Depois de 14 anos de obras e uma crise diplomática que quase levou a um confronto militar pelo controle do Nilo, a Etiópia inaugurou a maior hidrelétrica da África — a barragem tem 170 metros de altura, acumula 74 bilhões de metros cúbicos de água e gera 5.150 megawatts

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Com 170 metros de altura, 1.800 metros de comprimento e um reservatório de 74 bilhões de metros cúbicos, a Grand Ethiopian Renaissance Dam é a maior hidrelétrica da África — e sua construção provocou uma crise diplomática que colocou Etiópia, Egito e Sudão à beira do confronto

Em 9 de setembro de 2025, a Etiópia inaugurou oficialmente a maior usina hidrelétrica da África.

Grand Ethiopian Renaissance Dam (GERD) — Barragem da Grande Renascença Etíope — fica no rio Nilo Azul, a cerca de 700 quilômetros a noroeste da capital Adis Abeba e apenas 14 quilômetros da fronteira com o Sudão.

A barragem tem capacidade instalada de 5.150 megawatts e produção anual projetada de 15.700 GWh.

O primeiro-ministro Abiy Ahmed presidiu a cerimônia.

Os números que fazem desta barragem um colosso

A barragem principal tem 170 metros de altura e 1.800 metros de comprimento.

Foram usados 10,7 milhões de metros cúbicos de concreto compactado a rolo na construção.

Além da barragem principal, existe um dique de apoio em enrocamento com cerca de 5 quilômetros de comprimento.

O reservatório cobre uma área de 1.875 km² — maior que a cidade de São Paulo.

Os 74 bilhões de metros cúbicos de água armazenados equivalem a cerca de 30 milhões de piscinas olímpicas.

Para comparação, a Itaipu — maior hidrelétrica do mundo em produção até recentemente — tem reservatório de 29 km³. A GERD acumula mais que o dobro.

A crise que quase levou à guerra: Etiópia, Egito e Sudão

O rio Nilo é a fonte de vida de mais de 200 milhões de pessoas em 11 países.

Nilo Azul, que nasce na Etiópia, contribui com cerca de 85% da água que chega ao Egito.

Quando a Etiópia anunciou a construção da GERD em 2011, o Egito reagiu com alarme.

O temor era que a barragem retivesse água suficiente para reduzir drasticamente o fluxo rio abaixo.

Negociações entre Etiópia, Egito e Sudão se arrastaram por mais de uma década.

Em alguns momentos, autoridades egípcias chegaram a sugerir que a destruição da barragem seria uma opção.

O Sudão oscilou entre apoiar e temer o projeto, preocupado com inundações durante o enchimento.

As tensões diplomáticas só começaram a ceder quando a Etiópia iniciou o enchimento gradual do reservatório a partir de 2020, provando que o fluxo a jusante não seria interrompido de forma catastrófica.

Cinco enchimentos para encher um mar artificial

O enchimento do reservatório aconteceu em cinco fases, aproveitando a estação de chuvas:

  • Terceiro enchimento (2022): altitude de 600 metros
  • Quarto enchimento (2023): altitude de 625 metros
  • Quinto e último enchimento (outubro de 2024): altitude de 640 metros — reservatório completo

A primeira turbina de 375 MW foi conectada à rede em 20 de fevereiro de 2022.

Em agosto de 2024, duas turbinas de 400 MW cada foram comissionadas.

Em abril de 2025, seis turbinas já estavam operacionais e a barragem estava em 98,66% de conclusão.

Um país onde faltava luz agora tem a maior hidrelétrica do continente

Antes da GERD, a Etiópia enfrentava cortes frequentes de eletricidade.

A capacidade de geração era insuficiente para atender à demanda dos setores industrial e residencial em crescimento.

A GERD muda essa realidade.

A usina sozinha gera mais energia do que toda a capacidade instalada anterior do país.

Os objetivos estratégicos incluem eletrificar áreas rurais, reduzir a dependência de energia importada e fornecer base estável para a industrialização.

A Etiópia possui potencial estimado de 45 GW de energia hidrelétrica — a GERD representa pouco mais de 10% desse total.

GERD vs. Itaipu vs. Três Gargantas: onde ela se encaixa

Três Gargantas, na China, lidera com 22.500 MW de capacidade instalada — mais de 4 vezes a GERD.

Itaipu, na fronteira Brasil-Paraguai, tem 14.000 MW e é a segunda maior.

A GERD, com 5.150 MW, é significativamente menor em capacidade.

Porém, seu reservatório de 74 km³ é maior que o de Itaipu (29 km³).

Na África, a GERD supera com folga a segunda maior hidrelétrica do continente, a Aswan High Dam do Egito (2.100 MW).

Para a Etiópia, a escala é transformadora: é como se o Brasil inaugurasse três Itaipus de uma vez, proporcionalmente ao tamanho da economia.

Quem construiu e quanto custou

As obras civis foram executadas pelo grupo italiano Webuild (anteriormente Salini Impregilo), uma das maiores construtoras de barragens do mundo.

As turbinas Francis da primeira fase foram fornecidas pela Alstom por €250 milhões.

O custo total do projeto não foi divulgado oficialmente.

O financiamento veio de títulos do governo etíope e doações privadas — sem empréstimos de bancos internacionais ou do Banco Mundial.

A Etiópia insistiu em financiar a obra com recursos próprios como símbolo de soberania.

O que ainda preocupa

O acordo definitivo entre Etiópia, Egito e Sudão sobre a operação da barragem ainda não foi assinado.

O Egito continua dependendo do Nilo para irrigação e abastecimento de 100 milhões de habitantes.

Mudanças climáticas podem afetar o volume de chuvas na bacia do Nilo Azul, impactando a geração.

Sete das 13 turbinas ainda precisam ser comissionadas para atingir a capacidade total de 5.150 MW.

Mas o marco está feito.

A Etiópia, um dos países mais pobres do mundo, ergueu a maior obra de engenharia da África com dinheiro próprio — e, pelo caminho, desafiou o Egito, o Sudão e séculos de hegemonia sobre o Nilo.

Fonte https://clickpetroleoegas.com.br/

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