Claudio da Costa Oliveira Agosto 2026
O Brasil tem a energia. A indústria precisa receber essa vantagem.
O Brasil possui uma das condições energéticas mais favoráveis do mundo.
Tem água, sol, vento, biomassa, petróleo, gás natural e enorme extensão territorial. Em 2025, 86,8% da matriz elétrica brasileira foi formada por fontes renováveis.
Poucos países industrializados dispõem de uma vantagem natural dessa dimensão.
Entretanto, existe uma contradição.
A abundância e a elevada renovabilidade da energia brasileira ainda não se transformaram plenamente em vantagem competitiva para a indústria nacional.
E quem está dizendo isso não é apenas o Soberano Brasil.
É a própria indústria brasileira.
1. O que dizem 1.498 indústrias brasileiras
Em julho de 2026, a Confederação Nacional da Indústria — CNI — divulgou a Sondagem Especial Indústria e Energia, realizada com 1.498 empresas dos setores extrativo e de transformação.
Os resultados são significativos:
- 83% consideram o custo da energia importante para sua competitividade;
- 67% afirmam que o aumento das tarifas afeta diretamente seus custos de produção;
- 79% utilizam a eletricidade como principal insumo energético;
- 64% adotaram alguma medida para economizar energia ou reduzir o custo tarifário.
Não estamos, portanto, tratando de uma hipótese.
A própria indústria está dizendo que energia é competitividade.
Se o custo sobe, aumenta o custo de produção.
Se o custo de produção aumenta, o produto brasileiro perde capacidade de competir tanto no mercado interno como no mercado externo.
2. As empresas procuram fugir do alto custo
A pesquisa da CNI revelou outro dado importante.
41% das indústrias pesquisadas migraram para o mercado livre de energia desde 2024.
Entre aquelas que fizeram a mudança, 73% informaram redução no custo da eletricidade. Entre as grandes empresas atendidas em alta tensão, 63% já compram energia no mercado livre.
Isso demonstra que as próprias empresas estão procurando alternativas para reduzir um custo que prejudica sua competitividade.
O mercado livre representa uma evolução importante.
Mas não resolve todo o problema.
Transmissão, distribuição e operação do sistema precisam ser remuneradas.
Além disso, encargos, subsídios e tributos continuam fazendo parte da formação do preço da eletricidade.
A questão central permanece:
Por que um país tão bem dotado de recursos energéticos não consegue fazer da energia barata uma de suas principais vantagens industriais?
3. Encargos, impostos e políticas públicas
A CNI também chama atenção para o peso dos encargos e impostos na conta de eletricidade e para o crescimento da Conta de Desenvolvimento Energético — CDE.
Para 2026, o orçamento da CDE foi calculado pela ANEEL em R$ 52,7 bilhões, contra aproximadamente R$ 14 bilhões em 2017.
A CDE financia diferentes políticas públicas e subsídios do setor elétrico.
Muitas delas possuem objetivos legítimos.
Mas é necessário fazer uma pergunta:
Políticas de interesse de toda a sociedade devem ser financiadas através do preço de um insumo essencial à produção industrial?
Quando se coloca uma política pública dentro da conta de energia, ela passa a fazer parte do custo da indústria.
E esse custo termina incorporado ao preço do produto brasileiro.
4. A questão já preocupa organismos internacionais
No relatório Brazil 2025, a Agência Internacional de Energia reconhece as vantagens do sistema elétrico brasileiro, mas faz uma advertência clara: os preços da eletricidade precisam ser contidos para favorecer a eletrificação, a acessibilidade e a competitividade industrial.
Portanto, esta não é uma discussão ideológica.
É econômica.
Energia cara reduz competitividade.
5. A indústria pode transformar energia em desenvolvimento
Estudo realizado pela Strategy&, a pedido da ABRACE Energia, analisou aproximadamente 30 rotas industriais relacionadas à transição energética e à reindustrialização.
O trabalho estima que, com condições adequadas de competitividade, essas atividades poderiam acrescentar aproximadamente R$ 1 trilhão ao PIB, criar 3 milhões de empregos e acrescentar cerca de 10 GW médios de demanda elétrica até 2030.
O estudo destaca justamente a necessidade de:
- energia competitiva;
- redução de encargos;
- investimentos em infraestrutura;
- financiamento;
- inovação;
- fortalecimento das cadeias produtivas nacionais.
Há aí uma conclusão fundamental:
Energia mais barata não significa necessariamente menor arrecadação ou menor resultado econômico.
Pode significar:
mais investimento → mais produção → mais empregos → mais renda → mais consumo → mais arrecadação.
6. A ABIMAQ e o Custo Brasil
A ABIMAQ acompanha há anos o chamado Custo Brasil, avaliando as assimetrias que prejudicam a competitividade da indústria brasileira de máquinas e equipamentos.
A entidade mantém inclusive um relatório periódico destinado a mensurar esses fatores sistêmicos.
Em estudos anteriores, a ABIMAQ mostrou também a importância dos preços das matérias-primas na perda de competitividade dos bens de capital produzidos no país.
Isso mostra que o problema é mais amplo.
Não é apenas energia.
É:
energia;
matérias-primas;
tributação;
capital;
logística;
tecnologia;
burocracia.
Por isso, este FS 191 é apenas o primeiro de uma série.
7. O PREÇO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO
O Soberano Brasil propõe discutir um princípio simples:
Recursos estratégicos produzidos no Brasil e destinados à produção nacional devem chegar à indústria em condições capazes de gerar competitividade, investimento e desenvolvimento.
Chamamos essa proposta de:
PREÇO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO — PND
No caso da eletricidade, isso não significa energia gratuita.
Não significa impedir a remuneração de quem investe na geração.
Não significa eliminar os custos necessários de transmissão, distribuição e segurança do sistema.
Significa procurar um preço formado por:
custo eficiente da geração
+ transmissão
+ distribuição
+ operação e segurança
+ remuneração adequada do capital
= preço competitivo para produzir no Brasil.
Encargos, subsídios cruzados e políticas públicas de interesse geral precisam ser permanentemente examinados para saber se devem realmente estar incorporados ao custo do MWh utilizado pela produção.
8. ENERGIA BARATA PARA QUÊ?
Aqui aparece uma questão fundamental.
Não defendemos energia barata simplesmente para aumentar a margem de lucro das empresas.
Se o Brasil oferece uma vantagem econômica utilizando seus recursos naturais, sua infraestrutura e sua capacidade energética, é razoável exigir que essa vantagem produza resultados para o próprio país.
O Preço Nacional de Desenvolvimento precisa estar ligado a:
- novos investimentos;
- aumento da produção;
- geração de empregos;
- desenvolvimento tecnológico;
- formação de engenheiros e técnicos;
- fortalecimento de fornecedores nacionais;
- substituição competitiva de importações;
- aumento das exportações;
- agregação de valor aos recursos naturais brasileiros.
Em resumo:
O PND não é energia barata para aumentar lucros. É energia competitiva em troca de desenvolvimento brasileiro.
9. EMPRESA BRASILEIRA E EMPRESA MULTINACIONAL NÃO SÃO A MESMA COISA
Existe uma diferença que não pode ser ignorada.
Uma empresa genuinamente brasileira, de controle nacional, normalmente possui no Brasil seu centro de decisões estratégicas.
É aqui que decide onde investir.
É aqui que define novos produtos.
É aqui que escolhe seus fornecedores.
É aqui que forma engenheiros, técnicos e administradores.
É aqui que seu crescimento tende a produzir efeitos permanentes sobre a economia nacional.
Uma multinacional instalada no Brasil possui uma lógica diferente.
Seu centro final de decisões encontra-se no exterior e sua operação brasileira faz parte de uma estratégia mundial.
Isso é natural.
A empresa multinacional deve pensar no interesse do grupo ao qual pertence.
Ela pode decidir produzir determinado equipamento no Brasil.
Mas pode também decidir produzi-lo no México, na China, nos Estados Unidos, na Europa ou em qualquer outro país que ofereça melhores condições dentro de sua estratégia mundial.
O interesse empresarial da multinacional não é necessariamente igual ao interesse nacional brasileiro.
Não existe ilegalidade nisso.
Existe apenas uma diferença de objetivos.
E uma política nacional de desenvolvimento precisa reconhecer essa diferença.
10. PRIORIDADE À EMPRESA BRASILEIRA
Por esse motivo, o Soberano Brasil entende que empresas genuinamente brasileiras, comprometidas com a expansão da produção e da tecnologia no país, devem ocupar posição prioritária numa estratégia nacional de desenvolvimento.
Empresas que possuem no Brasil:
- capital decisório;
- comando estratégico;
- engenharia;
- pesquisa;
- fornecedores;
- empregos;
- investimentos;
- e compromisso de longo prazo com a economia nacional.
Quando uma empresa brasileira cresce, existe maior possibilidade de que seu centro de decisões, sua tecnologia e parcela relevante dos resultados permaneçam ligados ao desenvolvimento do próprio país.
É por isso que pretendemos procurar inicialmente empresas brasileiras de controle nacional para discutir o projeto do Preço Nacional de Desenvolvimento.
Não buscamos apenas patrocinadores.
Buscamos parceiros que tenham interesse real no desenvolvimento da produção brasileira.
11. E AS MULTINACIONAIS?
Isso não significa excluir empresas estrangeiras instaladas no Brasil.
Multinacionais podem realizar investimentos extremamente importantes.
Podem construir fábricas.
Podem gerar milhares de empregos.
Podem exportar a partir do Brasil.
Podem criar centros de engenharia e pesquisa.
Podem desenvolver fornecedores brasileiros.
Quando isso ocorre, elas também contribuem para o desenvolvimento nacional.
Mas uma vantagem concedida pelo Brasil não deveria ser automática.
Ela deve estar ligada ao resultado produzido aqui.
Uma multinacional que pretenda receber condições especiais do PND deveria assumir compromissos objetivos, por exemplo:
- construir ou ampliar fábricas no Brasil;
- aumentar o conteúdo produzido nacionalmente;
- estabelecer centros de pesquisa e engenharia no país;
- desenvolver fornecedores brasileiros;
- transferir ou desenvolver tecnologia;
- formar mão de obra qualificada;
- exportar produtos fabricados no Brasil;
- reinvestir parcela relevante dos resultados;
- agregar valor às matérias-primas brasileiras.
A pergunta deve ser sempre:
Qual é o retorno para o Brasil da vantagem que o Brasil está oferecendo?
12. DOIS EXEMPLOS
Imagine duas empresas recebendo eletricidade em condições excepcionalmente competitivas.
Empresa A
Recebe energia barata e, em contrapartida:
- constrói uma nova fábrica;
- compra máquinas produzidas no país;
- contrata engenheiros brasileiros;
- desenvolve fornecedores locais;
- cria um centro tecnológico;
- aumenta as exportações.
Empresa B
Recebe exatamente a mesma vantagem, mas:
- mantém a tecnologia no exterior;
- importa a maior parte dos componentes;
- não amplia significativamente sua capacidade produtiva;
- não desenvolve fornecedores locais;
- utiliza a redução do custo principalmente para aumentar sua rentabilidade.
As duas empresas não estão produzindo o mesmo resultado para o Brasil.
Não faz sentido que recebam o mesmo tratamento dentro de uma política destinada ao desenvolvimento nacional.
13. O BENEFÍCIO PRECISA TER CONTRAPARTIDA
O PND, portanto, não deve ser um subsídio indiscriminado.
O benefício precisa estar associado a metas.
A empresa recebe determinada vantagem enquanto cumprir compromissos de:
investimento;
produção;
emprego;
tecnologia;
exportação;
conteúdo nacional;
desenvolvimento regional.
Os resultados precisam ser medidos.
Se as metas forem cumpridas, o benefício continua.
Se não forem, deve ser revisto.
Assim se evita transformar política industrial em privilégio empresarial.
14. O ERRO DE OLHAR SOMENTE PARA A ARRECADAÇÃO INICIAL
Quando se propõe reduzir encargos ou custos sobre a energia, surge imediatamente a pergunta:
Quanto o governo deixará de arrecadar?
Mas esta é apenas metade da conta.
É preciso perguntar também:
Quanto o governo passará a arrecadar se houver mais investimento e produção?
Uma nova fábrica:
- paga impostos;
- emprega trabalhadores;
- compra matérias-primas;
- contrata serviços;
- utiliza transporte;
- desenvolve fornecedores;
- vende produtos;
- exporta;
- gera salários e renda.
Os empregados consomem.
Os fornecedores investem.
Novas empresas aparecem.
O PIB cresce.
Portanto, uma redução bem estruturada do custo na origem pode produzir maior arrecadação ao final da cadeia.
Esse é um dos pontos que o OBED — Observatório Brasileiro da Energia e do Desenvolvimento — pretende estudar.
15. TRANSFORMAR VANTAGEM NATURAL EM VANTAGEM ECONÔMICA
O Brasil já possui aquilo que muitos países gostariam de ter.
Uma matriz elétrica fortemente renovável.
Água.
Sol.
Vento.
Biomassa.
Gás.
Recursos naturais.
Engenheiros.
Trabalhadores.
Empresas capazes de competir internacionalmente.
A questão é:
vamos utilizar essas vantagens simplesmente para gerar receita imediata ou para construir uma grande economia industrial?
O objetivo precisa ser fazer com que a energia brasileira seja:
ABUNDANTE
CONSTANTE
LIMPA
E BARATA
Mas com uma finalidade muito clara:
PRODUZIR DESENVOLVIMENTO BRASILEIRO.
16. UM CONVITE ÀS EMPRESAS BRASILEIRAS
O Soberano Brasil e o OBED — Observatório Brasileiro da Energia e do Desenvolvimento pretendem aprofundar esta discussão prioritariamente com empresas brasileiras comprometidas com o desenvolvimento nacional.
Queremos ouvir quem produz.
Queremos saber:
Quanto a energia representa em seus custos?
Como esse custo se compara ao de seus concorrentes internacionais?
Quanto sua empresa poderia investir se tivesse energia mais competitiva?
Quantos empregos poderiam ser gerados?
Quanto a produção poderia aumentar?
Quais tecnologias poderiam ser desenvolvidas no Brasil?
Quantos fornecedores brasileiros poderiam ser criados ou fortalecidos?
Quanto o país arrecadaria com essa expansão econômica?
Não estamos propondo benefício para determinada empresa.
Estamos propondo discutir um projeto de país.
Porque:
O Brasil deve utilizar suas vantagens econômicas prioritariamente em favor daqueles que transformam essas vantagens em investimento, tecnologia, produção, emprego e renda no próprio Brasil.
Energia não deve ser vista apenas como fonte de arrecadação.
ENERGIA É INSTRUMENTO DE DESENVOLVIMENTO.
CRÍTICAS, OPINIÕES, SUGESTÕES : soberanobrasiles@gmail.com
Referências
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA — CNI. Sondagem Especial Indústria e Energia 2026. Pesquisa realizada com 1.498 empresas industriais.
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA — CNI. Construindo o Brasil 2050 — Energia. Dados e propostas sobre encargos, CDE e competitividade.
EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA — EPE. Balanço Energético Nacional 2026 — Relatório Síntese, ano-base 2025.
INTERNATIONAL ENERGY AGENCY — IEA. Brazil 2025 — Energy Policy Review.
ABRACE ENERGIA / Strategy&. Transição energética como driver da reindustrialização.
ABIMAQ. Estudos e dados sobre Custo Brasil e competitividade da indústria brasileira de máquinas e equipamentos.
FALA SERIO 188 : Preço Nacional de Desenvolvimento Agosto 2026O Brasil tem a energia. A indústria precisa receber essa vantagem.
O Brasil possui uma das condições energéticas mais favoráveis do mundo.
Tem água, sol, vento, biomassa, petróleo, gás natural e enorme extensão territorial. Em 2025, 86,8% da matriz elétrica brasileira foi formada por fontes renováveis.
Poucos países industrializados dispõem de uma vantagem natural dessa dimensão.
Entretanto, existe uma contradição.
A abundância e a elevada renovabilidade da energia brasileira ainda não se transformaram plenamente em vantagem competitiva para a indústria nacional.
E quem está dizendo isso não é apenas o Soberano Brasil.
É a própria indústria brasileira.
1. O que dizem 1.498 indústrias brasileiras
Em julho de 2026, a Confederação Nacional da Indústria — CNI — divulgou a Sondagem Especial Indústria e Energia, realizada com 1.498 empresas dos setores extrativo e de transformação.
Os resultados são significativos:
- 83% consideram o custo da energia importante para sua competitividade;
- 67% afirmam que o aumento das tarifas afeta diretamente seus custos de produção;
- 79% utilizam a eletricidade como principal insumo energético;
- 64% adotaram alguma medida para economizar energia ou reduzir o custo tarifário.
Não estamos, portanto, tratando de uma hipótese.
A própria indústria está dizendo que energia é competitividade.
Se o custo sobe, aumenta o custo de produção.
Se o custo de produção aumenta, o produto brasileiro perde capacidade de competir tanto no mercado interno como no mercado externo.
2. As empresas procuram fugir do alto custo
A pesquisa da CNI revelou outro dado importante.
41% das indústrias pesquisadas migraram para o mercado livre de energia desde 2024.
Entre aquelas que fizeram a mudança, 73% informaram redução no custo da eletricidade. Entre as grandes empresas atendidas em alta tensão, 63% já compram energia no mercado livre.
Isso demonstra que as próprias empresas estão procurando alternativas para reduzir um custo que prejudica sua competitividade.
O mercado livre representa uma evolução importante.
Mas não resolve todo o problema.
Transmissão, distribuição e operação do sistema precisam ser remuneradas.
Além disso, encargos, subsídios e tributos continuam fazendo parte da formação do preço da eletricidade.
A questão central permanece:
Por que um país tão bem dotado de recursos energéticos não consegue fazer da energia barata uma de suas principais vantagens industriais?
3. Encargos, impostos e políticas públicas
A CNI também chama atenção para o peso dos encargos e impostos na conta de eletricidade e para o crescimento da Conta de Desenvolvimento Energético — CDE.
Para 2026, o orçamento da CDE foi calculado pela ANEEL em R$ 52,7 bilhões, contra aproximadamente R$ 14 bilhões em 2017.
A CDE financia diferentes políticas públicas e subsídios do setor elétrico.
Muitas delas possuem objetivos legítimos.
Mas é necessário fazer uma pergunta:
Políticas de interesse de toda a sociedade devem ser financiadas através do preço de um insumo essencial à produção industrial?
Quando se coloca uma política pública dentro da conta de energia, ela passa a fazer parte do custo da indústria.
E esse custo termina incorporado ao preço do produto brasileiro.
4. A questão já preocupa organismos internacionais
No relatório Brazil 2025, a Agência Internacional de Energia reconhece as vantagens do sistema elétrico brasileiro, mas faz uma advertência clara: os preços da eletricidade precisam ser contidos para favorecer a eletrificação, a acessibilidade e a competitividade industrial.
Portanto, esta não é uma discussão ideológica.
É econômica.
Energia cara reduz competitividade.
5. A indústria pode transformar energia em desenvolvimento
Estudo realizado pela Strategy&, a pedido da ABRACE Energia, analisou aproximadamente 30 rotas industriais relacionadas à transição energética e à reindustrialização.
O trabalho estima que, com condições adequadas de competitividade, essas atividades poderiam acrescentar aproximadamente R$ 1 trilhão ao PIB, criar 3 milhões de empregos e acrescentar cerca de 10 GW médios de demanda elétrica até 2030.
O estudo destaca justamente a necessidade de:
- energia competitiva;
- redução de encargos;
- investimentos em infraestrutura;
- financiamento;
- inovação;
- fortalecimento das cadeias produtivas nacionais.
Há aí uma conclusão fundamental:
Energia mais barata não significa necessariamente menor arrecadação ou menor resultado econômico.
Pode significar:
mais investimento → mais produção → mais empregos → mais renda → mais consumo → mais arrecadação.
6. A ABIMAQ e o Custo Brasil
A ABIMAQ acompanha há anos o chamado Custo Brasil, avaliando as assimetrias que prejudicam a competitividade da indústria brasileira de máquinas e equipamentos.
A entidade mantém inclusive um relatório periódico destinado a mensurar esses fatores sistêmicos.
Em estudos anteriores, a ABIMAQ mostrou também a importância dos preços das matérias-primas na perda de competitividade dos bens de capital produzidos no país.
Isso mostra que o problema é mais amplo.
Não é apenas energia.
É:
energia;
matérias-primas;
tributação;
capital;
logística;
tecnologia;
burocracia.
Por isso, este FS 191 é apenas o primeiro de uma série.
7. O PREÇO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO
O Soberano Brasil propõe discutir um princípio simples:
Recursos estratégicos produzidos no Brasil e destinados à produção nacional devem chegar à indústria em condições capazes de gerar competitividade, investimento e desenvolvimento.
Chamamos essa proposta de:
PREÇO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO — PND
No caso da eletricidade, isso não significa energia gratuita.
Não significa impedir a remuneração de quem investe na geração.
Não significa eliminar os custos necessários de transmissão, distribuição e segurança do sistema.
Significa procurar um preço formado por:
custo eficiente da geração
+ transmissão
+ distribuição
+ operação e segurança
+ remuneração adequada do capital
= preço competitivo para produzir no Brasil.
Encargos, subsídios cruzados e políticas públicas de interesse geral precisam ser permanentemente examinados para saber se devem realmente estar incorporados ao custo do MWh utilizado pela produção.
8. ENERGIA BARATA PARA QUÊ?
Aqui aparece uma questão fundamental.
Não defendemos energia barata simplesmente para aumentar a margem de lucro das empresas.
Se o Brasil oferece uma vantagem econômica utilizando seus recursos naturais, sua infraestrutura e sua capacidade energética, é razoável exigir que essa vantagem produza resultados para o próprio país.
O Preço Nacional de Desenvolvimento precisa estar ligado a:
- novos investimentos;
- aumento da produção;
- geração de empregos;
- desenvolvimento tecnológico;
- formação de engenheiros e técnicos;
- fortalecimento de fornecedores nacionais;
- substituição competitiva de importações;
- aumento das exportações;
- agregação de valor aos recursos naturais brasileiros.
Em resumo:
O PND não é energia barata para aumentar lucros. É energia competitiva em troca de desenvolvimento brasileiro.
9. EMPRESA BRASILEIRA E EMPRESA MULTINACIONAL NÃO SÃO A MESMA COISA
Existe uma diferença que não pode ser ignorada.
Uma empresa genuinamente brasileira, de controle nacional, normalmente possui no Brasil seu centro de decisões estratégicas.
É aqui que decide onde investir.
É aqui que define novos produtos.
É aqui que escolhe seus fornecedores.
É aqui que forma engenheiros, técnicos e administradores.
É aqui que seu crescimento tende a produzir efeitos permanentes sobre a economia nacional.
Uma multinacional instalada no Brasil possui uma lógica diferente.
Seu centro final de decisões encontra-se no exterior e sua operação brasileira faz parte de uma estratégia mundial.
Isso é natural.
A empresa multinacional deve pensar no interesse do grupo ao qual pertence.
Ela pode decidir produzir determinado equipamento no Brasil.
Mas pode também decidir produzi-lo no México, na China, nos Estados Unidos, na Europa ou em qualquer outro país que ofereça melhores condições dentro de sua estratégia mundial.
O interesse empresarial da multinacional não é necessariamente igual ao interesse nacional brasileiro.
Não existe ilegalidade nisso.
Existe apenas uma diferença de objetivos.
E uma política nacional de desenvolvimento precisa reconhecer essa diferença.
10. PRIORIDADE À EMPRESA BRASILEIRA
Por esse motivo, o Soberano Brasil entende que empresas genuinamente brasileiras, comprometidas com a expansão da produção e da tecnologia no país, devem ocupar posição prioritária numa estratégia nacional de desenvolvimento.
Empresas que possuem no Brasil:
- capital decisório;
- comando estratégico;
- engenharia;
- pesquisa;
- fornecedores;
- empregos;
- investimentos;
- e compromisso de longo prazo com a economia nacional.
Quando uma empresa brasileira cresce, existe maior possibilidade de que seu centro de decisões, sua tecnologia e parcela relevante dos resultados permaneçam ligados ao desenvolvimento do próprio país.
É por isso que pretendemos procurar inicialmente empresas brasileiras de controle nacional para discutir o projeto do Preço Nacional de Desenvolvimento.
Não buscamos apenas patrocinadores.
Buscamos parceiros que tenham interesse real no desenvolvimento da produção brasileira.
11. E AS MULTINACIONAIS?
Isso não significa excluir empresas estrangeiras instaladas no Brasil.
Multinacionais podem realizar investimentos extremamente importantes.
Podem construir fábricas.
Podem gerar milhares de empregos.
Podem exportar a partir do Brasil.
Podem criar centros de engenharia e pesquisa.
Podem desenvolver fornecedores brasileiros.
Quando isso ocorre, elas também contribuem para o desenvolvimento nacional.
Mas uma vantagem concedida pelo Brasil não deveria ser automática.
Ela deve estar ligada ao resultado produzido aqui.
Uma multinacional que pretenda receber condições especiais do PND deveria assumir compromissos objetivos, por exemplo:
- construir ou ampliar fábricas no Brasil;
- aumentar o conteúdo produzido nacionalmente;
- estabelecer centros de pesquisa e engenharia no país;
- desenvolver fornecedores brasileiros;
- transferir ou desenvolver tecnologia;
- formar mão de obra qualificada;
- exportar produtos fabricados no Brasil;
- reinvestir parcela relevante dos resultados;
- agregar valor às matérias-primas brasileiras.
A pergunta deve ser sempre:
Qual é o retorno para o Brasil da vantagem que o Brasil está oferecendo?
12. DOIS EXEMPLOS
Imagine duas empresas recebendo eletricidade em condições excepcionalmente competitivas.
Empresa A
Recebe energia barata e, em contrapartida:
- constrói uma nova fábrica;
- compra máquinas produzidas no país;
- contrata engenheiros brasileiros;
- desenvolve fornecedores locais;
- cria um centro tecnológico;
- aumenta as exportações.
Empresa B
Recebe exatamente a mesma vantagem, mas:
- mantém a tecnologia no exterior;
- importa a maior parte dos componentes;
- não amplia significativamente sua capacidade produtiva;
- não desenvolve fornecedores locais;
- utiliza a redução do custo principalmente para aumentar sua rentabilidade.
As duas empresas não estão produzindo o mesmo resultado para o Brasil.
Não faz sentido que recebam o mesmo tratamento dentro de uma política destinada ao desenvolvimento nacional.
13. O BENEFÍCIO PRECISA TER CONTRAPARTIDA
O PND, portanto, não deve ser um subsídio indiscriminado.
O benefício precisa estar associado a metas.
A empresa recebe determinada vantagem enquanto cumprir compromissos de:
investimento;
produção;
emprego;
tecnologia;
exportação;
conteúdo nacional;
desenvolvimento regional.
Os resultados precisam ser medidos.
Se as metas forem cumpridas, o benefício continua.
Se não forem, deve ser revisto.
Assim se evita transformar política industrial em privilégio empresarial.
14. O ERRO DE OLHAR SOMENTE PARA A ARRECADAÇÃO INICIAL
Quando se propõe reduzir encargos ou custos sobre a energia, surge imediatamente a pergunta:
Quanto o governo deixará de arrecadar?
Mas esta é apenas metade da conta.
É preciso perguntar também:
Quanto o governo passará a arrecadar se houver mais investimento e produção?
Uma nova fábrica:
- paga impostos;
- emprega trabalhadores;
- compra matérias-primas;
- contrata serviços;
- utiliza transporte;
- desenvolve fornecedores;
- vende produtos;
- exporta;
- gera salários e renda.
Os empregados consomem.
Os fornecedores investem.
Novas empresas aparecem.
O PIB cresce.
Portanto, uma redução bem estruturada do custo na origem pode produzir maior arrecadação ao final da cadeia.
Esse é um dos pontos que o OBED — Observatório Brasileiro da Energia e do Desenvolvimento — pretende estudar.
15. TRANSFORMAR VANTAGEM NATURAL EM VANTAGEM ECONÔMICA
O Brasil já possui aquilo que muitos países gostariam de ter.
Uma matriz elétrica fortemente renovável.
Água.
Sol.
Vento.
Biomassa.
Gás.
Recursos naturais.
Engenheiros.
Trabalhadores.
Empresas capazes de competir internacionalmente.
A questão é:
vamos utilizar essas vantagens simplesmente para gerar receita imediata ou para construir uma grande economia industrial?
O objetivo precisa ser fazer com que a energia brasileira seja:
ABUNDANTE
CONSTANTE
LIMPA
E BARATA
Mas com uma finalidade muito clara:
PRODUZIR DESENVOLVIMENTO BRASILEIRO.
16. UM CONVITE ÀS EMPRESAS BRASILEIRAS
O Soberano Brasil e o OBED — Observatório Brasileiro da Energia e do Desenvolvimento pretendem aprofundar esta discussão prioritariamente com empresas brasileiras comprometidas com o desenvolvimento nacional.
Queremos ouvir quem produz.
Queremos saber:
Quanto a energia representa em seus custos?
Como esse custo se compara ao de seus concorrentes internacionais?
Quanto sua empresa poderia investir se tivesse energia mais competitiva?
Quantos empregos poderiam ser gerados?
Quanto a produção poderia aumentar?
Quais tecnologias poderiam ser desenvolvidas no Brasil?
Quantos fornecedores brasileiros poderiam ser criados ou fortalecidos?
Quanto o país arrecadaria com essa expansão econômica?
Não estamos propondo benefício para determinada empresa.
Estamos propondo discutir um projeto de país.
Porque:
O Brasil deve utilizar suas vantagens econômicas prioritariamente em favor daqueles que transformam essas vantagens em investimento, tecnologia, produção, emprego e renda no próprio Brasil.
Energia não deve ser vista apenas como fonte de arrecadação.
ENERGIA É INSTRUMENTO DE DESENVOLVIMENTO.
CRÍTICAS, OPINIÕES, SUGESTÕES : soberanobrasiles@gmail.com
Referências
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA — CNI. Sondagem Especial Indústria e Energia 2026. Pesquisa realizada com 1.498 empresas industriais.
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA — CNI. Construindo o Brasil 2050 — Energia. Dados e propostas sobre encargos, CDE e competitividade.
EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA — EPE. Balanço Energético Nacional 2026 — Relatório Síntese, ano-base 2025.
INTERNATIONAL ENERGY AGENCY — IEA. Brazil 2025 — Energy Policy Review.
ABRACE ENERGIA / Strategy&. Transição energética como driver da reindustrialização.
ABIMAQ. Estudos e dados sobre Custo Brasil e competitividade da indústria brasileira de máquinas e equipamentos.
FALA SERIO 188 : Preço Nacional de Desenvolvimento Agosto 2026