As fronteiras do envelhecimento: conheça a rotina dos filhos que assumem cuidados dos pais

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O Brasil envelhece em ritmo acelerado, empurrando filhos para o papel de cuidadores e desafiando especialistas

De segunda à sexta, Eliane Pires acorda às 5h da manhã, se arruma e às 5h40 já está saindo de casa. Com uma curta caminhada, no bairro de Cajueiro Seco, Jaboatão dos Guararapes, ela chega ao compromisso às 6h da manhã e deve largar apenas às 19h30. A rotina de Eliane lembra a de muitos pernambucanos que despertam cedo para trabalhar, mas esse é o dia a dia que ela leva cuidando da mãe, Maria José, de 80 anos, que tem Alzheimer. 

A filha, de 50 anos, deixou o emprego há três para se dedicar ao suporte da mãe. Ela recebe uma espécie de salário dos irmãos e é a tutora legal da idosa. “Ser mãe da própria mãe é mais difícil ainda. A gente tem que dosar, saber falar”.

O envelhecimento da população brasileira já impacta a rotina de milhões de famílias. Hoje, cerca de 17% dos brasileiros têm 60 anos ou mais, representando 36 milhões de pessoas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país deverá ganhar, em média, 1,1 milhão de idosos por ano nas próximas décadas, tornando cada vez mais comum que filhos e familiares assumam o cuidado de pais e parentes idosos. 

Eliane faz parte dessa amostragem. Quando a mãe apresentou sinais de que precisava de constante acompanhamento, foi ela quem cedeu, entre os cinco irmãos, para assumir o posto. A jornada, como diz, se define pela paciência e o amor. 

“Eu acho que me escolhi por causa disso. Porque eu sou a que tem mais paciência. Às vezes ela não quer tomar banho. Eu digo: ‘Tá bom, quando a senhora quiser a senhora fala, tá?’. É a rotina. E mesmo que você tenha rotina, vai chegar um tempo que essa rotina não vai valer para nada devido a doença. Por isso que eu te digo: paciência, carinho, amor, compreensão e estudar a doença também. Procurar saber mais”, explica.

Apesar da tranquilidade na voz, Eliane não esconde que a rotina é intensa. As férias apenas no carnaval. A carreira de professora da rede municipal ainda está em pausa. E filhos? Eliane nunca teve. Quem cuida de quem cuida? 

“Isso é uma pergunta que todos fazem. Se você não se cuidar, você também adoece. Por isso, quando eu tô nos meus finais de semana, eu tenho que passear. Adoro ir à praia, ver o mar. Eu sei que eu tenho que me cuidar também. Vendo sua mãe envelhecer, você pensa também no momento que você tiver idosa. Eu espero viver minha velhice com saúde. Até quando Deus quiser”, deseja. 

A comunicadora Lina Fernandes, de 55 anos, também é a filha responsável pelos pais idosos. Ela concilia a vida profissional, a vida pessoal e o próprio envelhecimento com a rotina de assistência à mãe, de 86 anos, e ao pai, de 88. 

“[O envelhecer] é uma coisa que não se fala. Eu me deparo com muitas pessoas na minha faixa etária que vivem o mesmo que eu vivo: pais idosos. É realmente uma descoberta porque não falaram sobre isso pra gente. Não disseram nem que eles iam envelhecer, o que é óbvio, e nem que a gente também está envelhecendo. Tem gente que está sozinha como eu, e uma coisa a gente já percebeu: um filho sempre se sobrecarrega mais do que o outro”, conta.

Para Lina, a responsabilidade é indiscutível. “Já vi em consultório médico filhos impacientes com os pais, brigando porque se responsabilizam sozinhos. Para mim, discutir isso é perda de tempo; o que você tem que fazer é assumir, e acabou”.   

Embora as despesas com medicamentos, transporte e plano de saúde façam parte da rotina, o maior desafio para Lina é estar sozinha na linha de frente dos cuidados com os pais. Com um irmão em Fortaleza e a irmã nos Estados Unidos, ela conta com o apoio financeiro e emocional deles, mas ainda é quem acompanha consultas, resolve imprevistos e está presente no dia a dia. 

“Meu pai toma um remédio de R$ 170 e usa três por mês, ele também não dirige mais por medo do trânsito. Hoje minha mãe tem um taxista para tudo: farmácia, padaria, médico, fisioterapia. É um gasto que ela não tinha antes. Meus irmãos também estão presentes emocionalmente, mas aqui, na linha de frente, sou eu”, relata. 

Mas as trincheiras do cuidado podem ser traiçoeiras. Quando a superproteção apareceu, foi preciso impor limites. “Antes eu brigava quando minha mãe não queria ir ao médico; hoje, se ela diz que está cansada e não quer ir, eu respeito. Quando levo meu pai ao barbeiro ou ao médico, deixo ele falar e apenas complemento com detalhes. É importante entender que eles ainda têm vontades. Em vez de tratá-los como crianças birrentas, respeito a lucidez deles. O limite quem colocou fui eu em mim mesma”, confessa.

Seja no equilíbrio ou na busca por algo parecido, a filha de Claudete e José agora planeja a própria velhice, estuda para ser psicanalista e pensa em sua aposentadoria enquanto aproveita o tempo com os pais.

“É um momento pra gente ficar muito junto, sabe? Eu estou curtindo a melhor fase da minha vida com os meus pais. Então, embora eles estejam idosos e limitados em certas coisas, eu estou vivendo uma fase muito boa com eles, assim, de muito amor, de tá junto, de sair para tomar um sorvete, de sair para tomar um café”, fala com carinho. 

Eunice costuma atender idosos e está na ponta do tratamento dessa população. Foto: Acervo pessoal/Maria Eunice Ribeiro.

A psicologia da velhice

Os paradigmas do envelhecimento levantam muitas questões. Para a psicóloga Maria Eunice Ribeiro, mestre em Psicologia Clínica e especialista em Cuidados Paliativos, o medo da dependência, da perda da autonomia e da finitude estão entre as principais angústias da velhice. Com o aumento da expectativa de vida do brasileiro, hoje em 76,6 anos, segundo o IBGE, ela observa uma procura cada vez maior de idosos por atendimento psicológico.

“Talvez o fato de estarmos vivendo mais esteja fazendo essa mudança nesse contexto da procura pelo apoio psicológico. Vamos pensar num idoso que tem uma uma socialização maior. No momento que ele começa a perder amigos, ele começa a pensar na própria finitude. Eu já recebi uma quantidade de idosos, que eu poderia trazer como significativa, com esse aspecto”, conta Eunice.

A especialista também chama atenção para a saúde mental dos cuidadores. Histórias como as de Eliane e Lina ilustram uma realidade marcada pelo cansaço, pela culpa e pela renúncia.

“Existe uma exaustão física, existe uma exaustão emocional em relação a esse cuidador e por várias questões. Uma delas é esse cuidador ser tão dedicado que ele tem culpa de não estar dando a atenção que o idoso merecia. Se a pessoa idosa adoece, eles acham que foi um descuido”, ela analisa.

“No momento que aquele cuidador perdeu um pouco da identidade dele para atuar numa condição de muito zelo por essa pessoa idosa existe uma renúncia aí da vida pessoal que precisa ser vista. E, nesse caso, existe uma necessidade de que esse cuidador também seja cuidado, ele precisa pedir ajuda e ter a condição de reconhecer os próprios limites”, completa.

Manoel Moraes, coordenador da Cátedra UNESCO/Unicap de Direitos Humanos Dom Helder Camara.Manoel também é professor na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). Foto: Acervo pessoal/Manoel Moraes.

Direito ao envelhecimento

O professor Manoel Moraes, coordenador da Cátedra Unesco/Unicap de Direitos Humanos Dom Helder Câmara, enxerga o envelhecimento sob a ótica dos direitos humanos. Para ele, os dados do IBGE sobre a população idosa são indicadores de que o país precisa promover mudanças estruturais.

“A nossa pirâmide etária modificou. Somos uma sociedade que envelheceu rapidamente. Estamos muito mais próximos do que hoje é o mapa da Europa, do que éramos há 20 anos. Esse envelhecimento está constatado e visualizado do ponto de vista do Censo, da realidade política e institucional do país, mas isso não se reflete de forma objetiva nas políticas públicas. Não que elas não existam, elas avançaram, mas são muito segmentadas, muito fragmentadas, muito localizadas. Falta, de fato, uma compreensão mais estrutural da questão do envelhecimento como um direito fundamental”, defende.

Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania de 2025 revelam um aumento de 21,15% no número de denúncias de abandono de pessoas idosas em relação a 2023. Moraes compara a realidade brasileira à de outras culturas.

“Nos países orientais, o idoso não é considerado descartável. Ele continua em uma fase produtiva e é respeitado. Assim como entre povos indígenas e quilombolas, os idosos são considerados símbolos de sabedoria. Se chegaram à velhice, é porque acumularam conhecimento e precisam ser ouvidos. Isso é muito diferente da nossa cultura individualista, capitalista e ocidental, em que as pessoas são valorizadas pelo que produzem e, quando deixam de entregar, acabam sendo descartadas”, analisa.

Hugo Melo, professor na UFPE, tem longa trajetória na pesquisa do envelhecimento. Foto: Acervo pessoal/Hugo Melo.

Envelhecer bem é ciência

Planejar a própria velhice é um privilégio que faz toda a diferença. Segundo o geriatra e professor da UFPE Hugo Melo, esse planejamento deve começar muito antes dos 60 anos. Tudo parte dos hábitos saudáveis.

“Valorizar o estilo de vida é fundamental. A ciência do envelhecimento bebe muito na fonte da medicina do estilo de vida para construir planos de cuidado que facilitem envelhecer melhor. Ter um sono adequado, fazer atividade física de forma regular, manter bons hábitos alimentares, ter boas relações sociais, praticar rituais e evitar tóxicos e excessos de álcool e drogas. 80% das doenças mais prevalentes no mundo estão relacionadas a esses hábitos”, recomenda.

O equilíbrio também é essencial. Ler, viver com tranquilidade, estar perto de amigos e familiares. O importante é conciliar bons hábitos com o próprio estilo de vida para não perder suas capacidades.

“Envelhecer bem não é apenas atingir uma idade avançada, mas é garantir que esses anos adicionais vividos cheguem com autonomia, com independência. Autonomia é minha capacidade de decidir; independência é minha capacidade de realizar aquilo que eu decido fazer. E que isso possa acontecer com dignidade, com participação social e com sentido”, explica o professor.

Melo tem outra visualização sobre o aumento de abandono de idosos. Segundo o pesquisador, a região Nordeste tem suas particularidades.

“Eu vejo aqui no Nordeste, talvez com mais força do que no Sul e no Sudeste, essa rede de apoio familiar à pessoa idosa. Se você for para o interior, você vai ver que as famílias abraçam. Esse idoso, ele é um centro de conhecimento, e não necessariamente conhecimento por estudo, é conhecimento por história de vida. Ele é venerado como uma uma pessoa que é super importante, que tá no seio daquela família, que sustenta emocionalmente essa estrutura familiar”, examina.

Os idosos que hoje atingem os 60 anos correspondem a geração X. São justamente os nascidos entre 1965 a 1980 e que acendem boa parte das discussõe aqui tratadas. A geração Z, nascida entre 1997 e 2010, diferentemente da X, cresceu cercada de telas e cultua um certo “imediatismo”, segundo o Melo.  A reportagem convidou o professor especular: como será o idoso da geração Z?

 “Espero que o amadurecimento traga autocrítica. A geração Z também está muito inserida no mercado wellness, estimulando atividade física e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. O organismo agradece. A tecnologia é maravilhosa quando facilita, como fazer prova de vida pelo celular com reconhecimento facial, mas deve haver um olhar crítico para quando ela falha — por exemplo, quando o reconhecimento facial não identifica o idoso cujas feições mudaram. Deve haver sempre um plano B”, projeta.

O pesquisador ainda amplia a discussão. “O desafio de envelhecer não pertence só aos idosos. Os jovens e a sociedade devem pensar nisso agora. A forma como cuidamos de quem envelheceu revela o tipo de sociedade que somos e o que teremos amanhã”, finaliza.

Alba e Felinto estão casados há 60 anos. Foto: Arthur Botelho/Folha de Pernambuco.

Alba e Felinto

Lá fora, a Mata Atlântica e a paisagem tranquila que cerca a casa verde, com uma porteira antiga. Lá dentro, móveis rústicos de madeira escura, fotografias antigas, quadros e livros. Como parte do plano de envelhecer com qualidade, o casal formado por Alba Pires, de 84 anos, e José Felinto, de 91, se mudou para a chácara projetada para essa fase da vida.

“A gente se sente tão bem aqui, tão feliz, que não tem vontade de sair daqui de jeito nenhum. Eu não me canso de ir a varanda contemplar todo verde ao redor. Aí a gente aproveita também que os bichinhos distraem muito a gente. A gente envelhece sem sofrimento”, conta Alba.

Foto: Arthur Botelho/Folha de Pernambuco.

Os dois concordam em uníssono: “envelhecer é ótimo”. Alba, magistrada aposentada, conta que “embora envelhecidos, nos sentimos felizes. Cabelos brancos e rugas fazem parte do processo. O importante é morar perto da família, mas cada um vivendo sua vida e seus programas”.

No mesmo terreno, em Aldeia, Camaragibe, mais três casas foram construídas. Em cada uma, a família de um filho do casal. Além da constante socialização, os exercícios físicos com acompanhamento de um profissional e a boa alimentação são cruciais. Já os velhos costumes são vitais. filmes na TV, música, acompanhar o noticiário e ler. Ler muito.

“Eu fui seminarista com os frades franciscanos na infância e juventude, então tenho essa bagagem. Nossa biblioteca é variada. Tenho uma coleção com uns 50 livros sobre a morte, porque acho interessante. O povo tem medo da morte, mas todos vamos enfrentá-la”, Felinto revela a coleção de livros com entusiasmo. A morte, para o homem que viveu mais de nove décadas, é motivo de risada.

Espiritualizado, ele não acredita na idade que aparenta. “Eu acho que eu não estou ficando velho. O meu corpo é que tá ficando velho. Eu não sou esse corpo; eu tenho um corpo para me manifestar aqui”, explica Felinto, que até hoje cultiva hábitos como da produção caseira de mel. “O hobbie que eu arrumei quando me aposentei em 1989”.

Sentados nas poltronas onde gostam de repousar durante o dia, vão comemorar o Dia dos Avós, neste domingo (26), ligando para os oito netos, ou esperando a ligação deles. “É um presente ter os netinhos por perto. Cada um com sua história e profissão. A gente conversa muito, é pura felicidade”, diz Alba, que há 70 anos envelhece ao lado de Felinto.

Fonte https://www.folhape.com.br/

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