FALA SÉRIO 138 – “A mãe de todas as mentiras”, Fluxo de Caixa, Dividendos e o Preço do Diesel

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Escrito por Cláudio da Costa Oliveira abril 2026

Depois da venda de ativos,
veio a nova lógica.

A Petrobras deixou de ser uma empresa voltada para investimento.

Passou a ser uma empresa voltada para:

geração de caixa.

E isso mudou tudo.

Em setembro de 2016 foi introduzido o:

PPI — Preço de Paridade de Importação.

Na prática, isso significa que o preço no Brasil passou a acompanhar:

  • o preço internacional do petróleo
  • o dólar
  • os custos de importação

No início, os ajustes eram mensais.

Mas em 30 de junho de 2017,
os preços passaram a ser ajustados diariamente.

A partir daí, o Brasil passou a importar volatilidade.

Se o preço sobe lá fora, sobe aqui.

Se o dólar sobe, sobe aqui.

E o consumidor brasileiro,
mesmo vivendo em um país produtor de petróleo,
passou a pagr como se estivesse importando tudo.

Esse modelo tinha um objetivo claro:

garantir previsibilidade e retorno ao mercado.

E funcionou.

A Petrobras passou a gerar muito caixa.

E passou também a distribuir:

dividendos recordes.

Em alguns momentos,
entre os maiores do mundo.

Mas aqui está o ponto central:

Esse caixa não veio apenas da operação.

Veio também de:

  • venda de ativos
  • redução de investimentos
  • preços alinhados ao mercado internacional

Ou seja:

menos investimento no futuro,
mais retorno no presente.

A Petrobras mudou de natureza.

De empresa integrada de energia,
para empresa geradora de caixa e distribuidora de dividendos.

E isso tem consequência.

O Brasil não refina todo o diesel que consome.

Depende de importação.

E com o PPI, o preço interno passou a refletir essa dependência.

O resultado está no dia a dia:

  • diesel caro
  • frete caro
  • alimentos mais caros
  • custo de vida mais alto

E então surge a pergunta:

Por que um país que produz petróleo
paga combustível caro?

A resposta não está no posto.

Está na estratégia.

O Brasil abriu mão de controlar sua cadeia energética.

E quando isso acontece,
o preço deixa de ser nacional.

Passa a ser internacional.

A Petrobras gera caixa.

Distribui dividendos.

Mas o país paga a conta.

E quem sente primeiro?

O caminhoneiro.

E depois, toda a população.

Porque no Brasil,
tudo anda sobre rodas.

E tudo depende do diesel.

No final, a equação é simples:

Menos investimento.
Mais importação.
Mais dependência.
Mais custo.

E, mais uma vez:

quem paga é o povo brasileiro. 

A nova Petrobras passou a gerar muito caixa.

E passou também a distribuir dividendos em níveis nunca vistos.

Entre 2022 e 2024,
a Petrobras distribuiu cerca de US$ 75 bilhões em dividendos.

Mais do que qualquer grande petroleira internacional:

  • Shell
  • ExxonMobil
  • Chevron
  • BP
  • Total Energies

E isso com um detalhe importante:

A receita dessas empresas é, em muitos casos,
mais que o dobro da Petrobras.

Ou seja:

proporcionalmente, a Petrobras distribuiu muito mais.

Em 2024, chegou-se a um ponto ainda mais significativo:

os dividendos pagos superaram o lucro do exercício.

Isso é possível do ponto de vista contábil.

Mas tem consequência.

O patrimônio líquido foi reduzido.

As reservas de lucro diminuíram.

Em outras palavras:

a empresa foi se descapitalizando.

NENHUMA MÍDIA DIVULGOU ESTE FATO !!

Ao mesmo tempo,
a Petrobras apresenta uma característica fora do padrão internacional:

Enquanto grandes petroleiras operam com uma relação
geração de caixa / receita bruta entre 16% e 18%,

na Petrobras essa relação supera:

35%.

Isso não acontece por acaso.

Reflete:

  • elevada produtividade do pré-sal
  • estrutura de custos eficiente
  • e política de preços no mercado interno

Além disso, há um fator pouco discutido:

a Petrobras possui condições específicas em determinados campos,
como na cessão onerosa,
que reduzem encargos como a participação especial.

Ou seja:

a empresa gera muito caixa.

Mas a pergunta permanece:

O que está sendo feito com esse caixa?

Investimento?

Ou distribuição?

Porque energia não é um negócio de curto prazo.

É um negócio de décadas.

E quando uma empresa de energia:

  • distribui mais do que retém
  • reduz seu patrimônio
  • diminui sua capacidade de investimento

Ela pode até parecer forte hoje.

Mas enraquece o amanhã.

E no caso do Brasil,
isso não é apenas uma decisão empresarial.

É uma decisão estratégica.

Porque a Petrobras não é uma empresa qualquer.

Ela é a base energética do país.

E, mais uma vez,
a consequência aparece no mesmo lugar:

no diesel,
no transporte,
e no custo de vida da população.

Há ainda um aspecto pouco discutido.

Uma parte relevante da produção brasileira está em áreas com características específicas,
como a cessão onerosa, estabelecida em 2010.

Nessas áreas, como o campo de Búzios,
um dos mais produtivos do mundo,

a combinação de alta produtividade e regime contratual
altera significativamente a estrutura de custos e encargos.

Em regimes tradicionais de concessão,
a chamada participação especial pode atingir níveis elevados
em campos de alta rentabilidade — chegando a representar
uma parcela significativa da receita.

Na cessão onerosa, esse mecanismo é diferente.

Isso contribui para uma geração de caixa extraordinária.

E ajuda a explicar por que a Petrobras apresenta indicadores acima da média internacional.

Mas há um ponto ainda mais importante.

A Petrobras no é uma empresa qualquer.

Ela é uma empresa estatal.

E empresas estatais não são criadas com o objetivo principal de maximizar lucro.

São criadas para:

  • garantir segurança energética
  • sustentar o desenvolvimento econômico
  • estabilizar preços
  • apoiar a indústria nacional

A Petrobras foi criada em 1953.

E poucos anos depois, em 1957,
já tinha ações negociadas em bolsa.

Ou seja:

desde o início,
sempre foi uma empresa de capital misto.

Quem investe em uma estatal sabe disso.

Sabe que não se trata apenas de retorno financeiro.

Mas de uma empresa que tem também
função estratégica nacional.

Quando essa função é deixada de lado,
e a empresa passa a operar como se fosse apenas uma geradora de caixa para acionistas,

algo se perde.

Perde-se a visão de longo prazo.

Perde-se a integração.

Perde-se a estratégia.

E o que sobra é uma empresa eficiente no curto prazo,
mas menos relevante para o país.

E isso, mais cedo ou mais tarde,
aparece no mesmo lugar de sempre:

no diesel,
no transporte,
e no custo de vida da população.

OPINIÕES, CRÍICAS, SUGESTÕES : SOBERANOBRASILES@GMAIL.COM 

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