FALA SÉRIO 129 O que não estão dizendo sobre o preço do diesel

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Escrito por Cláudio da Costa Oliveira março de 2026 

Nos últimos dias a mídia brasileira passou a falar muito sobre os cartéis existentes na distribuição e revenda de combustíveis no país.

Isso é verdade.

O Brasil possui um mercado altamente concentrado na distribuição. Poucas empresas dominam o setor e frequentemente surgem suspeitas de alinhamento de preços.

Mas existe um problema.

Ao focar apenas nos postos, o debate ignora questões muito mais relevantes, que ajudam a explicar o preço final do diesel no Brasil.

E isso não é por acaso.

Grande parte da imprensa, assim como sindicatos de petroleiros que hoje atuam na prática como defensores do governo, evita discutir certos números.

Números que raramente aparecem no debate público.

A margem nas refinarias

Hoje a Petrobras vende o diesel em suas refinarias por cerca de R$ 3,29 por litro.

Estimativas amplamente discutidas no setor indicam que o custo de produção gira em torno de R$ 1,00 por litro.

Isso significa margens superiores a 200%.

Nenhuma grande petroleira do mundo trabalha com margens dessa magnitude no diesel.

Por isso a Petrobras apresenta lucros extraordinários.

Não se trata apenas de eficiência.

Existe também um conjunto de benefícios fiscais e regras especiais, como por exemplo a isenção de participação especial em volumes da cessão onerosa, que ampliam essa rentabilidade.

A mistura obrigatória de biodiesel

Existe ainda outro fator que quase não aparece no debate.

O diesel vendido no Brasil não é apenas diesel.

Ele contém 15% de biodiesel misturado obrigatoriamente.

Segundo levantamento recente da ANP, a composição média do preço do diesel no Brasil é a seguinte:

Preço médio nacional: R$ 6,15 por litro

Composição:

  • R$ 2,80 – Parcela Petrobras (45,5%)
  • R$ 1,06 – Distribuição e revenda (17,2%)
  • R$ 0,80 – Biodiesel (13,0%)
  • R$ 1,17 – Imposto estadual (ICMS)
  • R$ 0,32 – Impostos federais

(Dados ANP / Petrobras – coleta entre 01/03/2026 e 07/03/2026)

O preço real do biodiesel

Mas esses números escondem outro detalhe importante.

O diesel vendido ao consumidor contém 85% de diesel mineral e 15% de biodiesel.

Se fizermos o cálculo correto, descobrimos os preços reais dos componentes.

A parcela da Petrobras (R$ 2,80) corresponde a 85% do combustível.

Portanto:

2,80 ÷ 0,85 = R$ 3,29 por litro de diesel puro

Já o biodiesel representa 15% da mistura.

Portanto:

0,80 ÷ 0,15 = R$ 5,33 por litro de biodiesel

Ou seja:

o biodiesel custa muito mais caro que o diesel.

Qual é a lógica?

Se o biodiesel fosse mais barato que o diesel, a mistura poderia até fazer sentido econômico.

Mas não é o caso.

Estamos misturando um combustível mais caro dentro de outro mais barato.

A pergunta é inevitável:

quem está sendo beneficiado por essa política?

Meia dúzia de grandes produtores de biodiesel?

O argumento ambiental

Muitos defendem essa política dizendo que ela reduz a poluição.

Mas esse argumento também precisa ser colocado em perspectiva.

O Brasil já possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo.

Grande parte da nossa eletricidade vem de fontes renováveis.

Além disso, nossas emissões históricas são muito menores do que as de países altamente industrializados.

Quem realmente poluiu o planeta foram os Estados Unidos, a Europa e, mais recentemente, a China.

Não será o Brasil que resolverá esse problema.

O silêncio conveniente

Curiosamente, esses temas quase não aparecem no debate público:

  • as margens extraordinárias nas refinarias
  • e o impacto da mistura obrigatória de biodiesel

Em vez disso, a discussão se concentra apenas na revenda nos postos.

É mais simples.

E politicamente mais conveniente.

No final, quem paga

Enquanto isso:

  • a Petrobras apresenta lucros recordes
  • governos arrecadam impostos elevados
  • setores específicos recebem benefícios
  • e o consumidor paga a conta

Especialmente o caminhoneiro, que depende do diesel para trabalhar.

Transparência

Se o Brasil quiser discutir seriamente o preço dos combustíveis, é preciso colocar todos os números na mesa.

Sem esconder dados.

Sem proteger interesses.

Porque, no final das contas, quem paga o diesel caro é sempre o mesmo brasileiro de sempre.

Observações, críticas, comentários: soberanobrasiles@gamisl.com

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