FALA SÉRIO 197, BRASIL: UM PAÍS QUE NÃO SE SENTE DONO DE SI, Por que um país tão rico não se desenvolve?

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Cláudio da Costa Oliveira setembro 2026

O Brasil possui 8,5 milhões de quilômetros quadrados e mais de 200 milhões de habitantes.

Temos terras férteis, água, minérios, petróleo, florestas e inúmeras fontes de energia. Somos grandes produtores de alimentos, minério de ferro, petróleo, café, soja e diversas outras riquezas.

Mas, apesar de tudo isso, milhões de brasileiros continuam lutando apenas para sobreviver.

Por que um país tão rico não consegue se desenvolver?

Primeiramente, precisamos entender o que significa desenvolvimento.

Desenvolvimento não é apenas aumentar o Produto Interno Bruto. Também não é bater recordes na exportação de café, soja, minério ou petróleo.

Um país se desenvolve quando transforma suas riquezas em conhecimento, tecnologia, indústrias, empregos qualificados, educação, saúde e melhoria das condições de vida de sua população.

O Brasil produz muita riqueza. O problema é saber quem controla essa riqueza, como ela é utilizada e quem fica com seus resultados.

Talvez a explicação comece na nossa própria formação.

O Brasil não foi criado para ser uma nação desenvolvida. Foi organizado como colônia, para fornecer riquezas a Portugal e à Europa.

Primeiro foi o pau-brasil. Depois vieram o açúcar, o ouro, o café e outras matérias-primas.

A terra ficou concentrada nas mãos de poucos. Os povos indígenas foram expulsos, submetidos ou mortos. Cerca de 4,8 milhões de africanos escravizados desembarcaram vivos no Brasil.

Essas pessoas trabalhavam, produziam e construíam o país, mas não tinham direitos. Não podiam escolher seu destino e não participavam da distribuição das riquezas que produziam.

Em 1822, o Brasil tornou-se independente de Portugal. Mas a Independência não distribuiu a terra, não acabou com a escravidão e não modificou profundamente o controle da economia.

Em 1888, a escravidão foi finalmente abolida. Entretanto, os libertos não receberam terra, educação nem uma política nacional capaz de integrá-los plenamente à nova sociedade.

No ano seguinte, veio a República, também sem grande participação popular.

Durante séculos, portanto, a maioria dos brasileiros viveu neste país sem se sentir parte das decisões e sem acreditar que as riquezas nacionais também lhe pertenciam.

No final do século XIX e no início do século XX, chegaram milhões de imigrantes. Trouxeram trabalho, conhecimentos, experiências e ajudaram a iniciar novas atividades industriais. Mas entraram num país cuja estrutura econômica já estava montada: uma pequena elite controlava a terra, o poder e a riqueza.

A colônia acabou. A escravidão acabou. Mas será que o modelo de exploração também acabou?

Até hoje exportamos grandes quantidades de café em grão, cacau, minério de ferro e petróleo. Outros países transformam essas matérias-primas, agregam tecnologia, criam empregos qualificados e ficam com parte importante do valor final.

Isso não acontece porque o brasileiro seja incapaz.

A criação da CSN, da Petrobras, do BNDES, da Embraer e de inúmeras outras empresas mostrou que o Brasil possui trabalhadores, engenheiros, técnicos e cientistas capazes de realizar grandes projetos.

A descoberta do pré-sal pela Petrobras foi mais uma demonstração dessa competência.

Mas, em vez de discutirmos como utilizar essa enorme riqueza para industrializar o Brasil, financiar a educação, desenvolver tecnologia e melhorar a vida da população, começamos a ouvir que a Petrobras não possuía tecnologia, que o petróleo seria muito caro e, finalmente, que a empresa estava quebrada.

Será que essas afirmações correspondiam aos fatos? Ou ajudaram a convencer o brasileiro de que aquilo que era seu precisava ser entregue a outros?

É exatamente isso que precisamos investigar.

Eu tenho dito que o Brasil possui uma população, mas ainda não conseguiu formar plenamente um povo. Possui um país, mas ainda não construiu completamente uma nação.

Uma população é formada pelas pessoas que vivem num território.

Um povo se forma quando essas pessoas reconhecem uma história comum, compreendem seus interesses e participam das decisões sobre o futuro.

Uma nação existe verdadeiramente quando esse povo se sente dono de seu território, de suas riquezas e de seu destino.

Talvez o maior problema brasileiro não seja falta de recursos, de capacidade ou de trabalho.

Talvez seja que o brasileiro nunca tenha sido ensinado a sentir que este país também lhe pertence.

Antes de decidir o futuro, precisamos conhecer nossa formação, compreender quem controla nossas riquezas e descobrir por que tantas decisões importantes são tomadas sem a participação da população.

O primeiro passo para desenvolver o Brasil talvez seja fazer o brasileiro compreender que ele não está aqui apenas para sobreviver.

Ele é um dos donos deste país.

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