FALA SÉRIO 192, MINÉRIO DE FERRO AÇO E INDÚSTRIA A riqueza Brasileira precisa desenvolver o Brasil

bandeira

Cláudio da Costa Oliveira  Agosto 2026

O Brasil possui uma das maiores riquezas minerais do mundo.

Em 2024, produzimos 447,2 milhões de toneladas de minério de ferro beneficiado, equivalentes a 17,9% da produção mundial. As reservas brasileiras provadas e prováveis somavam 58,2 bilhões de toneladas.

Temos minério abundante e de elevada qualidade, grandes mineradoras, ferrovias, portos, siderurgia e experiência industrial.

Mas existe uma contradição.

Em 2025, o Brasil produziu apenas 33,3 milhões de toneladas de aço bruto, ocupando a nona posição mundial.

No mesmo ano:

China — 960,8 milhões de toneladas
Japão — 80,7 milhões
Coreia do Sul — 61,9 milhões
Brasil — 33,3 milhões.

Japão e Coreia do Sul não possuem a extraordinária disponibilidade de minério de ferro existente no Brasil.

Mesmo assim, produzem muito mais aço.

A conclusão é simples:

Ter riqueza natural não é suficiente. Desenvolvimento acontece quando a riqueza é transformada em produtos de maior valor dentro do próprio país.

1. DO MINÉRIO À MÁQUINA

O minério de ferro pode ser exportado.

E deve ser exportado quando houver mercado e interesse econômico.

Em 2024, o comércio exterior relacionado ao ferro gerou saldo positivo de aproximadamente US$ 31,5 bilhões para o Brasil.

Mas minério é apenas o início da cadeia.

Minério

Aço

Chapas, tubos, perfis e componentes

Máquinas e equipamentos

Fábricas, navios, veículos, ferrovias e infraestrutura

A cada etapa acrescentamos:

trabalho, engenharia, tecnologia, salários, impostos e conhecimento.

Por isso, a pergunta não é se devemos exportar minério.

A pergunta é:

Quanto da extraordinária riqueza mineral brasileira conseguimos transformar em desenvolvimento dentro do Brasil?

2. O AÇO É UM PROBLEMA DE TODA A INDÚSTRIA

Aço não é apenas o produto final de uma siderúrgica.

É matéria-prima para:

  • máquinas e equipamentos;
  • indústria automobilística;
  • construção pesada;
  • estaleiros;
  • ferrovias;
  • geração e transmissão de energia;
  • petróleo e gás;
  • mineração;
  • agricultura;
  • infraestrutura.

Quando o aço é caro, o custo se espalha por toda a cadeia produtiva.

A própria ABIMAQ identificou esse problema.

Em seu estudo sobre o Custo Brasil, a entidade calculou, naquele levantamento, uma diferença de custos da ordem de 44% para a produção nacional de bens de capital e apontou as matérias-primas como o fator de maior peso nesse diferencial.

Isso é particularmente grave.

O Brasil possui a matéria-prima.

Mas a empresa brasileira que transforma essa matéria-prima pode terminar competindo com uma máquina estrangeira produzida em condições mais favoráveis.

3. NÃO ADIANTA PROTEGER SOMENTE A SIDERURGIA

A siderurgia brasileira também precisa ser preservada.

Não seria inteligente destruir nossas siderúrgicas permitindo uma dependência permanente de aço importado.

Mas também não faz sentido proteger o produtor de aço de maneira que o preço pago pela indústria de transformação torne a máquina brasileira incapaz de competir.

Não podemos escolher entre:

siderurgia brasileira ou

indústria brasileira de máquinas e equipamentos.

Precisamos das duas.

A política correta deve procurar:

AÇO BRASILEIRO COMPETITIVO PARA UMA INDÚSTRIA BRASILEIRA COMPETITIVA.

4. PREÇO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO

No FS 191 propusemos o conceito de Preço Nacional de Desenvolvimento — PND para a energia.

O mesmo princípio pode ser estudado para matérias-primas estratégicas.

Não estamos propondo que empresas vendam abaixo de seus custos.

Não estamos propondo acabar com o lucro.

Não estamos propondo impedir exportações.

Propomos discutir mecanismos pelos quais recursos abundantes no Brasil possam proporcionar uma vantagem econômica para quem industrializa no próprio Brasil.

Para exportação:

PREÇO INTERNACIONAL

Para utilização em projetos industriais comprometidos com o desenvolvimento nacional:

CUSTO EFICIENTE + REMUNERAÇÃO ADEQUADA DO CAPITAL

Mas existe uma condição fundamental.

O benefício precisa atravessar a cadeia.

Não adianta oferecer minério em melhores condições à siderúrgica se o aço continuar chegando caro à fábrica de máquinas.

A lógica precisa ser:

minério competitivo

aço competitivo

máquina competitiva

mais investimento

mais empregos

mais produção

mais arrecadação.


5. MAS AÇO BARATO NÃO BASTA

Nossa discussão recente mostrou outro ponto fundamental.

Uma empresa de bens de capital precisa de matéria-prima competitiva.

Precisa de energia competitiva.

Precisa de financiamento.

Precisa de tecnologia.

Mas precisa, antes de tudo, de encomendas.

Bardella, Dedini e tantas outras empresas de engenharia pesada não fabricam grandes equipamentos para colocar numa prateleira esperando aparecer um comprador.

Elas produzem para projetos.

Uma refinaria gera encomendas.

Uma hidrelétrica gera encomendas.

Uma ferrovia gera encomendas.

Uma siderúrgica gera encomendas.

Um estaleiro gera encomendas.

Uma plataforma de petróleo gera encomendas.

Quando o investimento desaparece, desaparecem também as encomendas que sustentam engenharia, fábricas e fornecedores.

O caso da construção naval é um alerta: estudo do BNDES registra que o setor chegou a aproximadamente 80 mil empregos em 2014 e, em 2021, tinha menos de 15 mil empregos formais nos estaleiros. O próprio estudo observa que diferentes países utilizam políticas públicas para evitar a perda de capacidade industrial naval.

Portanto:

Não existe indústria de base forte sem demanda permanente por seus produtos.

6. O BRASIL PRECISA COMPRAR DESENVOLVIMENTO

Quando o Estado concede uma vantagem econômica, ela não deve simplesmente aumentar a margem de lucro de uma empresa.

Precisa haver contrapartida.

Investimento.

Produção no Brasil.

Emprego.

Engenharia.

Tecnologia.

Fornecedores nacionais.

Exportações.

Agregação de valor.

Empresas brasileiras, com centro de decisão no país, possuem importância especial nesse processo.

Multinacionais também podem participar e contribuir muito, desde que transformem as vantagens recebidas em fábricas, tecnologia, empregos, fornecedores e investimentos realizados no Brasil.

A pergunta deve ser sempre:

Quanto desenvolvimento brasileiro será produzido pela vantagem oferecida pelo Brasil?

7. MINÉRIO, AÇO E ENCOMENDA

Podemos resumir a política industrial que defendemos em três palavras:

MINÉRIO

Nossa riqueza natural.

AÇO

A transformação industrial dessa riqueza.

ENCOMENDA

A demanda que mantém fábricas, engenheiros, técnicos e fornecedores trabalhando.

Sem minério competitivo, a indústria perde competitividade.

Sem aço competitivo, a máquina brasileira fica cara.

Sem encomenda, a própria fábrica desaparece.

Por isso o Preço Nacional de Desenvolvimento precisa ser mais do que uma política de preços.

Precisa fazer parte de uma estratégia nacional de industrialização.

O Brasil possui minério.

Possui energia.

Possui engenheiros.

Possui trabalhadores.

Possui empresas capazes de fabricar equipamentos complexos.

O que precisamos é utilizar essas vantagens para desenvolver o próprio país.

Exportar minério é importante.

Produzir aço é melhor.

Transformar esse aço em máquinas, tecnologia e fábricas brasileiras é desenvolvimento.

A RIQUEZA É BRASILEIRA.

A VANTAGEM PRECISA CHEGAR À INDÚSTRIA BRASILEIRA.

E A INDÚSTRIA PRECISA VOLTAR A CRESCER.

Próximo artigo

FS 193 — PETROBRAS, INVESTIMENTOS E INDÚSTRIA DE BASE

No próximo Fala Sério analisaremos uma questão decisiva:

O que aconteceu com a indústria brasileira quando uma de suas maiores compradoras de equipamentos reduziu drasticamente investimentos e encomendas?

Vamos examinar:

  • paralisação de grandes projetos;
  • refinarias Premium;
  • investimentos da Petrobras;
  • indústria naval;
  • fornecedores de equipamentos;
  • política de conteúdo nacional;
  • venda de ativos;
  • geração de caixa;
  • investimentos versus dividendos;
  • Jones Act nos Estados Unidos;
  • BR do Mar no Brasil.

O objetivo será responder a uma pergunta:

Uma grande empresa estatal deve ser avaliada apenas pelo lucro e pelos dividendos que distribui ou também pelo desenvolvimento econômico que é capaz de gerar ao seu redor?

CRITICAS, OPINIÕES, SUFESTÕES : SOBERANOBRAILES@GMAIL.COM

REFERÊNCIAS

AGÊNCIA NACIONAL DE MINERAÇÃO — ANM. Sumário Mineral Brasileiro 2025 — Ferro. Produção, reservas e comércio exterior, ano-base 2024.

WORLD STEEL ASSOCIATION. 2025 Global Crude Steel Production. Produção mundial de aço bruto e classificação dos países produtores.

ABIMAQ. Estudo Custo Brasil. Avaliação dos diferenciais de competitividade da indústria brasileira de máquinas e equipamentos e do peso das matérias-primas.

BNDES. Estratégias e políticas públicas para o setor naval. Evolução da indústria naval brasileira e políticas internacionais de sustentação do setor.

WhatsApp
Facebook
Twitter
LinkedIn
Telegram

Endereço

BRASIL

Fale conosco

© Copyright 2022 Soberano Brasil. Todos os direitos reservados.