150 cientistas de 40 países alertam para uma inversão silenciosa nos rios brasileiros: dados de 550 cursos d’água mostram que poluição agrícola e urbana aceleram a decomposição de matéria orgânica aquática, transformando ecossistemas que deveriam absorver carbono em emissores de CO₂ e metano para a atmosfera

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Estudo global com 550 rios mostra que poluição e aquecimento estão transformando rios em fontes de CO₂ e metano, agravando o clima.

Segundo a Universidade da Geórgia, um estudo publicado na revista Science em maio de 2024 apresentou a primeira análise global combinando experimentos de campo com modelagem preditiva para entender como as atividades humanas estão alterando o funcionamento dos rios em escala planetária. A pesquisa foi conduzida por cientistas das universidades da Geórgia, Oakland, Kent State e William & Mary, com colaboração de mais de 150 pesquisadores em 40 países reunidos no Consórcio Celldex. O trabalho envolveu coleta de dados em 550 rios ao redor do mundo, incluindo regiões tropicais brasileiras historicamente negligenciadas em estudos globais.

O resultado foi a construção do primeiro mapa global das taxas de decomposição em rios e córregos, revelando que as atividades humanas estão acelerando esse processo de forma significativa e transformando rios em fontes relevantes de emissão de gases de efeito estufa.

Rios desempenham papel central no ciclo global do carbono e podem sequestrar ou liberar CO₂ dependendo do equilíbrio ecológico

Para compreender a relevância da descoberta, é necessário entender o papel dos rios no ciclo global do carbono.

A vegetação terrestre captura dióxido de carbono da atmosfera e o transforma em matéria orgânica. Parte dessa matéria permanece no solo, enquanto outra parte é transportada pela água até rios e córregos.

Uma vez nesses ambientes, o carbono pode seguir dois caminhos distintos. Pode ser transportado até os oceanos e permanecer armazenado por longos períodos, funcionando como um mecanismo de sequestro. Ou pode ser decomposto por microrganismos aquáticos, liberando CO₂ e metano diretamente na atmosfera. O equilíbrio entre esses dois processos determina se o rio atua como sumidouro ou fonte de carbo

Método com tecido de algodão permitiu medir atividade microbiana em 550 rios e padronizar análise global inédita

O método utilizado pelos pesquisadores foi baseado em pedaços padronizados de tecido de algodão submersos nos rios.

O algodão é composto por celulose, a mesma substância presente na matéria orgânica vegetal. Ao medir a taxa de decomposição do tecido, os cientistas conseguiram estimar a atividade microbiana responsável pela degradação de matéria orgânica em cada ambiente.

Quanto mais rápida a decomposição, maior a liberação de gases de efeito estufa. Esse método permitiu padronizar a análise em escala global, algo que não havia sido realizado anteriormente.

Rios tropicais, incluindo os brasileiros, apresentam maior aceleração de decomposição e maior potencial de emissão de carbono

Os resultados mostraram que os rios tropicais são os mais afetados. Esses ambientes combinam temperaturas mais elevadas, maior carga de poluição por nutrientes e intensa atividade biológica, fatores que aceleram a decomposição da matéria orgânica.

Historicamente sub-representados em estudos globais, os rios tropicais agora aparecem como áreas críticas no ciclo do carbono.

Poluição por fertilizantes e esgoto atua como combustível para microrganismos e acelera liberação de CO₂ e metano

O estudo identificou dois principais fatores responsáveis pela aceleração da decomposição. O primeiro é a poluição por nutrientes, especialmente nitrogênio e fósforo provenientes de fertilizantes agrícolas e esgoto urbano.

Esses elementos funcionam como combustível para bactérias e fungos, aumentando a velocidade com que a matéria orgânica é decomposta e convertida em gases.

No Brasil, o uso de mais de 13 milhões de toneladas de fertilizantes por ano contribui diretamente para esse processo, com parte significativa desses nutrientes sendo carregada para os rios.

Aumento da temperatura da água intensifica reações químicas e dobra velocidade da decomposição em rios

O segundo fator é o aumento da temperatura da água. As reações químicas seguem a chamada lei de Van’t Hoff, segundo a qual um aumento de 10°C pode dobrar a velocidade das reações biológicas.

O aquecimento global e o desmatamento de matas ciliares elevam a temperatura da água, criando condições ainda mais favoráveis para a decomposição acelerada.

Estudo complementar publicado na revista Nature em 2025 revelou que cerca de 59% das emissões de CO₂ fluvial têm origem em carbono antigo, armazenado por milênios em solos e formações geológicas.

Esse carbono é mobilizado por processos como desmatamento, erosão e perturbação do solo, sendo transportado para os rios e liberado na atmosfera.

Isso indica que os rios estão ativando reservas de carbono que antes permaneciam estáveis.

Aceleração da decomposição compromete cadeia alimentar aquática e reduz populações de insetos e peixes

A decomposição acelerada não afeta apenas o clima. A matéria orgânica é base da cadeia alimentar de ecossistemas aquáticos. Quando ela desaparece rapidamente, organismos que dependem dela perdem sua principal fonte de energia.

Isso reduz populações de insetos aquáticos, peixes e outros organismos, impactando toda a biodiversidade associada aos rios.

Destruição de matas ciliares agrava problema ao aumentar temperatura da água e reduzir entrada de matéria orgânica natural

As matas ciliares desempenham papel fundamental na manutenção dos rios. Elas fornecem sombra, controlam a temperatura da água e contribuem com matéria orgânica de qualidade.

Quando essas áreas são removidas, os rios passam a receber mais radiação solar, menos matéria orgânica natural e maior carga de sedimentos e poluentes.

O estudo disponibilizou uma ferramenta online que permite visualizar as taxas de decomposição em rios ao redor do mundo.

O mapa foi construído com base nos dados coletados e em modelos de aprendizado de máquina, permitindo identificar regiões com maior intensidade de decomposição. No Brasil, áreas com forte atividade agrícola aparecem como zonas críticas.

Transformação dos rios mostra como poluição, clima e uso do solo estão conectados em um mesmo processo global

Os resultados mostram que a transformação dos rios não é um fenômeno isolado. Ela está diretamente ligada à poluição, ao desmatamento, ao uso intensivo do solo e às mudanças climáticas.

Esses fatores atuam de forma combinada, criando um processo de transformação ambiental que ocorre de forma contínua e silenciosa.

A aceleração da decomposição e a liberação de carbono indicam uma mudança significativa no funcionamento dos ecossistemas aquáticos.

Na sua visão, ainda é possível reverter esse processo ou os rios já passaram a atuar permanentemente como fontes de gases de efeito estufa?

Fonte https://clickpetroleoegas.com.br/

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