O pré-sal virou uma máquina de gerar caixa não para o Brasil, mas para o mercado. Por Cláudio da Costa Oliveira.
Sexta-feira (24), foi divulgado que a Petrobras decidiu aumentar a participação do etanol na composição da gasolina de 30% para 32% a partir do próximo mês de maio. O objetivo, segundo a reportagem, é a redução do preço final na bomba. O que é uma grande mentira. Os números são oficiais. Não são opiniões. São dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e da Petrobras. Preço médio da gasolina no Brasil: R$ 6,75 por litro (coleta de 12/4 a 18/4). E a composição mostra:
R$ 1,80 — parcela da Petrobras (70%)
R$ 0,89 — etanol anidro (30%)
R$ 1,81 — distribuição e revenda
R$ 1,57 — ICMS
R$ 0,68 — impostos federais
Agora vem o dado que muda tudo: o custo real da gasolina. A própria Petrobras informa (balanço 2025): lifting cost (produção): ~US$ 21/barril; refino: ~US$ 3/barril; total: US$ 24 por barril. Com câmbio de R$ 5: R$ 120 por barril; dividindo por 158 litros, temos R$ 0,76 por litro.
A pergunta que não quer calar: se custa R$ 0,76, por que a Petrobras vende por R$ 2,57?
E mais: por que o brasileiro paga R$ 6,75? O Brasil produz gasolina a R$ 0,76 — e vende a R$ 6,75.
A margem extraordinária da Petrobras
As grandes petroleiras internacionais (ExxonMobil, Chevron, Shell, BP, TotalEnergies) geram caixa de 16% a 18% da receita; já a Petrobras, mais de 35%.
O que isso significa? Significa que o Brasil tem um dos menores custos de produção do mundo, mas pratica preços de país importador.
O pré-sal — especialmente campos como Búzios — tem produtividade altíssima e custo baixíssimo. E mais: áreas da cessão onerosa não pagam Participação Especial. Resultado: lucros extraordinários.
O caso do etanol
Na composição atual:
Etanol (30%): R$ 0,89
R$ 2,97/litro
Gasolina A (70%): R$ 1,80
R$ 2,57/litro
O etanol está mais caro que a gasolina. E mesmo assim o governo quer aumentar a mistura para 32%. Se o etanol é mais caro, aumentar a mistura tende a elevar o custo, não reduzir. Então por que fazer isso?
O verdadeiro problema não é guerra; não é mercado internacional. É o modelo. O Brasil produz petróleo barato, refina barato, mas vende caro ao próprio povo.
Conclusão
O pré-sal deveria ser a maior vantagem competitiva do Brasil. Mas virou uma máquina de gerar caixa — não para o país, mas para o mercado. E a pergunta permanece: a Petrobras existe para o Brasil — ou o Brasil existe para a Petrobras?
Cláudio da Costa Oliveira é economista aposentado.
Fonte https://monitormercantil.com.br/