Cláudio da Costa Oliveira julho de 2026
Durante os últimos anos, temos defendido uma tese muito simples: os países que mais se desenvolveram foram aqueles que tiveram acesso a energia abundante, constante e barata.
Não existe indústria competitiva com energia cara.
Não existe transporte eficiente com combustível caro.
Não existe agricultura competitiva quando diesel, eletricidade e fertilizantes são utilizados como instrumentos de arrecadação ou de obtenção de lucros extraordinários.
A energia não deve ser tratada como um produto qualquer. Ela entra no custo de praticamente tudo o que uma sociedade produz.
Quando o preço da energia sobe, sobe o frete, sobe o alimento, sobe o material de construção, sobe o produto industrializado e sobe o custo de vida.
O Brasil, entretanto, adquiriu o hábito de utilizar a energia como fonte permanente de arrecadação tributária e de remuneração de diferentes intermediários.
O governo arrecada.
As distribuidoras recebem suas margens.
Os revendedores recebem suas margens.
Os acionistas recebem dividendos.
E o consumidor paga a conta.
A comparação que revela o problema
Os números da Agência Nacional do Petróleo mostram com clareza o que ocorreu entre julho de 2024 e julho de 2026.
Na semana de 21 a 27 de julho de 2024, o preço médio nacional da gasolina comum era de R$ 6,13 por litro.
Na semana de 19 a 25 de julho de 2026, passou para R$ 6,55 por litro.
Um aumento de R$ 0,42 por litro.
À primeira vista, alguém poderia imaginar que esse aumento foi provocado pela Petrobras ou pelo maior preço internacional do petróleo.
Mas os números mostram exatamente o contrário.
A parcela referente à gasolina produzida, chamada pela ANP de gasolina A, caiu de R$ 2,21 para R$ 2,04 por litro.
A parcela do etanol anidro, misturado à gasolina, caiu de R$ 0,82 para R$ 0,73.
Os tributos federais permaneceram praticamente estáveis, passando de R$ 0,69 para R$ 0,68.
Portanto, somadas, as parcelas da gasolina A, do etanol e dos tributos federais tiveram uma redução de R$ 0,27 por litro.
Mesmo assim, o consumidor passou a pagar R$ 0,42 a mais.
Como isso foi possível?
Porque a parcela estimada de distribuição e revenda aumentou de R$ 1,04 para R$ 1,53 por litro.
Um aumento de R$ 0,49 por litro, correspondente a aproximadamente 47%.
Ao mesmo tempo, o tributo estadual passou de R$ 1,37 para R$ 1,57, acrescentando outros R$ 0,20 ao preço.
Somados, distribuição, revenda e tributo estadual acrescentaram R$ 0,69 ao litro. A queda de R$ 0,27 nos demais componentes reduziu parte desse impacto, restando o aumento final de R$ 0,42 para o consumidor.
A Petrobras reduziu sua parcela, mas a bomba ficou mais cara
É importante observar que o petróleo Brent estava em patamar superior no final de julho de 2026 ao registrado no final de julho de 2024.
Ainda assim, a parcela da gasolina A no preço final brasileiro caiu.
Isso mostra que a Petrobras absorveu parte da elevação internacional e utilizou sua capacidade de produção e refino para evitar que toda a volatilidade externa fosse transferida ao consumidor.
Mas a redução realizada pela Petrobras não chegou integralmente à bomba.
Esse é o ponto principal.
Não basta controlar o poço e a refinaria. É necessário acompanhar o combustível até o consumidor.
A Petrobras pode reduzir seu preço para as distribuidoras. Porém, depois que o produto sai da refinaria, entram os custos e as margens de distribuição e revenda, além dos tributos.
O consumidor não compra diretamente da Petrobras.
Ele compra no posto.
E é entre a refinaria e o posto que o Estado brasileiro perdeu grande parte de sua capacidade de atuação.
Vendemos o caminho até o consumidor
A BR Distribuidora foi criada em 1971 para completar a integração da Petrobras.
A Petrobras produzia o petróleo, refinava, transportava, distribuía e fazia seu produto chegar ao mercado.
Essa integração permitia conhecer os custos de toda a cadeia, planejar estoques, organizar a logística e manter uma referência nacional de preços e qualidade.
Em 2019, a Petrobras vendeu ações e perdeu o controle da BR Distribuidora. Em julho de 2021, vendeu sua participação remanescente, saindo completamente do capital da empresa, posteriormente denominada Vibra Energia. Os documentos da própria Petrobras registram a venda do controle e, depois, da participação restante.
Hoje, a Petrobras precisa explicar publicamente uma situação que causa confusão em milhões de brasileiros:
Os combustíveis podem ser produzidos pela Petrobras, mas os postos que utilizam sua marca não pertencem mais à empresa.
A Vibra utiliza a bandeira Petrobras mediante contrato de licenciamento e informa possuir uma rede de aproximadamente 8 mil postos.
Ou seja: a Petrobras ficou com a responsabilidade pública pela imagem, mas perdeu o controle empresarial sobre a distribuição.
O consumidor vê o nome Petrobras no posto e acredita que o preço foi definido pela estatal. Mas a Petrobras não controla aquele estabelecimento nem determina o preço cobrado na bomba.
Nacionalizar não significa confiscar
Quando defendemos a nacionalização da BR Distribuidora, não estamos defendendo a tomada da empresa sem pagamento.
Estamos defendendo que a Petrobras estude e execute uma recompra legal e transparente do controle da Vibra Energia, por meio do mercado de capitais, de uma oferta pública ou de outra estrutura juridicamente adequada.
Trata-se de recuperar um instrumento estratégico que nunca deveria ter sido abandonado.
Mas devemos reconhecer uma questão: recomprar a Vibra, isoladamente, não resolverá automaticamente todo o problema da revenda.
A rede utiliza a marca Petrobras mediante licenciamento, e muitos postos são operados por empresários independentes. Portanto, a retomada do controle da distribuidora seria o primeiro passo, não o último.
A nova BR precisaria construir um modelo capaz de influenciar efetivamente os preços finais.
O que uma nova BR deveria fazer
A empresa pública deveria divulgar separadamente seus custos logísticos e sua margem de distribuição.
Também deveria estabelecer contratos nos quais reduções realizadas pela Petrobras fossem repassadas rapidamente aos postos vinculados à sua rede.
Além disso, seria necessário criar uma rede de postos de referência, próprios, controlados ou operados em parceria, capazes de demonstrar ao mercado quanto seria possível cobrar com custos eficientes e margens razoáveis.
Esses postos funcionariam como instrumento de concorrência.
Não seria necessário tabelar preços.
Não seria necessário vender combustível abaixo do custo.
Bastaria oferecer gasolina e diesel com custos transparentes, eficiência logística e remuneração adequada, mas sem permitir que posições dominantes ou falta de concorrência impedissem as reduções de chegar ao consumidor.
A própria ANP deveria passar a divulgar separadamente:
- a parcela da distribuidora;
- a parcela do posto revendedor;
- os custos logísticos;
- e as margens efetivas de cada etapa.
Atualmente, a parcela publicada é uma estimativa conjunta de distribuição e revenda. Isso dificulta identificar exatamente em qual etapa ocorreu o aumento. A Petrobras também esclarece que essa parcela é estimada e reúne os dois segmentos.
Depois da distribuição, os impostos
Os tributos também precisam ser enfrentados.
Entre julho de 2024 e julho de 2026, o tributo estadual sobre cada litro aumentou de R$ 1,37 para R$ 1,57.
É um valor extremamente elevado, especialmente porque incide sobre um produto indispensável ao funcionamento da economia.
Entretanto, podemos seguir uma ordem prática.
Primeiro, recuperar a capacidade de atuar na distribuição e na revenda.
Depois, construir um acordo entre União e estados para reduzir gradualmente a carga tributária sobre os combustíveis, compensando a perda inicial de arrecadação pelo crescimento da atividade econômica.
O objetivo não deve ser arrecadar o máximo possível sobre cada litro vendido.
O objetivo deve ser vender combustível ao menor preço economicamente sustentável, para que a indústria produza mais, o transporte custe menos, a agricultura se torne mais competitiva e a economia gere mais empregos, renda e impostos.
É melhor cobrar menos imposto sobre uma economia que cresce do que cobrar muito imposto sobre uma economia paralisada.
Energia barata gera desenvolvimento
A Petrobras não foi criada apenas para obter lucros.
Ela foi criada para garantir o abastecimento nacional e transformar as riquezas existentes no subsolo brasileiro em desenvolvimento econômico e social.
Uma companhia integrada consegue utilizar o resultado da produção de petróleo para fortalecer o refino, a logística, a distribuição, a petroquímica, os fertilizantes e outras atividades fundamentais.
A antiga BR Distribuidora fazia parte dessa estrutura.
Sua venda fragmentou a cadeia e afastou a Petrobras do consumidor.
Os números de 2024 e 2026 mostram a consequência: a parcela da gasolina produzida caiu, a parcela do etanol caiu, mas o preço final aumentou porque cresceram principalmente a distribuição, a revenda e o imposto estadual.
Não podemos continuar discutindo apenas o preço cobrado pela Petrobras na refinaria.
Precisamos discutir o que acontece depois da refinaria.
Precisamos recuperar a BR
Energia barata não significa prejuízo para a Petrobras.
Significa custos eficientes, margens normais, tributação racional e eliminação de ganhos excessivos ao longo da cadeia.
A recompra da BR Distribuidora não resolverá todos os problemas de uma só vez.
Mas devolverá ao país um instrumento para conhecer os custos, organizar a logística, aumentar a concorrência e fazer com que as reduções realizadas na refinaria cheguem realmente ao consumidor.
O Brasil produz petróleo.
O Brasil possui grandes refinarias.
O Brasil domina a tecnologia do pré-sal.
Mas perdeu o controle do caminho que liga o combustível ao consumidor.
Fala sério: precisamos nacionalizar a BR Distribuidora.
Depois, precisamos reconstruir uma política nacional na qual a energia deixe de ser tratada como instrumento de arrecadação e volte a ser utilizada como instrumento de desenvolvimento.
COMENTÁRIOS, CRÍTICAS, SUGESTÕES: soberanobrasiles@gmail.com