FALA SÉRIO 189, A VERDADE NÃO CONHECIDA, A MENTIRA QUE VINGOU E O PAÍS QUE PAGOU.

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Claudio da Costa Oliveira     Agosto 2026 

Poucas empresas têm tanta importância para um país quanto a Petrobras tem para o Brasil.

E poucas empresas brasileiras foram tão mal compreendidas pela própria população.

Durante anos, milhões de brasileiros ouviram que a Petrobras estava “quebrada”. A afirmação foi repetida tantas vezes que acabou se transformando, para muita gente, em verdade.

Mas será que estava?

Antes de responder, é preciso compreender algo ainda mais importante: a Petrobras não é uma empresa qualquer.


1 – A importância da Petrobras para o Brasil

Quando a Petrobras investe, não compra apenas plataformas.

Compra aço, tubos, bombas, válvulas, transformadores, cabos, compressores, equipamentos submarinos e milhares de outros produtos. Contrata engenharia, construção, montagem, logística, informática, pesquisa e serviços.

Seus investimentos movimentam siderúrgicas, estaleiros, fabricantes de máquinas e equipamentos, universidades, centros de pesquisa e uma extensa cadeia de fornecedores.

Estudo do BNDES confirma que os investimentos da Petrobras produzem efeitos sobre outros setores da economia, sobre o emprego e sobre a inovação. A própria Petrobras estima atualmente que seus investimentos têm capacidade de sustentar centenas de milhares de empregos diretos e indiretos.

Por isso, observar apenas o lucro da Petrobras é enxergar uma pequena parte de sua importância.

Veja o que aconteceu quando seus investimentos atingiram o auge e depois despencaram:

AnoInvestimentos Petrobras – US$ bilhõesResultado primário do setor público – % PIBDívida Bruta/PIB
201348,1+1,7%51,5%
201437,0−0,6%56,3%
201523,1−1,9%65,5%
201615,9−2,5%69,8%

Os investimentos consolidados da Petrobras atingiram US$ 48,1 bilhões em 2013. Em apenas três anos caíram para aproximadamente US$ 15,9 bilhões, redução de cerca de 67%. No mesmo período, o Brasil passou de superávit para déficit primário e a relação dívida bruta/PIB aumentou fortemente.

Isso não permite afirmar que a redução dos investimentos da Petrobras, sozinha, causou a deterioração fiscal brasileira. Seria ignorar juros, recessão, política fiscal, preços internacionais, crise política e diversas outras variáveis.

Mas permite fazer uma pergunta:

É possível explicar a crise econômica brasileira daquele período ignorando a retirada de dezenas de bilhões de dólares anuais de investimentos da maior empresa do país?

Provavelmente não.

A mudança começou a ficar visível também no refino.

As refinarias Premium I, no Maranhão, e Premium II, no Ceará, poderiam acrescentar juntas cerca de 900 mil barris por dia à capacidade brasileira de refino. Os projetos foram abandonados no início de 2015, depois de investimentos que resultaram em aproximadamente R$ 2,8 bilhões de perdas reconhecidas, sendo cerca de R$ 2,2 bilhões na Premium I e R$ 0,6 bilhão na Premium II. O próprio TCU destacou que esses projetos tinham como objetivos agregar valor ao petróleo nacional, reduzir importações de derivados e produzir impactos econômicos e industriais no país.

O Brasil começava a produzir cada vez mais petróleo no pré-sal, mas desistia de uma enorme capacidade adicional de transformá-lo em derivados dentro do próprio país.


2 – A mentira da “Petrobras quebrada” e a atuação do PT

Em 2010 ocorreu um dos acontecimentos mais importantes da história da Petrobras.

Por meio da Cessão Onerosa, a companhia adquiriu da União o direito de produzir até 5 bilhões de barris equivalentes de petróleo em determinadas áreas do pré-sal. O valor atribuído à operação foi de aproximadamente US$ 42,5 bilhões, equivalente, naquele momento, a cerca de US$ 8,51 por barril ainda no subsolo.

Cinco bilhões de barris significam, apenas para demonstrar a dimensão econômica, uma receita bruta potencial de US$ 400 bilhões se o petróleo valer US$ 80 por barril.

Naturalmente, receita bruta não é lucro: há investimentos, custos operacionais, royalties, tributos e o valor do dinheiro no tempo.

Mas aqueles 5 bilhões de barris estavam nas mãos de uma companhia que já possuía décadas de experiência e tecnologia em exploração de águas profundas e ultraprofundas. Em 2015, a própria Petrobras informava mais de 10 bilhões de barris equivalentes de reservas provadas desenvolvidas e não desenvolvidas no Brasil e ressaltava sua experiência acumulada na exploração offshore.

Há ainda uma característica pouco conhecida da Cessão Onerosa: nesse regime não incide Participação Especial, cobrança existente nos grandes campos submetidos ao regime de concessão. Há royalties, além da tributação empresarial, mas não Participação Especial.

Foi justamente nesse período de gigantescas descobertas e investimentos que começou a prosperar a ideia de que a Petrobras havia “quebrado”.

A empresa tinha dívida elevada? Sim.

Havia corrupção e graves problemas de governança que precisavam ser investigados? Evidentemente.

Mas dívida, corrupção e prejuízo contábil não são sinônimos de falência.

Há um indicador pouco lembrado.

Em janeiro de 2008, títulos da Petrobras possuíam classificação Baa1 pela Moody’s e BBB− pela Standard & Poor’s e pela Fitch. As três classificações estavam dentro do chamado grau de investimento. A própria Petrobras afirmava que a emissão consolidava sua presença entre investidores dedicados a títulos de companhias investment grade.

E quando a Petrobras perdeu o grau de investimento?

Não foi em 2008, 2010, 2012 ou 2013.

As três agências retiraram a classificação somente ao longo de 2015:

AgênciaPerda do grau de investimento
Moody’sfevereiro de 2015
Standard & Poor’ssetembro de 2015
Fitchdezembro de 2015

A cronologia consta do próprio relatório anual da Petrobras arquivado na SEC.

Isso não significa que as agências considerassem inexistentes os riscos financeiros. Ao contrário: dívida, preço do petróleo, necessidade de financiamento, ambiente político e capacidade de execução dos investimentos eram fatores analisados pelas classificadoras.

Mas significa que durante anos as principais agências internacionais de risco consideraram a Petrobras merecedora de grau de investimento.

Desde 2015 a classificação global conjunta não retornou ao grau de investimento. Na emissão internacional realizada pela Petrobras em setembro de 2025, os títulos receberam BB da Fitch, Ba1 da Moody’s e BB da S&P, todas classificações globais abaixo do investment grade. Curiosamente, a própria Fitch considera atualmente o perfil de crédito isolado da Petrobras, sem a vinculação ao risco soberano brasileiro, equivalente a “bbb” — compatível com grau de investimento.

Esse é um detalhe revelador.

Mas o mais importante não é o que os políticos disseram na época. É o que fizeram.

Em 2015, sob o governo Dilma Rousseff, Aldemir Bendine assumiu a presidência da Petrobras. O Plano de Negócios passou a priorizar redução de investimentos, desalavancagem e desinvestimentos. O relatório de 2015 registra um programa de venda de ativos destinado a gerar caixa e servir à redução da dívida.

Até organizações ligadas historicamente aos trabalhadores da Petrobras demonstravam a gravidade com que tratavam a situação. Em setembro de 2015, publicação no próprio site do PT registrou que os trabalhadores da Petrobras haviam decidido não apresentar reivindicações salariais naquele ano, concentrando a campanha no fortalecimento da companhia e na proteção dos empregos. Ao mesmo tempo, a FUP combatia os desinvestimentos e, posteriormente naquele mesmo ano, publicaria textos afirmando explicitamente que a Petrobras não estava quebrada. A contradição merece ser lembrada.

A pergunta histórica, portanto, não deve ser apenas:

Quem disse que a Petrobras estava quebrada?

A pergunta mais importante é:

Por que foram tomadas decisões de redução de investimentos, abandono de projetos e venda de ativos como se a prioridade absoluta fosse salvar financeiramente uma companhia cuja extraordinária capacidade econômica estava demonstrada nos próprios balanços?

Existe outro número que aumenta ainda mais essa dúvida.

A relação entre a Geração Operacional de Caixa e a Receita de Vendas da Petrobras cresceu extraordinariamente.

Em 2025, a companhia registrou aproximadamente US$ 89,2 bilhões de receita de vendas e US$ 36,0 bilhões de caixa gerado pelas operações.

Isso significa:

GOC / Receita = 40,4%.

Nossa reconstrução da série histórica mostra uma transformação importante: a Petrobras estava na faixa próxima de 18%–25% em vários anos anteriores à grande mudança estratégica e passou, nos anos recentes, a apresentar percentuais próximos ou superiores a 40%.

Em comparação preliminar, grandes petrolíferas internacionais como Shell, ExxonMobil, Chevron, BP e TotalEnergies apresentam normalmente relações muito inferiores; nos dados recentes examinados, a ordem de grandeza ficou aproximadamente entre 13% e 18%. As diferenças de modelo de negócio, participação de refino, comercialização e outras atividades exigem cuidado na comparação, mas uma diferença dessa magnitude merece investigação.

A pergunta é simples:

Como a Petrobras passou de grande investidora integrada para uma companhia capaz de transformar parcela tão elevada de sua receita em caixa?

Pré-sal de enorme produtividade, redução de custos, mudança do portfólio, venda de ativos, menor participação de negócios de margens menores, política de preços e regime tributário são algumas das explicações possíveis.

Mas, novamente, o povo brasileiro deveria conhecer os números.


3 – Petrobras x Equinor: de quem é a riqueza do petróleo?

O petróleo existente no subsolo brasileiro não pertence à Petrobras.

Pertence à União.

A Petrobras é o instrumento empresarial utilizado para transformar parte dessa riqueza em produção, derivados, tecnologia, empregos, impostos, dividendos e desenvolvimento.

A Noruega partiu de princípio semelhante, mas construiu um sistema muito particular para garantir que uma parcela extraordinariamente elevada da renda petrolífera permaneça com a sociedade.

A comparação é reveladora:

BrasilNoruega
Grande empresa petrolíferaPetrobrasEquinor
Estado controla a empresaSimSim – 67% da Equinor
Petróleo do subsolo pertence ao EstadoSimSim
Tributação petrolíferaVaria segundo o regime78% de alíquota marginal combinada
Participação direta do Estado em camposExiste em formas próprias do regime de partilhaSDFI/Petoro
Participação EspecialExiste nas grandes concessões; não incide na Cessão OnerosaSistema próprio de tributação especial
Destinação estratégica da rendaDiversos mecanismosForte captura pública e acumulação financeira estatal

Na Noruega, as empresas de petróleo pagam uma alíquota marginal combinada de 78% sobre o lucro petrolífero. Além disso, o Estado norueguês possui 67% da Equinor e participa diretamente de campos, oleodutos e instalações por meio do SDFI, recebendo sua parcela correspondente das receitas.

O resultado aparece nas contas públicas.

Para 2026, o governo norueguês estima aproximadamente NOK 397 bilhões em impostos e taxas do petróleo, cerca de NOK 263 bilhões de fluxo líquido proveniente das participações diretas do SDFI e mais aproximadamente NOK 25 bilhões em dividendos da Equinor. O fluxo líquido total estimado do setor petrolífero para o Estado é de cerca de NOK 686 bilhões.

É possível fazer uma conta meramente ilustrativa.

Se uma atividade da Equinor gerar 100 unidades de lucro petrolífero tributável, a tributação marginal pode retirar 78. Restam 22 depois dos tributos. Como o Estado possui 67% da Equinor, sua participação econômica nesses 22 corresponde a outras 14,74 unidades — embora isso não signifique que todo esse valor seja necessariamente distribuído como dividendo naquele mesmo exercício.

Somados, imposto e participação acionária representam uma reivindicação econômica potencial de aproximadamente 92,7 sobre cada 100, antes mesmo das receitas obtidas através das participações diretas do SDFI.

Não podemos aplicar a mesma conta mecanicamente ao Brasil. Aqui existem concessão, partilha e Cessão Onerosa, cada qual com regras diferentes.

Mas exatamente por isso a comparação deveria ser feita.

Quanto de cada US$ 100 produzidos pelo petróleo brasileiro fica efetivamente com o povo brasileiro?

Quanto se transforma em:

investimento produtivo, infraestrutura, tecnologia, arrecadação pública e patrimônio nacional?

E quanto sai na forma de dividendos, remuneração financeira ou renda apropriada por investidores privados?

Essa talvez seja a pergunta mais importante de todas.


Conclusão – O país que pagou

A história da Petrobras não pode ser reduzida a uma discussão sobre lucro, dívida ou preço de suas ações.

O Brasil possui uma das maiores riquezas petrolíferas do planeta e desenvolveu uma empresa capaz de descobri-la e produzi-la em águas ultraprofundas.

No auge de seus investimentos, a Petrobras aplicava mais de US$ 40 bilhões por ano, movimentando extensas cadeias produtivas nacionais.

Depois, seus investimentos despencaram, projetos foram abandonados, ativos foram vendidos e a prioridade empresarial mudou.

Ao mesmo tempo, consolidou-se no imaginário popular uma frase devastadora:

“A Petrobras estava quebrada.”

Os fatos mostram uma realidade muito mais complexa.

Talvez a maior consequência daquela narrativa não tenha sido aquilo que aconteceu com a Petrobras.

Talvez tenha sido o fato de milhões de brasileiros terem deixado de compreender para que uma empresa como a Petrobras existe.

Uma estatal estratégica não deve ser julgada apenas pelo lucro que apresenta no balanço ou pelo dividendo que distribui.

Ela deve ser julgada também pelo desenvolvimento que consegue produzir com uma riqueza que pertence à Nação.

A Noruega parece ter compreendido isso há décadas.

O Brasil ainda precisa compreender.

A verdade não precisa de propaganda. Precisa de números. 

CRÍTICAS, SUGESTÕES, COMENTÁRIOS : soberanobrasiles@gmail.com

REFERÊNCIAS

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AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS – ANP. Parecer nº 237/2012/PF-ANP/PGF/AGU. Brasília: ANP. O parecer registra que não incide Participação Especial nas áreas submetidas à Partilha de Produção e à Cessão Onerosa. Acesso em: 9 ago. 2026.

BANCO CENTRAL DO BRASIL – BCB. Estatísticas fiscais. Brasília: Banco Central do Brasil. Séries de resultado primário do setor público, Dívida Bruta do Governo Geral – DBGG e Dívida Líquida do Setor Público. Acesso em: 9 ago. 2026.

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