Milhões de pneus descartados viram quilômetros de estradas no Brasil: tecnologia transforma lixo urbano em asfalto mais resistente, reduz custos, aumenta a durabilidade das rodovias e muda a engenharia viária nacional

00000001-3

Milhões de pneus descartados estão sendo incorporados ao asfalto no Brasil, criando estradas mais duráveis, silenciosas e sustentáveis, com ganhos ambientais e técnicos comprovados.

No Brasil, um país que descarta mais de 450 mil toneladas de pneus por ano, um problema ambiental histórico começou a ser tratado como solução de engenharia pesada. Desde o início dos anos 2000, rodovias federais, estaduais e municipais passaram a incorporar borracha moída de pneus inservíveis na composição do asfalto, criando o chamado asfalto-borracha. A tecnologia foi adotada de forma progressiva por órgãos públicos e concessionárias após regulamentações do Conselho Nacional do Meio Ambiente, da Agência Nacional do Petróleo e diretrizes técnicas do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes.

A aplicação prática ocorre em diversos estados, com destaque para São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Ceará, envolvendo contratos públicos documentados, ensaios laboratoriais certificados e resultados monitorados ao longo de anos. O reaproveitamento dos pneus atende simultaneamente a três frentes: gestão ambientaldesempenho estrutural do pavimento e redução de custos de manutenção. Não se trata de projeto experimental, mas de uma solução já incorporada à engenharia viária brasileira.

O que é o asfalto-borracha e como ele é produzido

O asfalto-borracha é um ligante asfáltico modificado que incorpora borracha moída proveniente de pneus inservíveis ao cimento asfáltico de petróleo (CAP). A borracha passa por trituração industrial, separação de aço e fibras, moagem fina e controle granulométrico antes de ser misturada ao ligante.

Existem dois processos principais adotados no Brasil. No processo úmido, a borracha é incorporada diretamente ao ligante asfáltico em temperaturas elevadas, alterando suas propriedades físico-químicas. No processo seco, a borracha atua como um agregado elástico adicionado à mistura asfáltica. Ambos os métodos são regulamentados por normas técnicas da ANP, da ABNT e por especificações do DNIT.

O resultado é um pavimento com maior elasticidademenor suscetibilidade a trincasmelhor resistência à fadiga e redução significativa do ruído gerado pelo contato pneu-asfalto.

Quantos pneus são usados e qual o impacto ambiental real

Cada quilômetro de rodovia pavimentado com asfalto-borracha pode reutilizar entre 1.000 e 2.000 pneus de automóveis, dependendo da espessura da camada aplicada e do projeto estrutural. Em trechos urbanos ou de alto tráfego, esse número pode ser ainda maior.

Somando os projetos executados desde o início da adoção da tecnologia, o Brasil já reutilizou dezenas de milhões de pneus, retirando um passivo ambiental crítico de aterros, rios, terrenos baldios e áreas de risco sanitário. Pneus descartados são conhecidos por acumular  água, favorecer a proliferação do Aedes aegypti e oferecer risco elevado de incêndios tóxicos quando armazenados inadequadamente.

A destinação para pavimentação resolve de forma definitiva o problema: o pneu é incorporado à estrutura da estrada e não retorna ao meio ambiente.

Água Engarrafada

Por que o asfalto com pneus dura mais que o convencional

Do ponto de vista da engenharia, a grande vantagem do asfalto-borracha está no comportamento viscoelástico da mistura. A borracha absorve e dissipa tensões geradas pelo tráfego pesado e pelas variações térmicas, reduzindo falhas estruturais comuns em pavimentos tradicionais.

Estudos técnicos conduzidos por universidades brasileiras, concessionárias e laboratórios credenciados indicam:

  • Aumento de 30% a 50% na vida útil do pavimento
  • Redução significativa de trincas por fadiga
  • Menor deformação permanente (afundamento de trilha de roda)
  • Maior aderência em pista molhada
  • Redução de até 5 dB no ruído do tráfego

Esses ganhos são particularmente relevantes em corredores logísticos, rodovias de escoamento agrícola e vias urbanas de alto volume, onde o custo de manutenção recorrente costuma ser elevado.

Onde a tecnologia já foi aplicada no Brasil

O uso do asfalto-borracha no Brasil é documentado em obras públicas e privadas. Entre os exemplos mais conhecidos estão:

Em São Paulo, trechos das rodovias Anhanguera, Bandeirantes, Castelo Branco e Imigrantes receberam camadas com ligante modificado, além de vias urbanas na capital e na região metropolitana.

No Paraná, o DER aplicou asfalto-borracha em rodovias estaduais e acessos urbanos, com monitoramento de desempenho ao longo de anos.

No Ceará, projetos-piloto evoluíram para contratos permanentes em vias urbanas e rodovias, integrando a política estadual de resíduos sólidos.

Em Minas Gerais e Rio Grande do Sul, concessionárias adotaram a tecnologia em segmentos críticos, principalmente em áreas de variação térmica intensa.

Esses projetos contam com medições contínuas de desempenho, o que afasta qualquer caráter experimental ou improvisado.

Custo: mais caro na obra, mais barato ao longo do tempo

Um dos pontos mais debatidos é o custo inicial. O asfalto-borracha pode custar entre 10% e 25% mais na execução, dependendo da região e da logística da borracha moída. No entanto, a análise de ciclo de vida mostra um cenário diferente.

Com menor necessidade de reparos, recapeamentos e intervenções emergenciais, o custo total ao longo de 10 a 15 anos tende a ser inferior ao do pavimento convencional. Para gestores públicos, isso significa menos contratos de manutenção, menor impacto no tráfego e economia de recursos orçamentários.

Além disso, parte do custo da borracha é compensada por programas de logística reversa, exigidos por lei, que envolvem fabricantes e importadores de pneus.

O uso de pneus em pavimentação no Brasil não é decisão isolada de engenheiros ou prefeitos. Ele está ancorado em um arcabouço legal sólido.

Resolução CONAMA nº 416/2009 estabeleceu a responsabilidade pela destinação ambientalmente adequada dos pneus inservíveis. A ANP regulamentou os tipos de ligantes modificados aceitos no mercado nacional. O DNIT publicou especificações técnicas para uso em obras federais.

Esse conjunto normativo criou segurança jurídica para que estados e municípios adotassem a solução em larga escala, estimulando a criação de usinas de trituração, cadeias logísticas regionais e padronização técnica.

Comparação com outros países e posição do Brasil

Embora países como Estados Unidos, Espanha, Portugal e África do Sul também utilizem asfalto-borracha, o Brasil se destaca pelo volume potencial de matéria-prima, pela extensão da malha rodoviária e pela integração da tecnologia à política ambiental.

Em alguns estados norte-americanos, o uso é restrito a regiões específicas. No Brasil, a aplicação ocorre tanto em grandes rodovias quanto em vias urbanas, acessos industriais e estradas vicinais, o que amplia o impacto ambiental positivo.

Limitações e desafios ainda existentes

Apesar dos benefícios, a tecnologia enfrenta desafios. A principal limitação é a disponibilidade regional da borracha moída, que depende de plantas industriais próximas. Em regiões remotas, o custo logístico pode inviabilizar a aplicação.

Outro ponto crítico é a qualidade da execução. Temperatura inadequada, dosagem incorreta ou mistura mal controlada comprometem o desempenho. Por isso, os projetos exigem mão de obra qualificada, fiscalização técnica rigorosa e controle de qualidade contínuo.

O que muda para a engenharia viária brasileira

O uso de pneus em estradas representa uma mudança estrutural na forma como o Brasil lida com resíduos e infraestrutura. A rodovia deixa de ser apenas um consumidor de recursos naturais e passa a funcionar como destino final de um resíduo problemático, com ganho técnico mensurável.

Essa abordagem reforça uma tendência mais ampla da engenharia moderna: transformar passivos ambientais em ativos estruturais, reduzindo impacto ecológico sem sacrificar desempenho.

Fonte https://clickpetroleoegas.com.br/

WhatsApp
Facebook
Twitter
LinkedIn
Telegram