FALA SÉRIO 122 – As engrenagens ocultas do privilégio no Brasil

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Escrito por Cláudio da Costa Oliveira janeiro 2026

INTRODUÇÃO

O Brasil não é um país pobre — é um país bloqueado. Bloqueado por um conjunto de mecanismos sofisticados que se repetem há décadas e permitem às elites manter privilégios à custa da sociedade. Esses mecanismos mudam de nome, de roupagem e de discurso, mas a essência permanece a mesma: preservar rendas, reduzir competição e manter o país dependente.

Vamos aprofundar os principais:

1. IMPORTAÇÃO PRIVILEGIADA

Este é um dos mecanismos mais discretos — e mais eficientes — de concentração de renda.

Como funciona

Determinados grupos recebem:

  • acesso antecipado a licenças de importação,
  • regimes especiais de tributação,
  • isenções direcionadas,
  • brechas legais que só funcionam para quem tem estrutura jurídica.

O resultado

Esses grupos tornam-se intermediários obrigatórios de produtos industrializados estrangeiros. Não produzem, não criam tecnologia, não geram cadeia produtiva — apenas monopolizam a porta de entrada do que o país precisa.

Falam em “modernização”, mas o efeito real é a desindustrialização permanente, pois cada importação favorecida significa uma fábrica nacional fechada ou jamais construída.

EXEMPLOS  

a) Zona Franca de Manaus (ZFM)

A ZFM foi criada com objetivo industrial, mas ao longo do tempo tornou-se porta de entrada de produtos importados montados com mínima agregação de valor.
Multinacionais recebem isenções e montam kits importados com benefícios que pequenas indústrias brasileiras jamais teriam.

Efeito: competição desleal, dependência de importações, e pouco estímulo ao desenvolvimento tecnológico local.

b) Automóveis de luxo

Por décadas, importadoras específicas tinham acesso facilitado a licenças, desembaraço rápido e incentivos que empresas comuns não tinham.
Enquanto isso, pequenas montadoras nacionais que tentaram competir — como a Gurgel — não receberam o mesmo tratamento, enfrentando burocracia e falta de apoio.

c) Medicamentos e equipamentos hospitalares

Alguns distribuidores nacionais tornaram-se intermediários exclusivos de marcas estrangeiras.
Hospitais privados e públicos precisam comprar deles, a preços muito superiores, porque as regras de certificação e homologação favorecem poucos importadores.

2. ARBITRAGEM FINANCEIRA

O sistema financeiro brasileiro opera numa lógica própria, desenhada para permitir ganhos garantidos e risco mínimo aos grandes detentores de capital.

Como funciona

  • juros altos atrativos,
  • títulos públicos com liquidez diária,
  • proteção cambial indireta,
  • ciclos de especulação de entrada e saída de capital.

A elite financeira vive de “carregar” capital ocioso — e não de produtividade. É a famosa frase:
“No Brasil ganha mais quem não produz nada.”

O resultado

Quando o dinheiro rende mais parado do que investido, o país não cresce. A elite financeira fica rica; o resto fica estagnado.

EXEMPLOS

a) Juros altos e títulos públicos

Durante anos, fundos e bancos lucraram com:

  • juros reais entre os mais altos do mundo,
  • liquidez diária,
  • risco quase zero,
  • retorno garantido acima da inflação.

Investir em fábrica e tecnologia requer risco; investir em títulos públicos no Brasil gera retorno maior e mais seguro, tornando a indústria irrelevante.

b) Ciclos de entrada e saída de capital

Investidores estrangeiros trazem dólares quando o juro está alto, ganham rendimentos elevados e saem com câmbio favorável.
Empresas nacionais ficam expostas à volatilidade que não elas criaram, mas que destrói previsibilidade de investimento produtivo.

c) “Ganhar na arbitragem do câmbio”

Bancos brasileiros lucram bilhões com:

  • spreads cambiais,
  • operações de hedge,
  • travas de derivativos.

Enquanto isso, empresas exportadoras e importadoras sofrem com custos imprevisíveis — um país que oscila entre câmbio artificialmente valorizado e desvalorizado conforme a conveniência de poucos.

3. VANTAGENS REGULATORIAS

Não são leis feitas para o país — são leis feitas sob medida para pequenos grupos.

Como funciona

  • regulações que criam barreiras de entrada,
  • certificações que só empresas grandes conseguem obter,
  • burocracias complexas que desestimulam novos competidores,
  • normas técnicas direcionadas,
  • prazos e exigências assimétricas.

Setores inteiros tornam-se clubes fechados. Não importa quem é mais competente; importa quem tem acesso aos reguladores e consultores certos.

O resultado

O Brasil parece um oceano de oportunidades desperdiçadas, mas na prática é um labirinto regulatório que só alguns conhecem o mapa. 

EXEMPLOS 

a) Setor de telecomunicações

O marco regulatório permitiu que poucas empresas controlassem:

  • infraestrutura de redes,
  • espectro,
  • distribuição de sinal.

A regulação é tão pesada que novos competidores quase não entram; quem entra depende da infraestrutura das gigantes — criando competição apenas aparente.

b) Setor de combustíveis (distribuição)

Para abrir uma distribuidora de combustíveis, a ANP exige:

  • capital mínimo alto,
  • estrutura logística extensa,
  • tanques homologados,
  • certificados caros.

Na prática, são barreiras que tornam o setor inacessível para novos entrantes, consolidando as grandes distribuidoras nacionais e estrangeiras.

c) Setor de eletricidade

As normas de operação e transmissão são tão complexas que só grandes empresas conseguem navegar.
Pequenas geradoras e cooperativas enfrentam anos de trâmites, enquanto grupos já estabelecidos influenciam a regulação e determinam

4. CAPTURA DE POLITICAS PUBLICAS

Tem algo mais sofisticado: a política pública desenhada para servir a interesses privados.

Como funciona

Grupos organizados:

  • financiam campanhas,
  • produzem “estudos técnicos” sob encomenda,
  • influenciam equipes econômicas,
  • ditam prioridades orçamentárias,
  • redigem parte dos projetos de lei.

Assim, aquilo que deveria ser um instrumento de desenvolvimento nacional torna-se ferramenta para congelar privilégios.

E depois vendem essa captura como “reforma necessária”.

O resultado

O Estado deixa de ser motor de desenvolvimento e passa a ser mecanismo de transferência de renda para poucos.

EXEMPLOS

a) Reforma tributária e renúncias fiscais

Setores inteiros — automobilístico, bebidas, química — conseguem benefícios específicos, renovações anuais e isenções moldadas sob medida.
A carga tributária pesada sobra para:

  • pequenos empresários,
  • consumidores,
  • setor produtivo interno.

b) Lobby de bancos nas discussões de política monetária

Grandes bancos influenciam análises, relatórios e discursos que justificam juros altos.
Economistas ligados a essas instituições tornam-se referência para decisões públicas, criando um ciclo onde a política monetária atende o setor financeiro antes do país.

c) Privatizações conduzidas por consultorias e bancos envolvidos

Em vários processos de privatização, consultorias responsáveis pelos estudos de viabilidade também assessoram potenciais compradores — conflito de interesse claro, porém institucionalizado.  

ANEXO 1 – MP do trilhão

5. VENDA DE ATIVOS NACIONAIS

A cereja do bolo: quando tudo está pronto, quando o país está fragilizado, quando o discurso de “crise” está consolidado, iniciam-se os processos de venda de ativos estratégicos.

Como funciona

  • cria-se artificialmente a percepção de que estatais são “ineficientes”,
  • subfinancia-se a empresa até que ela pareça inviável,
  • anuncia-se a necessidade de “capital privado”,
  • vende-se o ativo por valor muito abaixo do potencial,
  • a empresa renasce nas mãos de novos controladores — agora estrangeiros.

É o roteiro clássico de captura, fragilização e transferência patrimonial.

O resultado

O país abre mão:

  • de fontes estáveis de receita,
  • de setores estratégicos,
  • de soberania energética e industrial,
  • e de capacidade de planejamento de longo prazo.

É como vender o relógio para pagar o táxi.

EXEMPLOS 

a) Vale do Rio Doce (1997)

  • para seu patrimônio mineral,
  • capital majoritariamente estrangeiro,
  • posterior valorização exponencial da empresa mostrou o tamanho da subavaliação.

b) Empresas de distribuição da Eletrobras (anos 2010)

Primeiro foram sucateadas: atrasos de investimentos e limitações artificiais.
Depois vendidas por valores simbólicos, algumas por R$ 50 mil, R$ 70 mil — menos que um carro popular.

Após a privatização, investimentos reaparecem milagrosamente, mostrando que o problema não era técnico, mas estratégico.

c) Gasodutos da Petrobras (TAG e NTS)

  • vendidos para fundos estrangeiros,
  • Petrobras passou a alugar seus próprios gasodutos,
  • operação gerou custo recorrente ao país.

É como vender o portão da própria casa e depois pagar aluguel para entrar.

d) Pré-sal e conteúdo local

A mudança nas regras de exploração reduziu exigências de conteúdo nacional e abriu margens enormes para empresas estrangeiras, enfraquecendo siderurgia, metalurgia e engenharia brasileiras.

ANEXO 2 – NTS privatização lesiva 

CONCLUSÃO – O PADRÃO É CLARO

A elite brasileira não atua criando indústria, tecnologia ou inovação.
Ela atua criando mecanismos de extração de renda, operando o Estado como ferramenta de:

  • proteção de importações,
  • especulação financeira,
  • barreiras regulatórias,
  • captura de políticas,
  • privatização de ativos subvalorizados.

Não é falha do sistema — é o sistema.

O Brasil não avança porque não pode ou porque não deixam?

A narrativa dominante sempre culpa o povo, o tamanho do Estado, a burocracia ou a “cultura brasileira”.
Mas quando olhamos com mais atenção, percebemos que o grande obstáculo não é cultural — é estrutural.

O país é mantido numa posição subordinada porque isso é extremamente lucrativo para quem controla:

  • importação,
  • finanças,
  • regulação,
  • políticas públicas,
  • e patrimônio nacional.

E enquanto essa estrutura permanecer intocada, qualquer tentativa de desenvolvimento real será sabotada no nascedouro.

OBSERSVAÇÕES, COMENTARIOS, CRITICAS :  soberanobrasileds@gmail.com 

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