PLP 182/2025: A tempestade tributária que pode afogar a energia solar brasileira

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O governo federal está revivendo uma proposta que há 20 anos causou uma das maiores revoltas do setor produtivo brasileiro. O PLP 182/2025 traz de volta o espírito da famigerada MP 232 de 2004, conhecida como “tsunami tributário”.

Mas se em 2004 o alvo eram apenas prestadoras de serviços, agora o alcance é muito maior.

O fantasma de 2004 voltou. E desta vez, pode ser pior.

A Conta Não Fecha (E Alguém Vai Pagar)

E tem um setor que pode ser especialmente devastado: energia solar e armazenamento.

Vamos direto ao ponto. O governo precisa de dinheiro. A meta de superávit primário de 0,25% do PIB em 2026 (cerca de R$ 34,3 bilhões) parece cada vez mais distante. Os gastos tributários explodiram: de R$ 34 bilhões em 2003 para R$ 564 bilhões em 2024 — um crescimento de 16,6 vezes.

A solução? O PLP 182/2025 propõe duas frentes de ataque:

Primeiro golpe: Aumentar 10% na base de cálculo do IRPJ e CSLL para empresas do Lucro Presumido que faturam acima de R$ 1,2 milhão/ano. Serviços vão de 32% para 35,2% de presunção. Comércio e indústria, de 8% para 8,8%.

Segundo golpe: Cortar 10% dos benefícios fiscais federais. PIS/Cofins, IPI, ICMS — nada escapa.

Resultado esperado: R$ 19,76 bilhões em 2026. Só que tem um problema. Um problema grande.

A Tempestade Perfeita: Quando Dois Tsunamis Se Encontram

Aqui está o ponto que poucos estão discutindo: o PLP 182 não vem sozinho. Ele chega junto com a Reforma Tributária, que introduz a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) a partir de 2026.

Para o setor de energia solar, é como se dois tsunamis se encontrassem no meio do oceano. O resultado? Uma onda gigante.

Os números não mentem:

Equipamentos solares, antes isentos de ICMS em muitos estados, passarão a ser tributados em 28% (IBS + CBS). Mesmo com a redução de 70% prevista na lei, a carga efetiva sobe para 9%. Parece pouco? Compare com os atuais 3,65% de PIS/Cofins. É um aumento de 6 pontos percentuais. Ou, em termos práticos, um aumento de 164% na carga tributária.

E tem mais. O modelo de locação de equipamentos — dominante na geração distribuída — passa a ser tributado pelo IBS. Antes, não era tributado nem por ICMS, nem por ISS. Agora, entra na conta cheia.

Geração Distribuída: O Patinho Feio da Reforma

A geração distribuída, que representa a maior parte do mercado solar brasileiro, está na linha de tiro. E o pior: muitos empresários ainda não perceberam.

O que está mudando:

Primeiro, a eliminação de benefícios tributários na geração compartilhada. Eles passam a ser limitados ao autoconsumo local até 1 MW. Para quem opera em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, o impacto será brutal.

Segundo, o modelo de negócio precisa ser repensado. Locação de equipamentos? Tributada. Geração compartilhada? Sem benefícios. Contratos antigos? Podem virar pó.

Terceiro — e aqui está a bomba-relógio que poucos estão vendo — o fim do PIS/Cofins em 2027. Hoje, a isenção de ICMS na compensação da energia gerada está vinculada à isenção desses tributos. Com a extinção do PIS/Cofins, há risco real de perder também a isenção do ICMS.

Traduzindo: o que já era ruim pode ficar muito pior.

Armazenamento: A Única Boa Notícia do Dia

Nem tudo é desastre. O segmento de armazenamento de energia (BESS) pode, finalmente, respirar.

Hoje, esses equipamentos são penalizados por IPI. Com a extinção desse imposto a partir de 2027, a tributação fica mais neutra sob IBS e CBS. Resultado: aumento da competitividade no médio prazo.

Além disso, o imposto de importação para equipamentos solares foi reduzido de 25% para 9,6%, beneficiando toda a cadeia produtiva.

Mas atenção: essa redução no imposto de importação não compensa o aumento de 28% na tributação interna. É como ganhar um desconto na entrada, mas pagar o dobro na mensalidade.

O Problema Real: Ninguém Está Preparado

Aqui está a parte assustadora: a maioria dos empresários do setor de energia solar ainda não está preparada para o que vem por aí.

Conversas com integradores, investidores e consultores revelam um padrão preocupante:

  • Poucos revisaram contratos à luz da LC 214/2025;
  • Menos ainda adequaram sistemas de faturamento para a DERE (obrigatória em 2026);
  • Planejamento tributário? Quase ninguém fez;
  • Janelas de oportunidade? A maioria nem sabe que existem.

E olha que tem uma janela crítica se fechando: contratos de locação de imóveis registrados até o fim de 2025 poderão manter a carga tributária reduzida de 3,65% ao longo de sua vigência (Art. 487 da LC 214/2025).

Estamos em novembro de 2025. Falta pouco mais de um mês. E a maioria está dormindo no ponto.

Manual de Sobrevivência: 7 Ações Para Não Afundar

Se você atua no setor de energia solar ou armazenamento, estas são as ações que podem salvar seu negócio:

1. Aproveite a Janela de 2025 (Urgente)

O que fazer: Registre todos os contratos de locação de imóveis até 31 de dezembro de 2025.

Por quê: O artigo 487 da LC 214/2025 garante manutenção da carga tributária de 3,65% ao longo da vigência do contrato. Depois dessa data, a alíquota sobe para 9% (com redução) ou 28% (sem redução).

Como fazer: Procure um advogado tributarista para revisar e registrar contratos em cartório. Não deixe para última hora — os cartórios vão ficar lotados em dezembro.

2. Migre Para o Modelo BTS (Build to Suit)

O que é: Transformar contratos de locação de equipamentos em locação imobiliária com benfeitorias.

Vantagem: Permite aplicar a redução de 70% na alíquota, reduzindo a tributação de 16% para 9%-14%.

Como implementar:

  • Reestruture contratos para caracterizar a operação como locação imobiliária;
  • Incorpore os equipamentos ao imóvel como benfeitorias;
  • Ajuste a precificação para alocar valor estrategicamente.

Atenção: Isso exige planejamento tributário sofisticado. Contrate especialistas.

3. Revise Todos os Contratos Vigentes

O que revisar:

  • Cláusulas de reequilíbrio tributário (podem não valer para contratos pós-janeiro/2025);
  • Prazos de vigência (contratos longos podem ser mais vantajosos);
  • Possibilidade de aditivos contratuais.

Dica de ouro: Contratos devem citar diretamente a Lei Complementar 214/2025 e prever renegociação em caso de desequilíbrio. Cláusulas genéricas não funcionam mais.

4. Adeque Sistemas de Faturamento Para DERE

O que é DERE: Declaração Eletrônica de Regimes Específicos, obrigatória a partir de 2026.

O que muda:

  • Tributos serão recolhidos automaticamente;
  • Créditos disponibilizados de forma centralizada;
  • Controle financeiro precisa ser muito mais rigoroso.

Ação prática: Contrate ou atualize seu sistema de gestão (ERP) para integração com a DERE. Teste em ambiente de homologação antes de 2026.

5. Faça Planejamento Tributário Agressivo

Estratégias a considerar:

Holding patrimonial: Separar ativos (painéis, inversores) em uma empresa e operação em outra pode otimizar tributação.

Regime de tributação: Avaliar se Lucro Presumido ainda é vantajoso ou se vale migrar para Lucro Real (permite compensação de créditos).

Créditos tributários: Mapear todos os créditos possíveis de IBS e CBS. A não-cumulatividade pode gerar créditos significativos.

Precificação estratégica: Alocar custos de forma inteligente entre diferentes etapas da cadeia (a analogia do “combo do Big Mac”).

6. Diversifique Para Armazenamento de Energia

Por quê: BESS será beneficiado pela extinção do IPI e terá tributação mais neutra.

Como:

  • Inclua sistemas de armazenamento em novos projetos;
  • Ofereça soluções híbridas (solar + storage);
  • Posicione-se para o mercado de baterias, que deve crescer exponencialmente.

Oportunidade: Empresas que entrarem agora no mercado de storage terão vantagem competitiva quando o setor decolar em 2027.

7. Monitore a Tramitação do PLP 182 e Atue Politicamente

Status atual:

  • Aprovado na CFT (Comissão de Finanças e Tributação);
  • Aguarda CCJC (Comissão de Constituição e Justiça);
  • Regime de prioridade.

O que fazer:

  • Acompanhe votações e pareceres;
  • Participe de associações setoriais (ABSOLAR, ABGD);
  • Pressione parlamentares da sua região;
  • Articule com outras empresas para lobby conjunto.

Lembre-se: A MP 232 de 2004 foi revogada graças à mobilização do setor produtivo. História pode se repetir.

Três Cenários: Qual Será o Seu?

Cenário 1 — O Sobrevivente Estratégico:

Você aproveitou a janela de 2025. Migrou para BTS. Revisou contratos. Adequou sistemas. Diversificou para storage. Resultado: mantém competitividade, cresce margem, expande mercado.

Cenário 2 — O Realista Resiliente:

Você fez parte da lição de casa, mas não tudo. Absorveu parte dos custos na margem. Repassou parte ao cliente. Perdeu alguns projetos, mas manteve o negócio vivo. Resultado: crescimento desacelera, mas empresa sobrevive.

Cenário 3 — O Despreparado:

Você ignorou os alertas. Não revisou contratos. Não se adaptou. O aumento de 164% na carga tributária chegou de surpresa. Projetos inviabilizados. Clientes migrando para concorrentes. Resultado: crise, demissões, possível fechamento.

Qual cenário você quer para sua empresa?

O Dilema do Governo: Cortar Gastos ou Aumentar Impostos?

Cortar gastos públicos em ano eleitoral é suicídio político. Aumentar impostos, embora impopular, é mais fácil de aprovar no Congresso — especialmente quando o aumento é “disfarçado” como redução de benefícios.

É a velha história: quando a conta não fecha, quem paga é sempre o setor produtivo.

Acorde Antes Que Seja Tarde

O PLP 182/2025 e a Reforma Tributária representam uma mudança estrutural profunda para o setor de energia solar e armazenamento no Brasil.

A combinação entre o PLP 182 e a Reforma Tributária (CBS e IBS) cria uma tempestade perfeita que pode inviabilizar projetos, frear o crescimento e colocar empresas na lona.

Mas não precisa ser assim.

As ferramentas para mitigar os riscos existem. A janela de 2025 ainda está aberta. O modelo BTS funciona. Os créditos tributários podem ser aproveitados. O armazenamento de energia é uma oportunidade real.

O que falta? Ação. Urgência. Planejamento.

A adaptação precisa começar agora, não em 2026 ou 2027.

A discussão no Congresso será crucial. Resta saber se o diálogo prevalecerá sobre a imposição. Ou se, mais uma vez, o setor de energias renováveis — um dos mais promissores da economia brasileira — terá que engolir um aumento de carga tributária em nome do “equilíbrio fiscal”.

O tsunami está vindo. A questão é: você vai estar preparado quando ele chegar?

E você? Como sua empresa está se preparando para essas mudanças? Quais estratégias está adotando?

FONTE https://www.portalsolar.com.br/

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