Engenheira abandona a cidade, vive no alto da Serra da Mantiqueira, gera a própria energia com cachoeira, recicla 100% do lixo e transforma a fazenda num refúgio sustentável cercado por cachoeiras, animais soltos e natureza intacta

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Ao trocar o litoral paulista pela Serra da Mantiqueira, engenheira abandona a cidade, gera a própria energia com cachoeira, recicla praticamente todo o lixo e cuida de um refúgio cercado por mata preservada, animais soltos e água limpa em abundância.

Quando engenheira abandona a cidade e decide viver a 1.500 metros de altitude, em meio a araucárias, rios gelados e sete cachoeiras, a mudança não é só de CEP, é de lógica de vida. Samara, engenheira eletricista formada em Itajubá, nasceu no litoral paulista, morou em grandes cidades como São Paulo e Santos, viveu no exterior, mas foi na Serra da Mantiqueira, em Delfim Moreira, que se reconheceu de verdade. Há sete anos ela mora na Fazenda Boa Esperança, uma área de 211 hectares em que cerca de 30 têm alguma ocupação e todo o restante é mata e  água protegida, com galinhas, marrecos, pavão, peixes e cavalos vivendo soltos.

Ao mesmo tempo, a trajetória mostra que engenheira abandona a cidade sem abrir mão da profissão. Depois de um período totalmente dedicada à roça, ela voltou a atuar na engenharia graças ao home office que se consolidou na pandemia.

Hoje trabalha à distância para uma empresa da área de energia, enquanto coordena a rotina da fazenda, a operação da pequena usina hidrelétrica própria, o manejo do lixo e o acolhimento de visitantes que buscam descanso, natureza e um outro ritmo de vida.

Quando uma engenheira abandona a cidade e escolhe a Serra da Mantiqueira

A história começa no litoral paulista, em São Vicente, passa por Santos, São Paulo, por dois anos de vida na Irlanda e por viagens pela Europa. Em 2002, Samara chega a Itajubá para estudar engenharia elétrica e é ali que descobre a Mantiqueira.

Ela conta que se identificou mais com a serra do que com qualquer grande cidade em que já morou, tanto pelo clima quanto pelo estilo de vida.

Depois de anos entre urbanidade e viagens, ela volta para a região e passa a visitar o lugar que hoje é a Fazenda Boa Esperança.

A primeira visita foi por volta de 2007 ou 2008. Quinze anos depois, o encantamento virou morada definitiva. Há sete anos, a engenheira abandona a cidade e se instala na fazenda, assumindo não apenas uma casa, mas um território inteiro de mata, água, trilhas e trabalho físico.

Ela descreve a vida na roça como cheia de perrengues, mas repete que vale cada um deles. O ar é mais puro, a água é de mina, o custo de vida é mais simples e a sensação de sentido é maior.

Ao caminhar pela propriedade, Samara mostra lago, galinheiro, trilhas e cachoeiras com a naturalidade de quem conhece cada pedra, cada nascente, cada canto que precisa ser cuidado.

Energia que desce da cachoeira e acende a fazenda inteira

Engenheira abandona a cidade na Serra da Mantiqueira, cria fazenda sustentável com energia hidrelétrica e transforma o lugar em refúgio sustentável.

engenheira abandona a cidade, a energia elétrica não vem mais da rede urbana. Na Boa Esperança, toda a eletricidade usada na fazenda é gerada ali mesmo, com a força da água. Logo atrás da casa, uma cachoeira forte, a Boa Esperança, cai sobre a pedra, e uma parte dessa água é desviada por um canal verde até a casa de máquinas.

Dentro do pequeno galpão, um conjunto simples faz o trabalho. A água, captada mais acima, desce pela tubulação, move a turbina, aciona o gerador e volta imediatamente para o leito do rio poucos metros adiante.

O projeto foi pensado para ter o menor impacto possível no curso d’água, tirando só uma fração da vazão e devolvendo tudo ao rio. Nada de grandes barragens, grandes reservatórios ou rios secando.

A pequena central hidrelétrica foi desenhada há mais de vinte anos em parceria com a universidade onde Samara estudou, a Unifei.

Ela chegou a conhecer o projeto ainda como estudante e hoje é a responsável pela operação e pela manutenção da usina. Quando algo dá problema, é ela quem entra na casa de máquinas, escuta o barulho do gerador, analisa painéis e faz o sistema voltar a funcionar.

A fazenda opera em esquema off grid. A rede da concessionária existe apenas como backup para algum imprevisto.

Quando sobra energia, Samara aproveita para aquecer a água da piscina e da sauna às margens do rio. A mesma cachoeira que emoldura o quintal, portanto, é fonte de beleza, de lazer e de energia limpa para a propriedade.

Lixo que não vai para o lixão e vira comida, reciclagem e adubo

Desde 2017, Samara decidiu que não faria sentido morar em um paraíso de água limpa e mandar sacos de lixo para um aterro distante. Desde então, a fazenda praticamente não envia resíduos para lixão. Ela calcula que algo em torno de cinco toneladas de lixo por ano deixam de ser enterradas fora dali, graças a um sistema simples, disciplinado e preciso.

O primeiro passo é separar o que é orgânico. Restos de comida das moradias e do restaurante não vão para sacos pretos, vão para o galinheiro, para os animais.

Galinhas, marrecos e outros bichos ciscam, comem e ajudam a aproveitar aquilo que, em qualquer cidade, seria apenas resíduo. O que sobra depois disso vai para a composteira, onde vira terra preta, usada para adubar plantas e hortas.

Os recicláveis seguem outro fluxo. Vidros, plásticos, papel, papelão, embalagens longa vida, tudo é lavado antes de ser armazenado.

O material limpo é separado em grandes bags, por tipo, em um galpão afastado dos chalés e do restaurante. Quando os sacos enchem, um reciclador da região de Delfim Moreira passa para recolher o material e dar destino adequado.

Resta apenas uma fração mínima de lixo sujo, como papel higiênico e bitucas de cigarro, que ainda é queimada.

Samara sabe que não é ideal, mas lembra que o volume é muito pequeno depois que se tira tudo que serve de alimento para os animais e tudo que pode ser reciclado ou compostado. E reforça que o objetivo é melhorar esse ponto com o tempo, criando uma solução específica para essa última fração.

Animais soltos, lago vivo e mata em volta

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Outro pilar da rotina é a forma como os animais são manejados. Na fazenda, 100% dos animais adultos vive solto, sem gaiolas ou baias permanentes.

Galinhas, marrecos, gatos, cachorros, cavalos e até o pavão Abelardo circulam livremente pela área em torno da sede. Apenas os filhotes, mais vulneráveis ao frio, aos gaviões e aos acidentes, ficam em berçários protegidos até crescerem.

O lago em frente à casa, que chegou a ser um buraco tomado por mato e criadouro de cobras, foi recuperado sem veneno.

A solução foi colocar carpa capim para comer a vegetação e manter a  água clara. Hoje há bagres, carpas grandes de dois ou três quilos e algumas tilápias em teste. A pesca ali é esportiva, feita mais por diversão do que por necessidade.

Ao redor, a fazenda tem galinheiro em reforma, berçários para pintinhos, área de camping às margens do rio, um restaurante que funciona em fins de semana, chalés de madeira batizados com nomes de planetas e trilhas que conduzem a cachoeiras.

Ao todo, são sete quedas d’água que margeiam a propriedade, além de uma sauna à lenha colada no rio, com piscina de água de mina e vista para a mata.

Dos 211 hectares totais, Samara calcula que apenas cerca de 30 tenham algum tipo de ocupação. O restante é mata que ela faz questão de preservar, incluindo áreas de araucária que rendem pinhão em grande quantidade entre abril e junho.

Parte dessa produção abastece o restaurante com pratos à base de pinhão, do kibinho a receitas com carne.

Quando engenheira abandona a cidade, mas não abandona a engenharia

Durante cinco anos, depois que engenheira abandona a cidade para morar na fazenda, Samara ficou totalmente afastada da prática profissional, focada no aprendizado com a terra, com os animais, com a água e com a própria estrutura da Boa Esperança.

Esse tempo serviu para entender a lógica da roça, organizar o lixo, recuperar o lago, acompanhar a operação da usina e abrir espaço para hospedagem e camping.

A pandemia foi o ponto de virada que permitiu conciliar os dois mundos. A empresa em que ela trabalha hoje era 100% presencial até 2020. Com a chegada do home office, abriu-se a possibilidade de contratar profissionais que não vivem na mesma cidade da sede.

Foi assim que Samara voltou formalmente para a engenharia, trabalhando da sala da sua casa na roça e conectando o notebook a uma energia que sai da própria cachoeira do quintal.

Ela conta que está feliz em poder exercer a profissão de que gosta, na área em que se formou e fez mestrado em engenharia de energia, sem ter de desistir da vida na montanha.

A fazenda segue exigindo trabalho diário em animais, trilhas, manutenção, recepção e logística, mas agora se soma ao exercício da engenharia em um modelo híbrido que antes era impossível.

Refúgio aberto para quem quer respirar fora da cidade

A Boa Esperança não é apenas o lar da família e dos animais. Ao longo dos anos, o lugar se abriu como refúgio para quem quer “fugir da loucura da vida” por alguns dias.

Há chalés para casais e famílias, área de camping à beira do rio, restaurante que funciona em fins de semana e feriados, sauna, trilhas para cachoeiras e uma rotina que mistura cheiro de lenha, canto de sabiá, pavão gritando e barulho de água caindo.

Professores e estudantes de universidades como Unifei e Unicamp visitam a pequena usina hidrelétrica para aprender na prática como se mede vazão, como se calculam quedas, como se faz um projeto de baixo impacto funcionar por décadas.

Hóspedes procuram o lugar para descansar, caminhar, tomar banho de rio e sentir um pouco do que é viver onde engenheira abandona a cidade e reorganiza o próprio tempo em torno da natureza.

Samara diz que percebe na expressão de quem chega e de quem vai embora que o contato com o rio, com as cachoeiras e com os animais soltos faz diferença real no humor e na saúde de quem passa por ali. A fazenda virou não só casa, mas também projeto de vida e espaço de cura silenciosa para quem vem da cidade.

No seu caso, se tivesse a chance de seguir o caminho dessa história em que uma engenheira abandona a cidade, você teria coragem de trocar a rotina urbana por uma vida em um refúgio sustentável na Serra da Mantiqueira?

Fonte https://clickpetroleoegas.com.br/

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