Um plano bilionário, com custo estimado em até US$ 50 bilhões, propõe bombear água do mar para a superfície do Ártico a fim de engrossar o gelo marinho e tentar conter o aquecimento acelerado da região, reduzindo impactos climáticos em escala global

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Arctic Ice Management propõe usar bombas eólicas no Ártico para bombear água do mar ao gelo no inverno, congelar e engrossar a camada com custo de até US$ 50 bi/ano.

O Oceano Ártico tem uma característica que, por décadas, funcionou como “escudo” do planeta: o gelo marinho. Ele reflete grande parte da luz solar, ajuda a manter a região fria e influencia padrões atmosféricos e oceânicos. Só que esse gelo vem diminuindo em ritmo bem documentado por satélites. A NASA, com base em dados do NSIDC, aponta que a extensão média de gelo em setembro (quando o Ártico costuma atingir o mínimo anual) vem caindo cerca de 13,4% por década em relação à média de 1981–2010.

É dentro desse pano de fundo — gelo mais raro, mais fino e mais vulnerável — que um grupo ligado à Arizona State University (ASU) apresentou uma ideia que parece industrial e ao mesmo tempo simples na lógica física: usar o inverno do Ártico para fabricar mais gelo, puxando água do mar para cima e deixando o frio fazer o resto. A proposta ganhou nome formal, Arctic Ice Management (AIM), e foi publicada em um artigo na Earth’s Future com DOI 10.1002/2016EF000410.

A seguir, o que o estudo descreve: como seriam os dispositivos, quanta água precisaria ser bombeada, qual espessura adicional o gelo poderia ganhar, a escala estimada para uma intervenção relevante e os limites práticos apontados nas análises associadas ao conceito.

O que é o Arctic Ice Management e por que ele foca no inverno

O AIM parte de uma constatação observacional: no verão, o gelo perde área e espessura; no inverno, ele volta a crescer, mas nem sempre “recupera” o suficiente para sobreviver ao ciclo seguinte. A proposta não se baseia em resfriar o planeta diretamente, e sim em aumentar artificialmente a espessura do gelo durante o inverno, em áreas onde a sobrevivência no verão é considerada “marginal” (ou seja, locais em que alguns dezenas de centímetros a mais podem mudar se o gelo aguenta ou não a estação quente).

Manipulação de fluidos

O mecanismo descrito é termodinâmico. Em condições de frio intenso, a água exposta congela. Se a água do oceano for levada à superfície do gelo, durante a noite polar e o auge do inverno, ela pode congelar e adicionar volume à placa de gelo.

No artigo, os autores modelam esse processo e relatam que bombear cerca de 1,3 metro de água do mar para cima (ao longo do inverno) equivale a algo como 1,4 metro de gelo, resultando em cerca de 1 metro de aumento de espessura ao final da estação.

Energia Eólica

Como seriam as “bombas eólicas” no gelo do Ártico

A proposta descreve um equipamento pensado para funcionar no próprio ambiente polar: uma estrutura flutuante (boia) com um sistema de captação de vento e uma bomba. A energia viria do vento do Ártico, com turbina acoplada a um mecanismo capaz de puxar água do oceano por baixo do gelo e liberar essa água por cima da superfície.

No texto do artigo (e nas descrições associadas ao projeto), aparece uma referência de dimensionamento: uma turbina com pás de aproximadamente 6 metros de diâmetro seria suficiente, em princípio, para bombear o volume necessário para cobrir uma área-alvo com a lâmina de água que congelaria ao longo do inverno.

A lógica operacional não é “jogar um lago” de água de uma vez. O conceito depende de bombeamento repetido ao longo da estação fria, criando camadas que congelam e se integram ao gelo existente. O estudo usa um modelo simplificado de congelamento no inverno e derretimento no verão para avaliar quanto espessamento seria obtido e como isso poderia afetar a sobrevivência do gelo na temporada seguinte.

O número que vira manchete: 10 milhões de unidades

Uma parte central do AIM é que ele não descreve um “protótipo isolado” como solução. Ele discute uma escala que, se levada ao pé da letra, entra na categoria de megaprojeto.

Abastecimento e tratamento de águas

O artigo e as divulgações ligadas à ASU afirmam que cada unidade poderia atuar sobre cerca de 0,1 km² de gelo ao longo do inverno. Com essa produtividade por unidade, o cálculo apresentado indica que seriam necessários cerca de 10 milhões de dispositivos para atuar em uma fração relevante do oceano — na discussão, aparece o alvo de ~10% do Oceano Ártico.

Essa escala não é aleatória. Ela deriva de geometria e área: 0,1 km² por unidade é uma “mancha” pequena; para alcançar centenas de milhares a milhões de km², você entra rapidamente na casa de milhões de equipamentos.

Por que “1 metro a mais” é relevante na física do gelo marinho

No artigo, os autores contextualizam a espessura média anual do gelo. O texto menciona que a espessura média anual é próxima de 1,5 metro e que adicionar cerca de 1 metro representa um aumento grande, da ordem de ~70% em certas condições consideradas no modelo.

O estudo também compara esse espessamento com tendências de afinamento. No trecho do PDF, aparece a estimativa de que a espessura média anual estaria diminuindo a uma taxa aproximada de 0,58 m por década, e que “adicionar 1 metro em um ano” seria uma taxa muito superior à perda média estimada no período analisado pelo modelo.

Em volume, o artigo apresenta ordens de grandeza: fala em ~104 km³ de gelo por ano como equivalente do espessamento sobre a área tratada, e menciona uma taxa de perda de volume na casa de ~3200 km³ por década (dependendo do recorte e do conjunto de dados considerado).

Esses números existem no texto como parte do argumento de “escala física”: o plano tenta mostrar que, em teoria, o volume de gelo “fabricado” poderia ser comparável (ou superior) às taxas de perda discutidas no próprio paper, desde que a implantação fosse ampla.

O papel do albedo: gelo claro versus oceano escuro

O estudo e as reportagens explicam a motivação climática principal: o efeito albedo. Gelo e neve refletem mais radiação;  água líquida, especialmente oceano, absorve mais. A divulgação da ASU resume esse contraste com um número que costuma circular: gelo reflete grande parte da luz solar, enquanto o oceano absorve grande parte.

A consequência física do recuo do gelo é conhecida: mais oceano exposto no verão significa mais energia absorvida, o que aquece a água e dificulta o congelamento posterior, alimentando um ciclo de retroalimentação. Esse mecanismo é citado como parte do contexto para explicar por que o Ártico é tratado como uma região “sensível” no sistema climático.

Manipulação de fluidos

Onde o AIM mira: gelo “marginal” e regiões do oceano com maior vulnerabilidade

O artigo enfatiza que o espessamento seria mais relevante “onde o gelo sobrevive por pouco” ao verão. Isso aponta para áreas em que o gelo sazonal domina e a espessura média está abaixo de patamares mais estáveis. A divulgação da ASU descreve que metade do Oceano Ártico pode ser caracterizada por gelo com espessura média abaixo de ~1,5 m em certos recortes, e que aumentar 1 m em parte da área poderia compensar tendências de perda.

Em termos de narrativa, isso significa mirar locais onde o gelo não é “o mais protegido”, mas onde ainda existe gelo suficiente para receber a intervenção e, em teoria, persistir mais tempo.

Quanto custaria: por que “US$ 50 bilhões” aparece como referência

O seu título fala em “até US$ 50 bilhões”, e isso aparece nas descrições do projeto como custo anual em um cenário de implantação distribuída ao longo de uma década.

A divulgação da ASU descreve a seguinte conta: cerca de 10 milhões de unidades, custo estimado de US$ 50.000 por unidade, implantação ao longo de 10 anos, resultando em algo como US$ 50 bilhões por ano nesse horizonte temporal.

Abastecimento e tratamento de águas

Outras matérias jornalísticas associadas ao tema também repercutiram ordens de grandeza na casa de centenas de bilhões, com variações conforme o enquadramento (custo anual versus custo total de um programa de vários anos).

O que é consistente entre as fontes ligadas ao paper é: a ordem de grandeza vem da multiplicação entre “quantidade de unidades” e “custo unitário” em um cronograma de implantação.

Materiais e capacidade industrial: o que o paper e a divulgação mencionam

A proposta também entra no terreno de capacidade industrial, porque fabricar milhões de estruturas para operar no Ártico não é apenas “uma ideia”: depende de cadeia de suprimentos, materiais e manutenção.

Algumas reportagens que repercutiram o tema mencionaram massa de material necessária (por exemplo, aço) e a escala de fabricação como parte do debate sobre viabilidade industrial.

No paper, o foco está no modelo físico (congelamento e derretimento), no dimensionamento de bombeamento e na área coberta por unidade, mas o próprio enquadramento da ASU deixa claro que se trata de um projeto pensado em “escala de milhões”.

Os desafios práticos que aparecem ao redor do conceito

O estudo apresenta uma proposta e modelagem; as análises e repercussões acrescentam questões operacionais que surgem imediatamente quando se fala em colocar milhões de dispositivos em um oceano com gelo móvel.

Ciências aquáticas e marinhas

Alguns dos pontos recorrentes na discussão pública do AIM incluem: como essas unidades resistiriam a compressão e fratura do gelo, como lidariam com tempestades e deriva do gelo, como seria feita a instalação em massa e como seria a manutenção em um ambiente remoto. A própria divulgação da ASU menciona a necessidade de protótipos e testes para avaliar o que funcionaria “no mundo real”.

Essa parte é importante porque o AIM, como publicado, é uma proposta de engenharia com modelagem: ele descreve um caminho físico para aumentar gelo, mas não se apresenta como tecnologia já pronta e instalada.

O gelo do Ártico em números: o que as séries históricas mostram

A discussão do AIM se encaixa em dados observacionais de longo prazo que mostram queda no gelo, principalmente no fim do verão.

A NASA Earth Observatory, com base em dados do NSIDC, destaca o declínio de ~13,4% por década na extensão de setembro desde 1979, em relação à média 1981–2010.

A NOAA/Arctic Report Card também discute tendências negativas e anomalias de extensão, reforçando que o comportamento de setembro é um dos indicadores centrais acompanhados por séries históricas.
E atualizações recentes (como as análises anuais do NSIDC publicadas via NOAA Climate.gov) continuam situando os mínimos anuais em patamares baixos no registro por satélite, com variação de ano a ano, mas com tendência de longo prazo documentada.

Esse conjunto de dados serve como base para o problema que o AIM tenta endereçar: menos gelo e gelo mais fino são condições iniciais que tornam qualquer verão mais “sensível” a vento, correntes e aquecimento.

Situação do Arctic Ice Management hoje: proposta publicada, sem implantação em escala

As informações disponíveis em fontes ligadas ao paper e à ASU descrevem o AIM como uma proposta publicada e discutida, com chamada para desenvolvimento de protótipos e avaliações posteriores. A divulgação institucional da ASU não descreve um programa em operação no Ártico em escala industrial; ela apresenta o trabalho como artigo e conceito de engenharia a ser avaliado.

No estado descrito publicamente, portanto, o AIM existe como: um artigo revisado/publicado com DOI, uma modelagem física de congelamento e derretimento, um dimensionamento de turbina/bomba e uma conta de escala/custo associada ao número de unidades e à área coberta.

O que o paper coloca no centro: volume, área e espessura como variáveis-chave

Para entender por que essa proposta é tratada como “bilionária” e “de milhões de peças”, a chave está no tripé do próprio artigo: área coberta por unidadeespessura adicional por inverno e volume total de gelo equivalente.

O paper descreve que uma turbina com dimensões específicas poderia bombear  água suficiente para congelar e espessar o gelo em cerca de 0,1 km², gerando aproximadamente 1 metro de aumento de espessura. A partir daí, ele escala o raciocínio para milhões de unidades e um alvo de ~10% do Ártico em regiões apropriadas.

A conclusão interna do modelo é: se o espessamento ocorresse na escala indicada e nas áreas “marginais” certas, o impacto físico sobre a espessura anual poderia ser grande o suficiente para competir com tendências de afinamento discutidas no artigo.

Manipulação de fluidos

Arctic Ice Management é uma proposta formal publicada na Earth’s Future que descreve um método de engrossamento de gelo marinho no inverno por meio de bombas movidas a vento. O conceito estima que bombear cerca de 1,3 m de água ao longo do inverno pode resultar em cerca de 1 m de espessamento, e que cada unidade poderia atuar em torno de 0,1 km², levando ao número de ~10 milhões de unidades para operar sobre cerca de 10% do Oceano Ártico.

O custo “até US$ 50 bilhões” aparece no enquadramento de implantação em uma década como estimativa anual baseada no custo unitário e no número total de dispositivos propostos.

E a motivação de fundo é sustentada por séries históricas que mostram declínio persistente do gelo marinho, especialmente no fim do verão, com números amplamente reproduzidos por instituições científicas e monitoramento por satélite.

Fonte https://clickpetroleoegas.com.br/

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