta dono deste país, ele precisa ter condições de participar de sua construção e de seus resultados.
Fala sério!
CRITICAS, SUGESTÕES, OPINIÕES : sobeeranobrasiles@gmail.com
EFERÊNCIAS
- National Park Service — The Middle Passage. Estimativas do tráfico transatlântico baseadas no SlaveVoyages e relatos da violência da travessia.
- Presidência da República — Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888. Texto integral da Lei Áurea.
- Museu da Imigração — Quem entra no Brasil? O mito das portas abertas. Subsídios, seleção de imigrantes e restrições raciais.
- Museu da Imigração — Legislação brasileira: controle e embranquecimento do mercado de trabalho livre. Análise da transição do trabalho escravizado para o trabalho livre.
- IBGE — PIB cresce 2,3% em 2025 e fecha o ano em R$ 12,7 trilhões. Divulgação de 3 de março de 2026.
- PNUD/ONU Brasil — Brasil alcança patamar de muito alto desenvolvimento humano. Divulgação de 27 de maio de 2026, com dados de 2024. O IDHM é uma adaptação brasileira do IDH; não se deve confundi-lo com o índice e a classificação do ranking mundial.
- IBGE — PNAD Contínua: Rendimento de todas as fontes 2025. Divulgação de maio de 2026. O Gini citado se refere à renda domiciliar por pessoa, considerando todas as fontes de rendimento.