O acúmulo de pneus velhos descartados sem controle gera riscos ambientais, proliferação de mosquitos transmissores de doenças, incêndios e ocupação de grandes áreas urbanas, enquanto iniciativas de reciclagem começam a transformar esse passivo em atividade industrial, renda local e redução de lixões
Uma das primeiras empresas de reciclagem de pneus velhos da Nigéria processa centenas de unidades por dia desde 2018, enfrenta um estoque local superior a 400 mil pneus e atua em um país onde o descarte inadequado favorece doenças, incêndios e aterros, em um mercado global bilionário.
Operação pioneira e escala inicial do reaproveitamento de pneus velhos
A iniciativa começou em 2018, quando a fundadora criou a empresa Free Recycle com o objetivo de reaproveitar pneus velhos descartados. Atualmente, a companhia recicla centenas de pneus por dia e mantém mais de 400 mil unidades estocadas em seu terreno, o que ainda representa apenas uma fração do problema global.
Em todo o mundo, os seres humanos descartam cerca de 1 bilhão de pneus por ano. A reciclagem é cara e complexa, o que leva muitos países a simplesmente acumularem pneus velhos em aterros. Na Nigéria, esse acúmulo cria áreas com água parada, que se tornam criadouros de mosquitos transmissores da malária.
Mais da metade dos carros do país circula em torno de Lagos. Isso aumenta a probabilidade de pneus velhos acabarem em oficinas de beira de estrada, onde mecânicos recolhem unidades inutilizáveis para revendê-las à recicladora por cerca de 30 centavos de dólar cada.
Cadeia de coleta, renda local e estrutura industrial
Oficinas independentes guardam pneus que não podem mais ser reparados e os vendem à empresa. Para muitos comerciantes locais, isso representa uma nova fonte de renda para um material antes considerado sem valor. Os pneus recolhidos são armazenados em um terreno de cerca de 2,5 acres atrás da fábrica.
Quando o projeto foi apresentado inicialmente, houve descrédito sobre a viabilidade financeira de transformar pneus velhos em produtos comerciais. Hoje, a empresa emprega mais de 100 trabalhadores em tempo integral e obtém aproximadamente 16 centavos de lucro por pneu reciclado.
O primeiro pneu foi reciclado em outubro de 2020. Um dos principais desafios técnicos é remover os fios de aço embutidos na borracha. Para isso, foi adquirida uma máquina chamada debiter, capaz de retirar o aço em cerca de 20 segundos por unidade.
Processos mecânicos e separação dos materiais
Após a remoção do aço, os pneus seguem para um cortador que divide cada unidade em quatro ou cinco partes. Isso facilita o manuseio e permite que a fábrica processe cerca de 15 pneus de automóveis por hora. A durabilidade do material, que garante resistência no uso automotivo, dificulta a reciclagem.
A resistência da borracha está ligada à vulcanização, processo descoberto no século XIX por Charles Goodyear, no qual o enxofre fortalece o material e o torna resistente a temperaturas extremas. Essa característica impulsionou a expansão da produção de pneus ao longo do século XX.
No processo atual, trituradores reduzem os pneus a pedaços menores. Tambores esmagam o material repetidamente, enquanto telas vibratórias separam fragmentos de até 5 milímetros. Ímãs retiram resíduos metálicos restantes, e separadores isolam fibras sintéticas de nylon ou plástico.
Transformação final e adaptação ao clima
Após a separação, resta apenas a borracha. Telas vibratórias finais classificam o material por tamanho. O pó mais fino é usado em áreas como playgrounds e academias, enquanto grânulos de 3 a 5 milímetros servem para pavimentação de entradas e calçadas.
Os grânulos são misturados em equipamentos aquecidos com um aglutinante de poliuretano. A formulação precisou ser ajustada para funcionar no clima tropical da savana nigeriana, já que misturas usadas em outras regiões não apresentavam o mesmo desempenho.
Corantes definem a aparência das peças. Uma fina camada colorida vai primeiro ao molde, seguida pelo restante da mistura sem cor, reduzindo custos. O material é comprimido manualmente, prensado hidraulicamente e levado a fornos, onde seca por até oito horas.
Energia, produção diária e mercado global
Devido à instabilidade da rede elétrica local, cerca de 80% da energia usada na fábrica é gerada internamente por geradores a diesel. Em um dia típico, a produção de blocos de borracha é suficiente para cobrir uma quadra de tênis inteira.
Cada pneu reciclado rende aproximadamente 25 blocos em formato semelhante a um osso. Esses produtos estão prontos para envio a clientes locais, principalmente escolas e áreas recreativas. No mercado global, pneus descartados movimentam cerca de US$ 12 bilhões por ano.
Em países como Estados Unidos, Europa e Japão, grande parte dos pneus é reciclada ou queimada para gerar energia em cimenteiras e fábricas de papel. Esse combustível custa menos que o gás natural e queima mais limpo que o carvão, embora ainda gere emissões comparáveis.
Riscos ambientais e comparação internacional
No final do século XX, os Estados Unidos acumularam mais de 1 bilhão de pneus em aterros. Pneus velhos podem liberar toxinas, reter gases como metano e até emergir à superfície. Em 1987, um incêndio em cerca de 30 acres de pneus no Colorado levou quase uma semana para ser controlado.
Após esse episódio, quase todos os estados norte-americanos aprovaram leis para financiar a reciclagem. Em 2021, o número de pneus estocados caiu para cerca de 50 milhões. Menos de 20% ainda vai para aterros, enquanto países em desenvolvimento enfrentam crescimento contínuo desse resíduo.
A Nigéria está entre os 10% piores países em reciclagem e sustentabilidade. Mesmo assim, a Free Recycle busca reduzir lixões de pneus velhos, começando pela região de Lagos. Seus produtos mais vendidos são pisos para playgrounds, elogiados pela elasticidade e facilidade de manutenção.
Expansão e perspectivas regionais
A empresa planeja expandir suas operações para outras partes da Nigéria e também para Ruanda, Costa do Marfim, Gana e Quênia. Além dos pneus velhos, a fundadora pretende atuar futuramente em outros tipos de resíduos, como papel, eletrônicos e garrafas PET.
Enquanto o fluxo de resíduos continua crescendo, o negócio se aproxima da lucratividade. A empreendedora administra simultaneamente a empresa e a vida familiar, mantendo o foco em ampliar a reciclagem e transformar um passivo ambiental em produtos utilizáveis, construídos bloco por bloco, com eficiência considreável.
Este artigo foi elaborado com base em conteúdo do canal Insider no YouTube, que apresentou a operação de reciclagem de pneus velhos na Nigéria, seus processos industriais, impactos ambientais e contexto histórico do descarte e reaproveitamento de pneus.
Fonte https://clickpetroleoegas.com.br/